Os ricos são de direita?

Uma pesquisa mostra que pessoas que enriquecem subitamente passam a adotar posições mais conservadoras. O bolso, ao que parece, influencia nosso olhar sobre a política

São Paulo – “Se você não é de esquerda aos 20 anos, não tem coração. Se não se torna um conservador aos 40, não tem cérebro.” A frase costuma ser atribuída ao ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill, mas variações da mesma citação seriam de autoria do segundo presidente americano, John Adams, do historiador francês François Guizot, morto em 1874, e do também francês Geor­ges Clemenceau, primeiro-ministro que conduziu o país durante a Primeira Guerra Mundial.

Independentemente de quem a tenha cunhado, a frase é poderosa — a maior prova disso é a quantidade de vezes que é mencionada. O que faz uma pessoa pender mais para a esquerda ou mais para a direita no espectro político é um tema que vem intrigando cientistas políticos há pelo menos dois séculos.

Várias pesquisas nas últimas décadas mostraram haver uma correlação entre ser rico e tender a votar em partidos conservadores, mas sempre restava a dúvida: essas pessoas são ricas porque são de direita ou são de direita porque são ricas?

No começo deste ano, um estudo publicado na Inglaterra parece ter dado mais um passo na busca da resposta. Os professores Nattavudh Powdthavee, da Escola de Economia da Universidade de Londres, e Andrew Oswald, da Universidade de Warwick, analisaram os dados de uma pesquisa por amostra de domicílios realizada anualmente pelo governo britânico.

O foco principal foi a posição política das 4 300 pessoas que declararam ter ganhado algum prêmio de loteria ou dinheiro em casas de apostas de 1996 a 2009.

O que Powdthavee e Oswald descobriram é que cerca de 15% dos premiados mudaram sua posição política logo após receber o dinheiro — sempre na mesma direção, da esquerda (nesse caso, os Trabalhistas ingleses) para a direita (o Partido Conservador). Quanto mais alto o valor do prêmio, maior foi a tendência a se identificar com a direita.

“A visão política das pessoas é extremamente influenciada pelo interesse próprio”, diz Powdthavee­. “Como os partidos políticos mais conservadores costumam ser contra o aumento da carga tributária sobre os mais ricos, eles acabam atraindo mais votos dessa parcela da população.”


A constatação de que as pessoas pensam no próprio bolso quando votam já tinha sido feita anteriormente por Powdthavee e Oswald — nesse primeiro caso, com um resultado inusitado. Uma pesquisa realizada pelos dois em 2010 mostra que questões de gênero podem influenciar a decisão nas urnas.

Cruzando dados sobre votos em eleições passadas e número de filhos e filhas dos eleitores, os dois economistas chegaram à conclusão de que, na Inglaterra, pais de meninas costumam se alinhar mais com o Partido Trabalhista e pais de meninos com o Partido Conservador.

Quanto maior o número de filhas, mais chance de a família votar na esquerda — a cada menina, a probabilidade au­menta 2 pontos percentuais. De acordo com a pesquisa, pais de garotas tendem a achar que os Trabalhistas vão implementar políticas que reduzam a desigualdade de gênero, como o desequilíbrio salarial entre homens e mulheres. A mesma metodologia ­foi aplicada na Alemanha e chegou a ­resultados semelhantes.

À esquerda e à direita do quê?

Por mais interessante que sejam, pesquisas como essas têm uma limitação importante. Elas partem de uma simplificação extrema da política: há, de um lado, a esquerda; de outro, a direita. As pessoas com mais de 40 anos cresceram num mundo em que essa polaridade parecia servir para representar as principais correntes políticas. Hoje — felizmente —, o mundo parece bem mais complexo.

“Considero uma preguiça intelectual continuar rotulando as pessoas em direitistas e esquerdistas”, diz o economista e filósofo Eduar­do Giannetti. “As pessoas são conservadoras em alguns aspectos e progressistas em outros. E isso combinado de muitas maneiras diferentes. O importante é debater quais ideias estão em jogo em cada discussão.”

Vale olhar o exemplo dos Estados Unidos, país que consagrou a democracia de massas. A maior parte dos membros do Partido Republicano com mais de 40 anos é a favor do estado mínimo e da não intervenção estatal na economia, mas apoia a intromissão do governo nas questões de foro individual, pois é contrária ao casamento gay e à liberalização das drogas.

“Até há algum tempo, era mais fácil pontuar­ o que era ser de direita ou de esquerda”, afirma Jairo Nicolau, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Quando as questões culturais e de costumes passaram a entrar na equação, tudo ficou mais complicado.”


Nas discussões sobre os rumos da economia, a separação entre direita e esquerda também embolou. Os mesmos dirigentes do PT que combateram as concessões à iniciativa privada nos governos do PSDB nos anos 90 agora defendem a política de privatização da presidente Dilma Rousseff.

Nos Estados Unidos, uma nova variedade de democratas, a chamada Terceira Via, tem ganhado espaço no cenário político americano. Em dezembro, essa ala democrata considerada “centrista” publicou um artigo no Wall Street Journal em que acusa o próprio partido de promover políticas econômicas populistas — papel que é costumeiramente desempenhado pelos conservadores republicanos.

Os termos direita e esquerda foram cunhados durante a Revolução Francesa, quando os girondinos, que apoiavam a monarquia, sentavam-se à direita no salão da Assembleia Nacional, e os jacobinos, a favor da revolução, à esquerda. Os conceitos atravessaram mais de dois séculos e, até certo ponto, foram úteis.

Os anos de Guerra Fria exigiam rótulos para um mundo extremamente polarizado, mas a globalização acabou derrubando essa divisão binária. Alguns filósofos propõem discutir o pensamento político de outra forma: sob a ótica da liberdade e da igualdade.

Aqueles que se identificam com a esquerda prezam mais o valor da igualdade, assim como quem hoje se reconhece na direita preza mais o valor da liberdade. Ainda assim, essas definições não são perfeitas. “Não há liberdade sem um mínimo de igualdade, e não há igualdade sem um mínimo de liberdade”, diz Giannetti.


O país sem debate

No Brasil, onde nenhum partido declara ser conservador e impera um falso consenso, a discussão de ideias é a principal vítima

O economista Roberto Campos, morto em 2001, foi um dos nomes mais proeminentes da direita brasileira. Dizia que “o bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito”. Se ainda estivesse vivo, Campos seria uma figura pública quase isolada.

O Brasil tem hoje 32 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Com base em suas siglas, observa-se que o cenário político nacional é habitado na maioria por socialistas, trabalhistas e democratas — quando não há uma junção entre eles, como o Partido Democrático Trabalhista.

A contar pelas legendas, não há nenhum partido que se reconheça conservador. “A direita no Brasil acabou associada à ditadura militar e ao autoritarismo”, diz João Augusto de Castro Neves, diretor da consultoria política Euroasia Group. Ser de direita virou um xingamento, uma acusação, sinônimo de retrógrado.

Essa ausência de políticos declaradamente conservadores acabou por empobrecer o debate. Aos olhos dos eleitores, todos parecem ser iguais nas posições sobre os grandes temas. “Falsos consensos não ajudam a discussão a evoluir”, diz Castro Neves. Uma direita convicta disposta a defender suas ideias ajudaria os próprios partidos mais à esquerda a reforçar seus pontos de vista.

Em meio a esse quadro político confuso, não chega a ser surpresa que o eleitor brasileiro esteja perdido. Uma pesquisa inédita de Jairo Nicolau, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que, durante as eleições presidenciais de 2010, 11% dos brasileiros se autodenominavam de esquerda e 17% de direita (outros 29% se consideravam de centro e 43% não sabiam).

Entre os eleitores de esquerda, 60% votaram na presidente Dilma Rousseff. A surpresa veio entre aqueles que se reconhecem de direita: 40% declararam voto na candidata do PT. “Ainda há pessoas que entendem que o governo é a direita; e a oposição, a esquerda”, diz Nicolau.