Seu Dinheiro — Os gestores dos fundos que desviaram da crise

A piora nas perspectivas da economia, a greve dos caminhoneiros, a alta do dólar e a surpresa do Banco Central deixaram o mercado mais imprevisível

Os gestores de fundos multimercado estão penando para manter a rentabilidade que conseguiram nos primeiros meses do ano. A piora nas perspectivas da economia, a greve dos caminhoneiros, a alta do dólar e a surpresa do Banco Central, que manteve os juros na última reunião, em maio, deixaram o mercado mais imprevisível — e muitos fundos não conseguiram acompanhar. Na média, os multimercado tiveram uma perda de 0,7% em maio. No acumulado do ano, o rendimento foi de 2,6%, igual ao do Certificado de Depósito Interbancário, segundo a empresa de informações financeiras Economatica. Alguns fundos, porém, renderam bem mais do que isso. É o caso do Versa Long Biased, da gestora GTI, que teve retorno de 27% em 2018 — foi o multimercado mais rentável do ano, segundo levantamento feito, a pedido de EXAME, pela empresa de informações financeiras Morningstar, que analisou fundos abertos com patrimônio superior a 5 milhões de reais. Boa parte da carteira do fundo está aplicada na bolsa,  e deve continuar assim. “Os preços das ações não refletem os fundamentos das empresas. Como nosso horizonte é o longo prazo, aproveitamos a baixa para comprar”, diz Luiz Alves, gestor do Versa. As principais ações em carteira são as da empresa têxtil Hering e da gestora de imóveis BR Properties. Outro multimercado com bom ganho é o Vista Multiestratégia, que rendeu 24% no ano. Mas sua estratégia é mais conservadora. “A volatilidade aumentou muito, então estamos fazendo aplicações de curto prazo nos mercados de câmbio e renda fixa”, diz Ricardo Mendonça, economista do Vista. Uma parte pequena do fundo está alocada em ações, especialmente de shopping centers. Para a gestora, o fato de os aluguéis poderem ser reajustados pela inflação funciona como uma proteção em caso de aumento de preços.


PARA LEMBRAR

TÍTULO ATRELADO À INFLAÇÃO

Um investimento recomendado por assessores financeiros para quem está guardando dinheiro para a aposentadoria são os títulos públicos atrelados à inflação com vencimento em 2050. Com o aumento do estresse no mercado financeiro nas últimas semanas, o rendimento desses papéis subiu para 5,9% ao ano, além da variação da inflação. É uma chance de garantir retorno elevado por um período longo, segundo os especialistas.


ATENÇÃO

MAGAZINE LUIZA

Ainda que os resultados da varejista Magazine Luiza estejam acima das expectativas, e a maioria dos analistas acredite que vão continuar a melhorar, há quem ache que as ações ficaram caras. “Acreditamos na estratégia e na transformação da companhia, mas rebaixamos a projeção para as ações depois da forte alta”, afirmam os profissionais do banco Credit Suisse em relatório. Desde janeiro de 2016, os papéis da empresa subiram 5 000%.


BOLSA

OS GESTORES QUEREM COMPRAR MAIS AÇÕES

Bolsa brasileira: uma pesquisa mostra que as ações do setor financeiro são vistas como as mais promissoras | Renato S. Cerqueira/Futura Press

Os gestores de fundos na América Latina diminuíram as projeções para o Ibovespa neste ano, mas continuam querendo comprar ações. É o que mostra uma pesquisa do Bank of America Merrill Lynch realizada com 32 gestores. Até maio, 45% deles acreditavam que o índice da bolsa terminaria 2018 acima de 85 000 pontos — hoje, são apenas 16%. A maioria dos gestores ouvidos espera que o Ibovespa fique na faixa de 75 000 a 85 000 pontos em dezembro. Hoje, 70% dos gestores dizem que pretendem manter ou aumentar os investimentos em ações nos próximos seis meses. Ainda segundo a pesquisa, a turma que administra os fundos está mais otimista com as ações do setor financeiro, apontadas por 28% deles como as que têm maior potencial de alta, seguidas pelos papéis das empresas dos ramos de commodities (25%).


RENDA FIXA

O RISCO DE CALOTE CAIU

Prédios em São Paulo:

fundo que investe em ativos imobiliários tem retorno alto | Germano Lüders

Alguns dos fundos de renda fixa mais rentáveis do mercado são os de recebíveis. Eles investem em títulos que representam valores que determinadas empresas têm a receber — quando a dívida é paga, o dinheiro vai para o fundo. Um produto desses lançado neste ano pela gestora TMJ, que investe em papéis do setor imobiliário, oferece rendimento de 8,5% ao ano acima da inflação. O problema é quando algum devedor não paga — nesse caso, o fundo fica no prejuízo. Recentemente, porém, muitos gestores passaram a acreditar que o risco de calote das empresas diminuiu. As provisões feitas para arcar com as perdas com inadimplência caíram de 14% do patrimônio dos fundos em janeiro de 2017 para 10% em abril deste ano, segundo levantamento da provedora de informações financeiras Quantum. É um patamar próximo ao de 2013.


ENTREVISTA

No começo de junho, o bilionário americano Warren Buffett, um dos maiores investidores da atualidade, e Jamie Dimon, presidente do banco JP Morgan, publicaram um artigo encorajando as empresas listadas em bolsa a deixar de divulgar previsões de resultados trimestrais — o chamado guidance. Edmar Prado Lopes Neto, presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores, explica por que o assunto gera polêmica.

Por que algumas empresas divulgam guidance?

É uma forma de garantir que as perspectivas para os resultados cheguem a todo mundo ao mesmo tempo e do mesmo jeito. A assimetria da informação é um desafio para o mercado.

Por que alguns investidores não aprovam essa prática?

Em alguns casos, ela pode estimular os gestores a trabalhar apenas de olho no número do guidance — quando ele é atingido, acreditam que o dever está cumprido. Sem esse guidance engessado, poderiam perseguir um resultado ainda melhor.  Outro problema é que muitas empresas estabelecem guidance por trimestre, que é um período muito curto. Os investidores temem que as empresas passem a ser geridas apenas de olho nos resultados trimestrais, e não no crescimento dos negócios no longo prazo.

Divulgar uma previsão de resultados, então, é bom ou ruim?

Não existe um consenso. Mas entendo que o guidance está a favor do investidor, porque é uma ferramenta em prol da transparência.


MOEDA

POR QUE 1 BITCOIN É MAIS CARO NO BRASIL?

Mais uma esquisitice sobre o segmento de moedas virtuais: 1 bitcoin custa mais no Brasil do que na maioria dos países desenvolvidos. Segundo um levantamento da empresa de publicações financeiras Empiricus, a diferença está em 4% hoje, mas chegou a quase 40% um ano atrás. O motivo, de acordo com os especialistas, é o fato de o mercado brasileiro ser mais recente do que o internacional e ser pequeno (o volume de negócios aqui representa cerca de 0,5% do total global). Assim, as reações de poucos investidores são suficientes para movimentar o mercado. “Além disso, há uma tendência a exageros em momentos de euforia ou pânico”, diz Vinicius Bazan, analista de moedas virtuais da Empiricus. Depois de chegar a valer quase 20 000 dólares no fim de 2017, o bitcoin se desvalorizou e, hoje, custa pouco mais de 7 000 dólares.

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