Viagem | Paraíso sem carbono em Noronha

O arquipélago mais famoso do Brasil é um refúgio em estado selvagem. E em breve terá combustão zero

Quem escolhe visitar Fernando de Noronha, esse arquipélago formado por ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica na altura de Pernambuco, está à procura de trilhas que dão acesso a praias desérticas e paradisíacas, mergulhos ao lado de golfinhos e contemplação (a distância) de tubarões, contato com espécies raras de vegetação, cantoria de pássaros, céu azul, vento no rosto e, como ninguém é de ferro, um pescado local preparado por um nativo. Para coroar o dia, cabe até um controverso aplauso do pôr do sol em algum monte com vista privilegiada.

Convenhamos, em um cenário como esse, um ser motorizado causa ruído — não só à audição mas também ao senso estético. A última coisa em que se pensa ao procurar um refúgio para descansar a mente, colocar o corpo para se mexer e ativar os sentidos é entrar em contato com algo que lembre a civilização industrial. Só que um carrinho é fundamental para andar de um canto a outro ali, percorrendo uma pequena parte dos cerca de 17 quilômetros quadrados do território principal. Não sejamos radicais, portanto. O ideal é que eles, os animais do asfalto, componham com a paisagem local, em uma união de diferentes em prol do bem comum.

O Twizy, da Renault: doação para a ilha que antecipa medida de proteção ambiental | Divulgação

E era justamente assim que eu me sentia, completamente integrado, passando por pontos paradisíacos, como a Baía dos Porcos e a Praia da Cacimba do Padre, enquanto estava ao volante do Zoe, o modelo 100% elétrico da Renault, campeão de vendas na Europa e disponível no mercado brasileiro. Dirigia sem fazer barulho, sem espantar os bichos, sem causar ruído na sinfonia da natureza, porque o motor elétrico, sabemos, age na surdina, sem fazer alarde.

Dirigia ciente de que não estava poluindo, porque o motor elétrico, sabemos também, não emite gases tóxicos. E, dispondo de uma autonomia de 300 quilômetros do Zoe, não tinha dúvida de que teria energia suficiente para eu subir e descer a BR-363, a menor do país, com seus cerca de 6 quilômetros de comprimento — não, não me aventurei a sair do caminho…

A pergunta que cabe é: o que um carro como o Zoe, na vanguarda da tecnologia, estava fazendo ali, um pedaço que parou no tempo (e é bom que continue assim, longe do desenvolvimento urbano), tão distante do continente? Não, não foi nadando, com um pedido de desculpas pela descontração, até porque, já dissemos, a região é infestada de tubarões… O Zoe, melhor dizendo, três deles chegaram acompanhados de dois Twizy, veículo pequeno de dois lugares, e um furgão Kangoo Z.E., todos elétricos, entregues pela Renault em regime de comodato para ser utilizados pela administração de Fernando de Noronha, como parte do Projeto Noronha Carbono Zero. O anúncio da parceria movimentou a Praia do Porto de Santo Antônio, não apenas pelas celebridades motorizadas como pela presença dos atores globais Carol Castro, Giovana Cordeiro, Bruno Gagliasso e Jonathan Azevedo, o NegBlack, todos apoiadores da causa. A causa agradece.

Sim, é um número com pouca expressão, considerando que a frota local, segundo o IBGE, chegava a 1.330 veículos em 2018, mas este é só o começo. Decreto assinado pelo governador de Pernambuco, Paulo Câmara (pendente de aprovação na Assembleia Legislativa do estado), prevê que, a partir de 2022, não será mais permitida a entrada de carros, motos, ônibus e caminhões que emitam dióxido de carbono. E, de 2030 em diante, veículos com motores a combustão terão de sair de vez de Noronha. Nem mesmo híbridos serão tolerados. Será o primeiro território brasileiro a adotar essa medida.

Ou seja, é questão de tempo para essa frota mudar o tom do motor. Tanto que a Renault já abriu a venda de modelos elétricos para moradores da ilha, com condições especiais de pagamento — a ser detalhadas. Hoje, os preços são os seguintes: Zoe, 149.990 reais; Kangoo Z.E., 128.990 reais; e Twizy: 82.990 reais. Conversando com os motoristas locais, essas cifras os faziam arregalar os olhos. Mas, diante da possibilidade das tais “condições especiais de pagamento”, o que mais os incomodava era o perfil do carro ideal para aguentar o tranco ali. Diziam que tinha de ser algo forte, com suspensão alta, tração nas rodas suficiente para enfrentar ladeiras e pisos escorregadios, tipo os SUVs da Mitsubishi e Toyota que circulam regularmente por lá.

Com a sabedoria local, não tenho como discutir, evidentemente. Como mero visitante, atesto: ao volante de um elétrico, em estrada asfaltada, rodei de cabeça erguida, ciente de que não era um intruso devastador do meio ambiente, naquele que é considerado pela Unesco um Patrimônio Mundial da Humanidade desde 2001.