Os novos rostos da alfaiataria em São Paulo

Os jovens profissionais que estão trazendo informação contemporânea e um toque de modernidade aos trajes clássicos

Tudo começa com uma entrevista. Sentado em uma poltrona assinada enquanto degusta um uísque envelhecido ou um café especial, o cliente conta em detalhes sua rotina diária ao alfaiate Alexandre Won: o tempo que passa sentado, em que ocasiões se movimenta, por onde se desloca. Depois dessa primeira conversa, tecidos, acabamentos e acessórios são escolhidos de acordo com o perfil da pessoa e com a ocasião de uso da roupa. Em seguida vem a parte da fita métrica. Em frente ao espelho, com o cliente sem camisa e sem calça, são tiradas exatas 42 medidas, entre circunferências, alturas, ângulos e curvaturas.

Com os números anotados e fotos do cliente de frente, de lado e de costas, Won parte para a preparação das modelagens. É um trabalho minucioso, de conciliação entre um corte alinhado e a mobilidade desejada. É também um quebra-cabeças. Uma calça é formada por 38 partes, entre moldes e peças a ser montadas. Um colete, por 18. No paletó, esse número sobe para 103. A chamada casca do traje ­— a estrutura ainda sem costura — é montada para a primeira prova. Se o projeto estiver de acordo com a expectativa, ajustes são feitos para a segunda prova. Se tudo estiver de acordo, é o momento então de caseamento e arremate de botões, lavagem e passagem.

Esse é o processo de produção de Won, talvez o mais proeminente integrante de uma nova geração de alfaiates que estão reinventando a profissão, a maior parte deles concentrada nos bairros mais nobres de São Paulo, principalmente Jardins, Itaim e Vila Nova Conceição. Durante décadas, esse segmento foi dominado por profissionais já de certa idade, adeptos dos cortes tradicionais, como José Cozzi, já falecido, que atendia em um prédio antigo perto do Anhangabaú. Ricardo Almeida foi o responsável por tirar o pó das ombreiras do ofício.

Mestre reconhecido na arte da modelagem, com um estilo bem definido de corte ajustado e lapelas estreitas, ele conquistou a alta sociedade, os escritórios da Avenida Faria Lima e os gabinetes de Brasília. Tanto é assim que seu preço é o mais alto do mercado: quem fizer questão do atendimento pessoal de Almeida vai pagar a partir de 19.000 reais por um traje, dependendo do tecido. Agora, uma turma entre os 30 e muitos e os 40 e poucos anos está importando informação de moda, adicionando um ar contemporâneo e modernizando os costumes. Aqui é preciso deixar claro: costume é o conjunto de calça e blazer. Terno inclui o colete.

Os novos alfaiates atendem em amplos ateliês com serviço de bar e obras de arte na parede e se posicionam como uma alternativa mais sofisticada às lojas de moda masculina de pronta entrega, em que a customização não vai muito além do simples acerto de mangas e barra dos costumes prontos, de numeração que vai do 46 ao 54. Quem já fez um traje su misura sabe a diferença no caimento. Para os mais exigentes, é caminho sem volta. Com o surto de coronavírus nas últimas semanas, no entanto, muitas oficinas estão temporariamente fechadas ou fazendo atendimentos pontuais em domicílio.

Alexandre Won tem uma carteira fixa de 2.600 clientes, desde os que fizeram apenas o terno do casamento até quem encomenda dez trajes de uma só vez. A técnica empregada por Won, em que o costume é construído do zero em cima do corpo, chama-se bespoke. Filho de costureira e advogado de profissão, ele não achava trajes que lhe agradassem nos ateliês que frequentava. Em seu descontentamento, enxergou uma oportunidade. E decidiu mudar de profissão. Aprendeu técnicas de modelagem com Jonas Oliveira, respeitado profissional das antigas, e se aprofundou na escola japonesa, que se caracteriza pela forma bastante estruturada e por acabamentos feitos a mão. Dez anos atrás, abriu o ateliê com seu nome.

O bespoke ganhou fama no século 19 com os artesãos que se estabeleceram na Savile Row, uma rua no distrito londrino de Mayfar. O local ficou conhecido como o epicentro da alfaiataria britânica, identificada pela cintura marcada e por ombreiras leves de inspiração militar. Existem outras vertentes. O estilo americano se traduz em formatos mais quadrados, de modelagem mais democrática e versatilidade de adequação aos diferentes formatos de corpo. É também mais fácil de produzir em larga escala.

Já a escola italiana tem o que se convencionou chamar de sprezzatura, que pode ser entendido como certo ar displicente — por exemplo, uma camisa um pouco aberta, um nó de gravata mais frouxo. Ao mesmo tempo, apresenta um corte mais ajustado do blazer e muita atenção aos detalhes. Os alfaiates japoneses se ins­piraram  no lado sofisticado da tradição italiana, dando ainda mais ênfase ao ­handmade. Esta é a marca de Alexandre Won: paletós justos com lapelas tradicionais, calças com pregas e barra italiana, sem passante de cinto.

Assim como ele, Bruno Colella foi iniciado na profissão pelas tesouras de um alfaiate bastante tradicional de São Paulo: seu avô, o italiano Nicola Colella. Formado em turismo e focado em atendimento, Colella fundou há seis anos a BRNC. A cada mês, entrega em média 200 peças, com destaque para padronagens de listras e xadrez. Como outros alfaiates da nova geração, ele visita regularmente a Pitti Uomo, a mais tradicional feira de moda masculina, que acontece em Florença duas vezes por ano, para acompanhar as últimas tendências. Seu estilo não é o bespoke, e sim o que se chama de sob medida, um processo que parte de moldes já prontos, porém com muitas possibilidades de ­customização. “Antes, costumava recomendar um corte mais seco a meus clientes”, conta Colella. “Mas o movimento mudou. Tenho privilegiado mais o conforto, sem abrir mão de um bom corte, e materiais tecnológicos para uso urbano, que permitem até andar de bicicleta de terno, como alternativa à lã fria.”

Bruno Colella: tendências das feiras de moda se traduzem em cores mais vibrantes e cortes atuais

Tecidos inteligentes, mais maleáveis, que não retêm odor, de origem reciclável ou impermeáveis, estão na ordem do dia dos pedidos nas oficinas. Essa é uma herança da chamada streetwear, a roupa que vem das ruas e invadiu as semanas de moda masculina nos últimos anos. A inspiração no hip-hop e no grafite, além do ar casual dos empreendedores do Vale do Silício, parecia ter contaminado a moda masculina e decretado a morte da alfaiataria. Costumes deixaram de ser obrigatórios até mesmo no outrora sisudo mercado financeiro. Como tendências são cíclicas nesse segmento, o que se viu nas últimas duas temporadas foi a volta de uma moda mais clássica. Até mesmo grifes como a Supreme, que se tornou símbolo da irreverência e inspiração dos millennials, apresentou costumes em seu último desfile, em Paris, ainda que em cores bastante chamativas. Acessórios clássicos, como abotoaduras, também têm ressurgido em marcas como a Montblanc.

Leandro Vieira: preços mais acessíveis para clientes do mercado financeiro

A alfaiataria, com um ar renovado, voltou a estar em alta para um público que passou a usar terno como opção, e não mais como obrigação. Esse é o público que tem procurado a Merino, ateliê instalado na charmosa Rua Normandia, na Vila Nova Conceição, próximo ao Aeroporto de Congonhas. “Atendo muitos investidores financeiros que já não são obrigados a usar o costume inteiro no dia a dia, mas querem ter um bom traje para combinar as peças soltas com jeans, camiseta e tênis”, diz Leandro Vieira, sócio proprietário. Formado em direito, ele trabalhou em empresas como Santander e Nextel, sempre na área comercial. Em 2016 tornou-se sócio de uma fábrica que produzia paletós, calças e camisas para diversas oficinas de alfaiataria. “Percebi logo que seria melhor fazer a venda direta do que ficar com apenas um terço do valor da roupa”, diz. Depois de estudar bem o segmento, resolveu abrir o ateliê, em parceria com outro sócio. Alexandre Won virou  consultor de estilo para a marca. Por mês, produz 1.000 peças, entre paletós, calças e camisas, além de atender outros ateliês. Com escala, consegue oferecer preços mais acessíveis do que a média.

Barbara Santiago: presença feminina em uma profissão dominada por homens

Tradicionalmente dominado por homens, o segmento começa enfim a ganhar a mais do que bem-vinda participação feminina. A mineira Barbara Santiago fez diversos cursos técnicos de corte e costura e de modelista de vestuário, foi assistente de alfaiates tradicionais de Belo Horizonte, até que resolveu empreender. Durante dois anos tocou a Santiago Alfaiataria na capital mineira, e então foi convidada a dirigir a produção da Merino, em São Paulo. A experiência durou oito meses, tempo suficiente para sentir falta de colocar a mão na massa. Com um sócio investidor, ela está agora relançando a marca, mas em São Paulo. Para isso, já importou 20 máquinas novas da Ale­manha. No local funcionará também uma escola de formação de novos profissionais, com disciplinas como história da alfaiataria, planejamento de coleção e design de sapatos, além de ensinamentos básicos, entre eles modelagem, ministrados por outros alfaiates. As negociações para o curso ser reconhecido como graduação já estão em andamento.

O novo ateliê estava previsto para ser inaugurado em abril, a depender do impacto do surto de coronavírus. Santiago trabalha com o método bespoke, mas sua oficina terá também opções de roupas prontas, para ajustes pontuais. Encarar uma carreira tradicionalmente masculina teve para ela um alto custo emocional. “Existe muito machismo nesta profissão, tive de ouvir muita gracinha de clientes e de concorrentes, mas nunca me dobrei”, conta Santiago. A paixão pela profissão, segundo ela, sempre foi sua maior motivação. “Tento imprimir a personalidade do cliente na roupa, respeito completamente seu desejo. É como se eu fosse um tatuador: posso desenhar desde uma borboleta no pulso até um dragão nas costas inteiras. O alfaiate é apenas um artesão, um meio pelo qual um sonho se realiza.”