Os acionistas não querem sempre lucrar, diz Prêmio Nobel

O economista Oliver Hart, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, defende uma mudança na concepção sobre o papel das empresas

Vencedor do Prêmio Nobel de economia de 2016 2016 por suas pesquisas sobre as imperfeições dos contratos, o economista Oliver Hart passou a se interessar por um tema diferente nos últimos anos: a responsabilidade das empresas em questões sociais e ambientais. Num artigo acadêmico recente escrito com o colega Luigi Zingales, professor na Universidade de Chicago, Hart argumenta que a maximização dos lucros nem sempre é o que os acionistas de uma companhia mais desejam. Para ele, que é professor de economia na Universidade Harvard, as companhias devem levar em conta as preocupações sociais de seus donos quando uma decisão puder provocar prejuízos sociais ou ambientais. É uma visão que destoa do entendimento predominante, de que o propósito das empresas é gerar lucro para os acionistas, uma ideia defendida pelo economista Milton Friedman num famoso artigo publicado nos anos 70.

Para Friedman, um dos ícones do liberalismo econômico no século 20, a preocupação com questões sociais  e ambientais deveria ficar restrita aos indivíduos, e não deveria ser responsabilidade de empresas. Os donos da companhia, se assim quiserem, podem usar o dinheiro para apoiar causas sociais. Em entrevista a EXAME, Hart explica que nem sempre os acionistas preferem o lucro. Preferem o bem-estar da sociedade. Um exemplo é o caso da venda de armas em supermercados nos Estados Unidos. “Se a questão fosse colocada em votação, é bem possível que os acionistas optassem por removê-las das lojas, mesmo que isso levasse a uma redução dos lucros”, diz.

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O senhor e o economista Luigi Zingales têm defendido que as companhias devem ter como finalidade a maximização do bem-estar dos acionistas, e não dos lucros. Por quê?

Frequentemente é dado como certo que uma empresa deve maximizar seu valor de mercado, que esse é seu objetivo principal. O argumento é que é isso que os acionistas querem. No entanto, nós acreditamos que, num grande número de situações, o lucro não é o que os acionistas de uma empresa mais desejam. É claro que eles estão interessados no lucro. Em alguns casos, pode ser até que estejam interessados principalmente no lucro, mas, em outros casos, existem outras questões mais importantes.

Como o quê, por exemplo?

Nós partimos da ideia de que os acionistas são a favor do bem-estar da sociedade, porque desejam ter uma vida mais saudável e segura. Eles se importam com o meio ambiente. Em questões como essas, pensamos que a divergência do desejo de maximização dos lucros é substancial.

Por que uma companhia deveria focar o bem-estar, e não o lucro?

Se a companhia está envolvida em atividades que afetam a sociedade negativamente, ela pode ter um entendimento diferente do que a busca pelo lucro. Em nosso estudo, damos o exemplo do varejista Walmart. O Walmart pode ganhar mais dinheiro, digamos, vendendo armas em algumas de suas lojas — algo que a empresa faz nos Estados Unidos, particularmente nos estados do Sul. É de supor que a venda de armas seja lucrativa, mas essa atividade claramente cria efeitos negativos. Nós argumentamos que os acionistas de uma empresa se importam com esses efeitos. Eles podem estar dispostos a abrir mão do lucro em troca de uma segurança pública melhor.

Se a questão da venda de armas fosse colocada em votação, é bem possível que os acionistas optassem por removê-las das lojas, mesmo que isso levasse a uma redução dos lucros. Outro exemplo seria algum tipo de dano ambiental. Pense numa companhia cuja atividade contribui para o aquecimento global. Uma empresa de extração de petróleo, como BP, Shell ou Exxon. É a mesma coisa. Se os acionistas tivessem de escolher entre receber um dividendo maior ao custo de um dano ambiental alto, potencialmente eles diriam não.

Loja do Walmart, nos Estados Unidos: para Hart, os acionistas se preocupam com questões como o comércio de armas

Qual é o papel das empresas de acordo com sua abordagem?

A visão predominante é que a empresa pertence aos acionistas. Eles são os donos. Eles têm os votos. Então a empresa deveria agir em nome deles. Nós, na verdade, seguimos essa visão tradicional. Mas a questão é: o que exatamente os acionistas querem? A resposta mais aceita é que eles querem a maior quantidade de dinheiro possível, porque então podem usar esse dinheiro como bem entenderem, incluindo — e aqui eu estou ecoando o economista Milton Friedman — doar o dinheiro à caridade. Os acionistas podem doar às instituições que eles, individualmente, gostam mais.

Esse entendimento, de alguma forma, maximiza a liberdade de ação dos acionistas, uma vez que a empresa entrega parte dos lucros aos acionistas e deixa que eles escolham como gastar o dinheiro. Essa é a ideia dominante. Em outras palavras, a ideia que a companhia deve agir em nome dos acionistas é antiga. A questão é o que isso significa. Significa que a empresa deva buscar a maximização do valor de mercado? Nós acreditamos que existam situações em que há uma diferença significativa entre o bem-estar dos acionistas e a maximização do valor de mercado.

Há décadas se fala sobre a responsabilidade socioambiental das empresas. A ideia que o senhor propõe não se trata exatamente disso?

Não. Acredito que a ideia da responsabilidade corporativa social seja muito otimista. Ela pressupõe que, se a empresa for socialmente responsável, isso será bom para os resultados financeiros. A lógica é: se a companhia fizer o bem para a comunidade, para os trabalhadores, para o meio ambiente, se praticar um comércio justo, poderá fazer propaganda dessas atividades e muitos consumidores vão preferir comprar produtos dela. Não é que essa lógica seja ruim. Mas não acho que seja sempre tão simples assim. Pode haver outras atividades que resultem num resultado financeiro pior para a companhia. Algumas vezes, a empresa tem de abrir mão do lucro para fazer a coisa certa.

Se o lucro não é o principal objetivo, como saber se a atividade da empresa vai gerar bem-estar aos acionistas?

O primeiro passo é quantificar os efeitos das atividades da empresa. Imagine que estamos falando de uma companhia de petróleo que vai começar a extração num campo qualquer e isso vai gerar um dano ambiental. Penso que o primeiro passo seria quantificar o lucro esperado e também os danos. Se o lucro fosse de 1 bilhão de dólares e o dano ambiental de 1 milhão de dólares, isso seria uma coisa. Mas, se o lucro fosse de 1 bilhão de dólares e o dano de 2 bilhões de dólares, seria outra coisa. É preciso ter números antes de fazer uma análise sensata do que os acionistas sentem sobre aquela decisão. Uma vez  calculados o lucro e o dano esperados, a decisão poderia ser colocada em votação para os acionistas. A empresa saberia se aquele lucro é tão importante para os acionistas, mesmo com os danos esperados.

Alguns executivos diriam que é inviável levar esse tipo de decisão para votação. O que o senhor acha disso?

Nós não estamos sugerindo que todo tipo de decisão deva ser votada. Porque isso é um procedimento incômodo e certamente tem seus problemas. A votação deve ser ocasional, relacionada a grandes temas. Não seria sobre as questões do dia a dia. Isso seria loucura. Fazendo uma analogia, é algo parecido com os referendos nacionais. Na maior parte do tempo, as decisões na esfera política são tomadas por políticos eleitos pelo voto. Os eleitores não são consultados diretamente sobre tudo. Estamos sugerindo que devemos ter algo desse tipo na área corporativa.

Recentemente, um grupo de investidores da Apple publicou uma carta pedindo que a empresa tome medidas para evitar que crianças se viciem em smartphones. Isso é exemplo de que os acionistas têm outros interesses além do lucro?

Sim, é similar, principalmente no sentido que envolve os acionistas. As pessoas que acreditam que o dever da empresa é maximizar o valor de mercado não dariam a mínima atenção a essas preocupações, como o vício tecnológico. Elas rejeitariam essas propostas. Mas aquelas que acham que a preocupação dos acionistas com o vício das crianças é uma questão válida acabam considerando tomar medidas para evitar esse problema.

Quais são as barreiras para que sua visão se torne uma prática nas empresas?

Há muitas leis regulatórias nos Estados Unidos. A SEC, Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, tem muita autoridade sobre a governança corporativa e regula todo tipo de aspecto. Então, acho que provavelmente é necessário fazer uma mudança regulatória. Mas, antes disso, é preciso que haja uma mudança de atitude dentro de três grupos: os acionistas, a direção e os reguladores. E, por sinal, nós temos visto algumas mudanças.

Larry Fink, da gestora BlackRock: em carta a executivos, ele afirmou que as empresas têm de se preocupar com seu papel na sociedade | Tripplaar Kristoffer/Sipa/Ap Photo

Quais mudanças?

Um exemplo é o que disse recentemente Larry Fink, presidente da BlackRock, maior gestora de fundos de investimento do mundo. Ele afirmou numa carta enviada aos presidentes das companhias investidas pela BlackRock que as empresas precisam estar comprometidas com seu papel na sociedade e que vai tomar decisões de investimentos com base nisso. Não adianta se preocupar apenas com os resultados financeiros nos balanços. Essa é uma ideia muito similar ao que estamos dizendo em nosso artigo. Essa mudança está acontecendo.

Os consumidores também têm um papel de pressionar as empresas a lidar com os impactos sociais e ambientais, não?

Sim, mas isso ainda está dentro da visão tradicional, e não sou contra de maneira nenhuma. Mas a visão tradicional é que, nos dias de hoje, uma companhia precisa ter uma imagem boa a fim de que os consumidores queiram comprar seus produtos. Do contrário, os consumidores vão lançar uma campanha contra empresas poluidoras, que tratam seus trabalhadores de forma desumana, que pagam salários baixos, que usam trabalho infantil ou que têm um presidente acusado de abuso sexual. A pressão força as empresas a se comportarem melhor. E pode ser muito importante. Mas ainda está dentro da ideia de que a empresa tem de fazer o bem se quiser ser lucrativa.

Alguns críticos diriam que a ideia do senhor é anticapitalista. O que acha disso?

Não acho que seja uma visão esquerdista. As pessoas que são mais seriamente de esquerda não vão gostar da ideia porque nós ainda afirmamos que o que vale é o bem-estar do acionista. Algumas pessoas poderiam ir ainda mais longe e dizer que as empresas deveriam se preocupar com seus stakeholders — os funcionários, os consumidores e a comunidade. Estamos nos restringindo, de forma bem limitada, ao interesse do acionista. Estamos dizendo que as preferências dos acionistas são mais complexas do que a visão tradicional. Acho que não vamos satisfazer a direita e também não vamos satisfazer a esquerda.

Como tem sido a reação de seus colegas economistas?

Algumas pessoas parecem entusiasmadas com a ideia. Mas outras provavelmente gostariam de não acreditar nela. Entre os acadêmicos, acho que muita gente é influenciada pela visão tradicional, que a função das empresas é apenas gerar lucro. É uma visão muito conveniente. Essas pessoas provavelmente esperam que nossa ideia acabe desaparecendo de alguma forma. Não acho que desaparecerá. Fora do mundo acadêmico, há pessoas que talvez prefeririam não ter de pensar nesses termos, de que a empresa deve buscar o bem-estar dos acionistas, porque isso torna a vida mais complicada. É um mundo mais caótico se as empresas tiverem de pedir aos acionistas para que votem sobre um tema de tempos em tempos. Infelizmente, na minha visão, o mundo real é caótico e eventualmente vamos ter de aceitar isso.