Opinião: Brasil só tem a ganhar com a privatização da Eletrobras

Para a população brasileira, que paga a conta das estatais trapaceadas, a privatização da Eletrobras — se ocorrer — significará livrar-se de ser roubada

São Paulo — A Eletrobras, que com uns 30 anos de atraso entra agora em processo de privatização, é uma das melhores provas materiais de que uma empresa como essa não poderia jamais pertencer ao Estado brasileiro. O importante não são os 20 bilhões de reais que o governo espera encaixar com a venda de sua imensa estatal do setor elétrico — uma mixaria, na verdade, quando se leva em consideração que as contas públicas deste ano fecharão com um déficit de 160 bilhões, ou seja, oito vezes maior. A devastação das finanças nacionais, que se transformaram em propriedade privada dos que estão nos galhos mais altos do serviço público, chegou a tal ponto de demência que tornou impossível a recuperação do equilíbrio pela venda de patrimônio — qualquer patrimônio.

Também não é o aumento de 50% no valor das ações da empresa, um dia após o anúncio de sua desestatização, que mostra o acerto da decisão. O essencial é o reconhecimento, finalmente, de que estatais como a Eletrobras são um câncer no organismo econômico, político e moral do país. Só podem ser boas se não existirem mais.

Caso a população brasileira, que teve de pagar até o último real da conta, consiga se livrar mesmo desse animal, o grande ganho acontecerá daqui para a frente. Não haverá nunca mais um disparate como esse no Brasil. O cidadão deixará, após décadas, de ser roubado, trapaceado e punido com a gestão criminosa de uma atividade essencial para sua vida. A produção, a transmissão e a distribuição da energia, além da definição de  seus preços, passarão a obedecer a algum tipo de critério racional.

O setor elétrico deixará de estar ao alcance de quadrilhas e não poderá mais ser usado pelo governo para ganhar eleições. É possível até que haja reais progressos na área toda — mas o essencial será, antes da criação de coisas boas, a eliminação das coisas ruins. Com a Eletrobras e outros monstrengos parecidos, não há esperança. Sem ela, passa a haver.

Os 13 anos dos governos de Lula e Dilma Rousseff foram um curso de doutorado completo sobre a natureza e os efeitos do veneno que pode ser extraído de uma companhia estatal — e a Eletrobras, certamente, serviu como sua aula magna. É difícil imaginar o que mais poderiam ter feito para destruir esse pedaço do patrimônio público tão louvado por seu valor “estratégico”, seu papel na “independência do país” e outras invenções normalmente utilizadas para enganar quem acredita que os “partidos populares”, ou quaisquer outros, têm um “projeto de país”.

Lula e Dilma, como em tantas outras áreas, privatizaram a Eletrobras à moda de seu partido: as estatais, no papel, continuam pertencendo ao Estado — mas seu desfrute é entregue à porção do setor privado composto dos companheiros, amigos, clientes, doadores de dinheiro, e por aí afora. Como a companhia não é vendida, não entra um centavo para o Erário. Em compensação, saem fortunas. A Eletrobras, em obediência à “engenharia” política e financeira de Lula e do PT, foi entregue de porteira fechada ao complexo Sarney-Renan-Barbalho-Cunha-etc. mais a companheirada mais as empreiteiras. Tornou-se um dos maiores programas de transferência de renda do Brasil — do Tesouro Nacional para o bolso de seus donos verdadeiros.

Mais que tudo, a Eletrobras ficou entregue esse tempo todo aos cuidados de Dilma Rousseff, tanto em seu governo quanto no governo Lula, que a considerava uma “fera” em matéria de energia elétrica. Entendia menos do assunto do que o eletricista da esquina, e o resultado foi o que se sabe. Usinas sem linhas de transmissão, agressões ambientais ruinosas, custos apavorantes, compra de refinarias mortas.

Dilma ensinou ao mundo como é difícil estocar vento. Revelou que os raios têm relação com o mau tempo. Fez um escandaloso “congelamento de tarifas” para ganhar a reeleição — um monumento à fraude que está sangrando até hoje. Foi um filme de terror, claro. Mas aberrações como a Eletrobras não se emendam com “bom governo”. Só podem ser úteis depois de mortas.