Dilma afundou a economia e Lula acha que vai sobrar para ele

Ninguém gosta, é claro, dos resultados horrorosos que a gestão Dilma tem apresentado. Mas Lula parece gostar menos ainda

São Paulo – Têm ampla circulação, nas salas onde se conversa a portas fechadas, os comentários de que o ex-presidente Lula estaria plenamente insatisfeito com o desempenho de sua sucessora, Dilma Rousseff, à frente do governo.

Lula, segundo se repete nos círculos à sua volta, não está feliz com quase nada do que tem visto, mas o foco central de seu descontentamento é a gestão atroz da economia durante estes quatro anos e meio da presença de Dilma no Palácio do Planalto — logo ela, Dilma Rousseff em pessoa, que seu criador descrevia como uma gerente “excepcional”, capaz de proezas administrativas que iriam deixar o planeta em transe de admiração.

Durante algum tempo, Lula fez bravos esforços para acreditar na fantasia da “gerentona”, pelo menos nos discursos. Mas quem diz economia diz resultados, e os resultados que Dilma tem posto à mesa são exatamente os que estão aí na frente de todo mundo — uma gororoba de números horrorosos que acaba com qualquer boa vontade em relação à cozinheira.

Ninguém gosta, é claro, mas o ex-presidente parece gostar menos do que todo mundo. Pelo que se murmura em suas vizinhanças, Lula começa a ficar com a impressão de que a performance econômica de Dilma pode causar avaria grossa em sua biografia; ela estaria “estragando” tudo aquilo que ele imagina ter construído.

A má notícia, aí, é que Lula pode estar certo. O atual governo ainda tem três anos e meio de contrato a cumprir — e, se de um lado isso significa que ainda há tempo para uma recuperação, também está perfeitamente claro que a caminhada até o fim do mandato vai demorar um colosso.

O que se tem à vista, no momento, não é de animar. O problema não está propriamente na ação do governo; ao contrário, o comando econômico, de janeiro para cá, tem agido de maneira consistente, profissional e aplicada contra o desastre arquitetado e executado com pertinácia pelo Palácio do Planalto desde 2011.

Tenta tomar as medidas necessárias para lidar com a situação objetiva que está aí; trabalha dentro de uma racionalidade desconhecida pela política econômica dos quatro primeiros anos do governo Dilma.

O problema está na evidência de que ao Brasil, com os problemas que tem hoje, não basta escapar do abismo — é preciso construir um futuro, e disso não há sinal. Nada do que possa levar ao progresso verdadeiro está em consideração pelos gestores da economia nacional, e nada indica que venha a estar em prazo próximo.

Os receios de Lula quanto à possível desconstrução de sua imagem ganham reforço com a divulgação, a cada mês, dos números doentes do balanço de contas externas — um dos setores da economia que mais brilharam em seu governo e colocaram o Brasil provavelmente na melhor situação cambial de sua história econômica.

Em seus oito anos na Presidência, Lula viu a balança comercial ter superávit oito vezes seguidas. No ano passado, as exportações brasileiras ficaram abaixo das importações em 4 bilhões de dólares — não se via isso desde 2000, o último ano em que o país teve déficit na balança comercial.

Na conta maior, a do balanço de pagamentos, a coisa está pior. Os últimos números, referentes ao mês de abril de 2015, mostram um déficit de 7 bilhões de dólares no total das transações externas do Brasil; até o fim do ano, o rombo deve chegar a 85 bilhões.

Não se trata de um percalço transitório, e sim da consequência direta de decisões econômicas e políticas claramente ineptas, tanto na frente interna quanto nas relações do país com o exterior. A evidência disso é o déficit de 105 bilhões de dólares no balanço de pagamentos de 2014, o maior que o Brasil jamais teve. Não existe acaso em catástrofes desse tamanho.

Lula sabe que os cerca de 370 bilhões de dólares que o Brasil tem em reservas cambiais no momento, e que nos separam de uma situação de insolvência em moeda forte, foram originados pelo sucesso das contas externas brasileiras durante seu governo. Não quer, é óbvio, ver essa poupança indo para o espaço.