Estilo | Passarela no set

Existe uma boa razão para assistir aos filmes de Quentin Tarantino: os figurinos

Uma estreia de Quentin Tarantino é garantia de referências a filmes de kung fu e spaghetti western, roteiros não lineares, bons diálogos, humor, violência… É também certeza de excepcionais figurinos, masculinos e femininos, que acabam ditando tendência.

Um dos mais lembrados é o de Mia Wallace, a emblemática personagem de Uma Thurman em Pulp Fiction. De franja e cabelo chanel, batom e unhas vermelhos, ela vestia blazer preto com calça slim e camisa branca. Era o que se poderia esperar do vestuário da esposa de um mafioso, conforme pedido de Tarantino. Uma linha minimal, bem anos 90.

Em Kill Bill, a mesma Uma Thurman interpreta uma assassina especialista em artes marciais que é morta no dia de seu casamento. Em muitas cenas ela está de jaqueta de couro e calça skinny, mas a peça de maior destaque nesse filme é o sneaker amarelo da Onitsuka Tiger.

Não é gratuito: trata-se de uma réplica do tênis usado por Bruce Lee em Jogo da Morte. Em Bastardos Inglórios, ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, as duas protagonistas, Diane Kruger e Mélanie Laurent, usam um mix de peças femininas e masculinas, em voga na segunda metade do século passado. Alguma semelhança com a moda boyfriend, febre nos últimos anos?

Era Uma Vez em Hollywood, com estreia prevista para 15 de agosto, apresenta Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, respectivamente um ator e seu dublê, tentando um espaço na meca do cinema em meio ao florescimento da cultura hippie em 1969. Prepare-se, portanto, para ver muitas blusas de gola rulê, jaquetas de couro, alfaiataria com vinco e calças boca de sino. Os looks monocromáticos variam do jeans ao branco total.

O filme se passa no verão, época apropriada para camisas havaianas. Margot Robbie, que interpreta a atriz Sharon Tate, brilha de minissaia branca e botas de cano alto. A peça-chave promete ser a camiseta branca com o logo da Champion, tradicional marca de peças de automóveis, com cópias piratas já à venda.

Muita gente considera moda um ato imediatista de consumir roupas. É bem mais do que isso. Moda é uma expressão individual de identidade, mas também faz parte de todo um contexto social, político e cultural. É um reflexo do entorno, dos valores e debates de cada época.

Nesse sentido, os cabelos em desalinho, os tons vibrantes e o clima de contracultura da Califórnia dos anos 60 são um alento, um contraponto ao momento atual de intolerância e falta de diálogo. Não é só coincidência que, entre as tendências recentes vistas nas passarelas e nas ruas, estão o sidecut, esse corte militar raspado na lateral, e o predomínio da cor verde-oliva. Quer um conselho? Vá ver o filme. Serão 2h45 de puro escapismo — e muita inspiração. n