J. R. Guzzo | Os primeiros sinais de melhora

Há uma lógica indicando que as coisas na economia têm mais possibilidade de ir para a frente do que para trás

A questão mais repetida do momento no mundo dos negócios e junto ao público em geral não é exatamente saber se estão aparecendo sinais de recuperação econômica. Na maioria das opiniões, e com base na observação dos fatos que podem ser verificados neste momento, há, sim, elementos para dizer que a atividade econômica, após quase nove meses de governo novo, dá algumas primeiras mostras de retomada.

O problema é saber de qual tipo de retomada se está falando. A movimentação que está acontecendo em diversos setores da economia significa que o Brasil está mesmo diante de um reinício de crescimento? Pergunta-se muito sobre o ritmo do processo — não estaria sendo muito lento? Estaria sendo uma mudança em algumas áreas determinadas ou um fenômeno mais geral? Seria um caso de “muito pouco” em um período de tempo que já deveria ter produzido mais resultados visíveis?

O mais provável é que essas incertezas continuem por aí durante algum tempo — a tendência é que o grosso do mundo dos negócios continue em sua presente atitude de esperar e ver para crer. Mas há uma lógica indicando que as coisas têm muito mais possibilidades de ir para a frente do que de ir para trás ou de ficar paradas do jeito que estão.

É algo para pensar, num país que há mais de 20 anos vem alternando períodos de voo de galinha com períodos de recessão pura e simples.

Há, é claro, os intratáveis “problemas estruturais” que lhe são repetidos em 100% das análises feitas pelos economistas — e que podem ser resumidos no imenso fato de que o Brasil está obrigado a viver dentro de um sistema que torna inevitável sua eterna situação de falência. Gasta mais do que consegue produzir, simplesmente — e gasta segundo uma irracionalidade suicida, ao transferir cada vez mais para poucos o que deveria ser usufruído por muitos.

Mas isso é algo que não vai ser resolvido daqui a meia hora. O único mundo disponível hoje para os brasileiros é esse que está aí. E os avanços que interessam são os avanços possíveis.

Dentro do que é possível esperar, não parece haver lógica na ideia de que um governo objetivamente melhor do que os anteriores só consiga produzir, no fim das contas, os mesmos resultados. Essa comparação não é apenas com governos muito ruins — é com governos anormais, capazes de armar uma catástrofe econômica que se estendeu por anos inteiros, incluindo a maior recessão de toda a história do Brasil.

Pelo simples fato de não estar sob a mesma direção, e seguindo na direção do mesmo precipício, o país já melhora por si só. Os problemas estruturais, que corrompem a alma da sociedade brasileira e a destroem todos os dias, continuam aí, intactos, como mencionado acima. Sua remoção é uma tarefa de gerações.

Na vida do aqui e do agora, porém, não há fatos indicando que a realidade da economia vá permanecer idêntica à dos últimos anos. É bem conhecida a lista de progressos reais obtidos de janeiro para cá, da reforma da Previdência às novas regras de liberdade econômica, da abertura para privatizações à consolidação dos índices básicos da saúde geral da economia. Não há necessidade de ficar repetindo isso tudo.

O importante é anotar que não há nenhum indício de que o rumo seguido até o momento possa virar ao contrário de uma hora para a outra ou durante os próximos três anos e meio.

É isso, no fundo, que interessa — para onde estamos indo, e não onde estivemos ou, num mundo ideal, onde deveríamos estar. O crescimento de 0,4% no último trimestre medido foi uma mixaria? Foi, porque o Brasil precisa de muito mais do que isso, há anos. Mas como crescer rápido neste momento em que a economia mundial está andando em marcha lentíssima e nenhum país consegue avançar depressa?

O 0,4% do Brasil foi a terceira melhor taxa de crescimento do mundo; os Estados Unidos, que se consideram num bom momento, cresceram 0,5%. Este é um momento que pede calma. No mínimo, é preciso esperar mais um pouco para dizer que as coisas estão indo realmente mal.