Os bons tempos para os investidores voltaram?

Dados positivos sobre a economia mundial animaram os investidores no começo deste ano. A dúvida é se a recuperação veio para ficar

São Paulo – A Bolsa de Valores de São Paulo tem sido uma confiável fonte de más notícias para os investidores brasileiros. Desde o fim de 2009, vive-se, no pregão paulista, um marasmo de dar dó — isso nos melhores dias: a sequên­cia de crises na Europa fez a Bovespa cair, em média, 18% no ano passado, naquele que foi um dos piores resultados das bolsas mundiais.

Cada fato interpretado como positivo era logo atropelado por outro, não só negativo como mais poderoso. Pois 2012 começou, e é impossível não notar que o clima mudou, e para melhor.

A Bovespa subiu cerca de 10% em janeiro, um desempenho que, isoladamente, lembra os tempos de euforia que marcaram o período entre 2004 e 2007. O que está acontecendo? Houve, neste início de 2012, uma conjugação de dados positivos como há muito não se via no mercado.

Nos Estados Unidos, o desemprego baixou para o menor nível em três anos e as vendas e construções de imóveis cresceram. Esses indicadores, segundo os analistas, mostram a real situação da economia americana: se eles vão bem, o país está em recuperação.

Na China, a inflação caiu, o que pode abrir espaço para a redução dos juros e, assim, para o tão esperado “pouso suave” na economia que mais cresce no mundo. Com a China bem, a Bovespa, tão dependente do desempenho de empresas de commodities, como Petrobras e Vale, agradece.

Até a Europa ajudou em vez de atrapalhar: a injeção de recursos pelo Banco Central Europeu reduziu o custo de financiamento dos países da região, afastou, ainda que temporariamente, os riscos de quebradeira de países e fez o euro valorizar. 

Com essas três notícias na tela de seus computadores, investidores do mundo inteiro decidiram que era hora de arriscar. As bolsas, especialmente dos países emergentes, voltaram a receber recursos — quase 8 bilhões de dólares foram aplicados nos fundos de países como Brasil e China em janeiro, o maior volume para o mês em 16 anos.

Aqui, o saldo de investimentos estrangeiros bateu o recorde dos últimos três anos, o que explica a valorização da Bovespa no mês. Uma pesquisa do Bank of America Merrill Lynch feita recentemente com 214 gestores de fundos internacionais mostra que apenas 3% acreditam que o PIB global vai desacelerar nos próximos 12 meses — em dezembro, o percentual dos pessimistas era de 27%.


Para os brasileiros, é hora de aplicar mais em ações e largar, aos poucos, a renda fixa? Não. Nas últimas semanas, EXAME ouviu dezenas de gestores, analistas, executivos de algumas das principais instituições financeiras do país.

O cenário traçado por eles, realmente, valida a tese de que os investidores devem se habituar à ideia de receber retornos menores nos fundos DI, ao menos, no curto prazo — caso a situação econômica mundial não se transforme, a maioria espera que a taxa básica de juro brasileira caia para menos de 10% ao longo do ano.

Com a inflação beirando os 6%, juros nesse patamar tornam os investimentos em renda fixa muito menos atraentes do que foram num passado recente. Mas uma leitura mais atenta do cenário mostra que se deixar levar pela maré otimista de janeiro pode ser arriscar demais.

“Ainda que os mercados fiquem menos voláteis, os problemas, no mundo real, são os mesmos”, disse a EXAME o economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e coautor do livro This Time Is Different (“Desta vez é diferente”), que analisa a história das crises financeiras.

Quando fala em “mundo real”, Rogoff tem a Europa em mente. Não é, afinal, uma simples onda de otimismo que vai tornar as dívidas de países como Grécia e Portugal menos impagáveis. Ou o desemprego espanhol, na casa dos 20%, menos doloroso.

Como esses países sobreviverão a anos de recessão, corte de gastos públicos, contenção de investimentos e aumentos de impostos mantendo seu tecido social intacto?

O que se sabe é que a solução para a Europa será demorada — durante um discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, no fim de janeiro, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que os problemas da região não seriam resolvidos com uma “varinha mágica” e pediu “paciência” aos empresários presentes.

Recentemente, o Fundo Monetário Internacional revisou suas projeções e passou a prever recessão na zona do euro neste ano:  o PIB da região cairia 0,5% e, em países como Espanha e Itália, a contração passaria de 1,5%.

Os efeitos da crise europeia para o Brasil dependerão, numa ponta, da atuação do governo e, na outra, do desempenho da China, nossa principal parceria comercial. Em meados de 2011, sob críticas, o Banco Central passou a cortar os juros para evitar que a economia sofresse demais com a piora do cenário externo. 


Na sequência, foram revistas algumas das medidas de contenção de crédito que haviam sido adotadas meses antes. A queda nos juros prevista para o ano aumenta o poder de atração da renda variável no curto prazo, mas cria riscos à frente — sobretudo, a aceleração da inflação, que pode tornar o cenário ainda mais incerto no segundo semestre.

Um número crescente de analistas já prevê que o BC terá de voltar a elevar a taxa Selic perto do fim do ano. Nesse cenário, as ações de empresas voltadas para o mercado interno seriam prejudicadas.

A China é a outra correia de transmissão da crise europeia em direção ao Brasil. A desaceleração chinesa é esperada, e há indícios de que já começou: o cenário-base para a maioria dos analistas é uma expansão de cerca de 8% no PIB, ante os 9% de 2011. Mas a Europa pode atrapalhar.

O continente, afinal, é o maior mercado do mundo para produtos chineses — e uma nova recessão frearia a maior máquina de exportação do mundo. Um colapso da China afetaria os preços de commodities produzidas pelo Brasil, como cobre e minério de ferro.

Nos cálculos do Itaú Unibanco, cada ponto percentual a menos de expansão do PIB chinês diminui o preço das commodities em 5%, um potencial estrago para as ações de empresas como Vale e Petrobras.

Há ainda o questionamento sobre o real fôlego dos países emergentes. Num relatório recente em que fala da ascensão dos Brics nas últimas décadas, o banco Goldman Sachs — que criou esse termo há dez anos — afirma que a transformação mais marcante nas economias de Brasil, China, Índia e Rússia já ocorreu.

Daqui para a frente, haverá mudanças, mas elas serão menores e mais lentas — em alguns casos, não haverá mudança alguma. De acordo com o banco, a contribuição desses países para o crescimento mundial ficará estagnada até 2050 e a renda per capita deve continuar sendo uma fração da renda americana.

Para os investidores, isso significa que será mais difícil ganhar dinheiro nesses mercados. O conselho do Goldman é fazer uma análise “mais profunda”, que vá além das tendências macroeconômicas. Só assim será possível conseguir “retornos acima da média”.


A soma de todos esses riscos ajuda a explicar por que as ações, apesar da animação de 2012, ainda estão depreciadas. Um índice que mede a relação entre o preço dos papéis e o lucro das empresas está num patamar inferior à média histórica nos Estados Unidos, apesar de os juros estarem próximos de zero.

A bolsa de Xangai está no mesmo patamar de cinco anos atrás. Aqui, cerca de 100 empresas de capital aberto têm valor de mercado inferior à soma de seu patrimônio, o que significa que estão extremamente baratas.

Para o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers, números como esse mostram que os investidores temem o futuro — só assim para preferirem aplicar em títulos do Tesouro dos Estados Unidos que pagam menos que a inflação a buscar retornos maiores em bolsas recheadas de pechinchas.

O ano de 2012 começou dando sinais de que esse pavor todo está arrefecendo. Os especialistas ouvidos por EXAME listaram suas opções de investimento nesse cenário — suas conclusões podem ser lidas nas páginas a seguir.