Os comunistas vestem Prada

A rua Nanjing, no coração de Xangai, é um dos maiores centros do mercado mundial de luxo – do pirata e do original. Nas calçadas, é impossível caminhar sem ser abordado por dezenas de muambeiros oferecendo bagwatch, que no léxico local significa bolsas e relógios falsificados das mais famosas marcas do mundo.

Num domingo de sol, as calçadas estão cheias de gente. Há até mesmo excursões vindas de regiões remotas da China para conhecer a rua Nanjing. O movimento faz esse tão famoso centro de lojas de luxo se parecer com uma versão melhorada da rua 25 de Março, meca do consumo de baixa renda em São Paulo.

Basta entrar no Plaza 66, porém, para mudar de ares. Esse é o maior shopping de luxo da China e um dos maiores do mundo. Um sexteto de cordas e seguranças de luvas brancas dão certo tom de refinamento ao lugar. As ambições do shopping são notórias.

Uma das maiores lojas da Louis Vuitton no mundo foi construída aqui e mais de 100 outras marcas européias e americanas estão representadas. Mas, em pleno domingo à tarde, o Plaza 66 está tão movimentado quanto um aeroporto de madrugada. As vendedoras bocejam de tédio – com toda a classe, é claro. O mercado de luxo cresce 30% ao ano na China, e as vendas foram de 6 bilhões de dólares em 2007. Mas o shopping-símbolo desse fenômeno está às moscas.

Duas razões explicam esse paradoxo. A primeira é um descompasso entre a oferta de itens de luxo e a procura. Nos últimos anos, as maiores marcas do mundo transformaram a China em prioridade máxima. A francesa Louis Vuitton inaugura três lojas por ano na China. São 19 no total.

A italiana Ferrari tem 12 concessionárias. Cartier, Rolex, Prada, Rolls-Royce – todas querem aproveitar o espantoso crescimento na renda chinesa. Hoje, há na China 345?000 milionários. A classe média, um dos motores do crescimento das vendas de itens como bolsas e relógios, é estimada por alguns analistas em 300 milhões de pessoas. Outros a calculam em 75 milhões.

De qualquer forma, é muita gente. E as perspectivas de aumento dessa base de clientes são apetitosas. O número de milionários deve dobrar nos próximos três anos. E a quantidade de famílias com renda entre 100?000 e 1 milhão de dólares deve crescer 20% ao ano.


O banco americano Goldman Sachs prevê que o mercado de luxo chinês se tornará o maior do mundo em 2015. Com essas previsões em mãos, os executivos das mais sofisticadas marcas do mundo se instalaram correndo na China – mas o fizeram com excesso de velocidade. Com lojas demais e consumidores de menos, é praticamente impossível lucrar. Segundo estimativas do Boston Consulting Group, apenas uma em cada dez marcas dá dinheiro na China.

O outro motivo para as lojas vazias é um hábito do consumidor chinês – ele prefere comprar fora do país. Como as taxas para importação de artigos de luxo são altíssimas na China continental, o mesmo produto pode custar 35% mais barato em Hong Kong. No país da pirataria, comprar fora também significa dirimir quaisquer dúvidas sobre a origem do produto. T

er uma loja em Xangai ou em Pequim acaba se tornando uma estratégia de marketing para as grandes marcas, já que é nessas vitrines que o consumidor escolhe o produto que vai comprar – quando viajar. A assistente de comércio exterior Elva Wang, de 25 anos, economiza há quatro meses metade do salário para comprar uma bolsa da italiana Gucci.

A data está marcada: em junho, uma amiga irá para a Europa com uma lista de encomendas, a sua incluída. Em maio, Elva pediu um adiantamento do mês inteiro de salário (cerca de 3?500 yuans, ou 900 reais) para completar o valor. “Todas as minhas amigas têm bolsas de uma das marcas top”, diz ela. “Eu faço qualquer sacrifício para ter a minha também.” Metade dos consumidores chineses compra seus artigos de luxo fora do país, como Elva.

Nesse mercado tão competitivo, quem se dá bem são as marcas mais famosas. O consumidor de artigos de luxo chinês é movido por um forte traço de novo-riquismo. Marcas consideradas sinais óbvios de status são suas favoritas. A Louis Vuitton, que tem bolsas facilmente identificáveis, é um caso de sucesso. Todas as suas lojas no país dão lucro.

A Rolls-Royce transformou a China numa festa: as vendas crescem 50% ao ano, e o país é hoje o terceiro maior mercado para a marca, depois de Estados Unidos e Grã-Bretanha. A Rolls-Royce planeja vender 170 carros no país em 2008. O preço médio? 800 000 dólares. “Os chineses querem comprovar sua ascensão social pelo que vestem e dirigem”, diz Nick Debnam, especialista em bens de consumo da consultoria KPMG na China.

“Detalhes considerados ridículos no exterior, como logotipos chamativos e carros extravagantes, são exatamente aquilo que o consumidor local quer.” É assim no comunismo chinês. Quanto menos igualitário, melhor.