Onda que vai, onda que vem

Depois de crescer com o Fies, as redes de ensino superior, como Estácio, Ser e Kroton, miram o ensino a distância (EAD). Vai dar certo?

Os executivos do grupo educacional Estácio, segundo maior do Brasil, tratam os números do primeiro trimestre de 2019 como um marco. A instituição teve recorde de novos alunos de graduação no período: foram 187 mil ingressantes, um aumento de 12,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. É a maior captação de alunos desde a fundação da empresa em 1970. A conquista seria positiva em qualquer cenário, mas tem um tempero a mais por acontecer em um momento-chave para as empresas do setor: elas já não contam com gordos repasses do governo para atrair os alunos de cursos presenciais pelo Fies, o programa federal de incentivo. De 2014 a 2018, o número de estudantes financiados pela União caiu de 733 mil para 82 mil ao ano.

Mas os resultados da Estácio são uma mostra de que uma nova frente de expansão já é uma realidade: o ensino a distância (ou EAD). Do primeiro trimestre de 2017 ao início de 2019, o número de polos (estruturas físicas que recebem algumas atividades do EAD) da Estácio passou de 228 para 635. Mesmo com um recuo no faturamento, já que as mensalidades no modo a distância são mais baixas, a Estácio melhorou a margem operacional, de 35% para 41%. As ações da companhia estão em alta de 28% no ano, o dobro do índice da bolsa.

O EAD será responsável por uma nova frente de crescimento do setor? Os números até agora são exuberantes. Um dos principais indicadores do momento são os polos a distância cadastrados no país. São 23 mil unidades, mais que o triplo das registradas dois anos antes. O número de matriculados passou de 1,4 milhão, em 2016, para 2 milhões, em 2018, com previsão de chegar a 2,5 milhões em 2023, segundo a consultoria Educa Insigths. “Estamos em um ponto de inflexão para as redes de ensino”, diz Susana Salaru, analista do banco Itaú BBA.

A febre do Fies e a do ensino a distância têm uma similaridade que faz investidores e analistas desconfiarem da nova onda da educação superior. As duas foram impulsionadas pelo governo federal. A onda de abertura de polos veio após uma portaria de 2017 do Ministério da Educação, que definiu que as instituições poderiam abrir até 250 polos por ano, a depender de seu desempenho acadêmico.

Como nos anos anteriores o governo vinha segurando as concessões de novos polos, foi a senha para um efeito manada de empresas consolidadas em EAD, como a Kroton, mas também para vários novos perfis de concorrentes. “Havia uma concentração de mercado favorecida pela própria regulação. Os pedidos de abertura de polo simplesmente não andavam. Agora a concorrência aumentou”, afirma Fábio Figueiredo, diretor de planejamento do grupo Cruzeiro do Sul. Pequenas universidades locais puderam abrir polos de ensino a distância em cidades próximas à sua operação, e algumas se aventuraram por outros estados ou regiões.

O Brasil tem mercado para 23 mil polos de EAD? Para executivos e consultores ouvidos por EXAME, não. “Boa parte desses milhares de polos não tem viabilidade econômica. Vemos cidades pequenas com dez, 12 polos. Essa bolha está estourando e já vemos polos sendo fechados”, diz Romário Davel, sócio da consultoria Atmã Educar. Segundo Davel, nos próximos anos só as redes mais estruturadas devem conseguir manter grandes operações de ensino a distância. Até porque as despesas para operar nesse nicho podem ser menores do que as da educação presencial, com grandes estruturas físicas e exércitos de professores, mas estão longe de ser desprezíveis. Instituições pequenas, sem poder de fogo para investir em marketing e em tecnologia, devem ser as primeiras afetadas.

No EAD, escala é um fator fundamental. Os altos investimentos em tecnologia necessários para garantir uma boa experiência ao aluno se pagam na medida em que a instituição consegue ter muitos estudantes conectados no mesmo curso. “Nunca tivemos uma necessidade tão grande de sofisticar a operação”, diz Jeferson Ortiz, diretor de operações e polos EAD da Kroton, maior empresa do setor.

Ou seja, o avanço do EAD, assim como o do Fies, tende a beneficiar as grandes redes, com mais capacidade de investimento. Elas estão em meio a uma corrida para fincar bandeiras no maior número possível de territórios. A Estácio, como já dito, foi de 228 polos, no primeiro trimestre de 2017, para 635, no primeiro trimestre deste ano. A Ser, que tinha apenas 15 polos EAD há dois anos, hoje tem 246; a Kroton tinha 910 polos no início de 2017 e hoje conta com 1.410; e a Cruzeiro do Sul passou de 150 para 780 no mesmo intervalo. Os planos de expansão das grandes redes continuam, por ora. A Kroton agora pretende chegar a 1.510 polos até o fim do ano. A Estácio tem a meta de 1.000, assim como a Cruzeiro do Sul. Na Ser, a diretriz é abrir 100 polos ao ano. A avaliação é que os pequenos não terão vez.

Os números de alunos do EAD cresceram de forma significativa nos últimos anos. Ainda assim, só 18% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos frequentam cursos de ensino superior. A meta do Plano Nacional de Educação é chegar a 33% de presença até 2024. “A quantidade de pessoas no Brasil que têm só o segundo grau é muito grande. Enquanto não chegarmos a elas, o trabalho não terminou”, afirma Eduardo Parente, presidente da Estácio.

Apesar das boas perspectivas, até aqui, a expansão do EAD teve efeitos distintos para as principais empresas. A Kroton, que chegou a valer mais de 30 bilhões de reais na bolsa em 2017, hoje está avaliada em cerca de 20 bilhões. A concorrente Estácio, por sua vez, está perto do pico histórico de 10 bilhões de reais, com alta de 28% em 2019.

Na Ser, o valor de mercado também subiu no ano, de 2 bilhões para 3 bilhões de reais. As três instituições, as maiores do país, perderam alunos nas aulas presenciais com o fim do Fies, e devem continuar perdendo. A Estácio já teve 43% de seus alunos presenciais do Fies — hoje, tem 17%. Na Kroton, a participação caiu de 52% para 17%.

Eduardo Parente, da Estácio: a maior captação de alunos da história | Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Os limites da escala

Uma das principais apostas das grandes redes está nos cursos híbridos. Nessa modalidade, os alunos têm a parte teórica pela internet e alguns encontros semanais para aulas práticas e convivência com os colegas. É uma tentativa de unir o melhor dos dois mundos: a praticidade do EAD com a experiência do curso presencial.

O preço da mensalidade fica no meio do caminho e ajuda a aumentar a receita das instituições, enquanto as matrículas nos cursos presenciais, mais caros, emperram. Um curso 100% online de administração na faculdade Anhanguera, da Kroton, sai por 165 reais ao mês. Na modalidade semipresencial, a mensalidade sobe para 239 reais. O curso totalmente presencial custa 799 reais mensais. Uma estimativa da consultoria Educa Insights mostra que os cursos híbridos devem representar 10% das matrículas em instituições privadas de ensino superior até 2023, ano em que a modalidade chegaria a 1,6 milhão de alunos — hoje são 300 mil.

Na Kroton, a maioria dos alunos já faz cursos com encontros uma vez por semana. Mais recentemente, a empresa lançou a modalidade EAD Premium, com três encontros presenciais por semana, que já responde por 14% dos novos alunos em EAD. Enquanto no 100% online os cursos mais buscados são administração e pedagogia, o modelo intermediário permite a oferta de graduação em áreas como nutrição, enfermagem e engenharia, que exigem aulas práticas.

“No início, os cursos a distância eram muito padronizados. O modelo híbrido surge dentro da tendência de termos no mercado opções de mais qualidade”, diz Daniel Infante, sócio-fundador da Educa Insights. Na Estácio, os cursos EAD Flex, com 70% do conteúdo digital e atividades nos polos e laboratórios, ganharam força neste ano: a base chegou a 33 mil alunos em março, com crescimento de 64,7% em relação ao primeiro trimestre de 2018. A modalidade já é oferecida em cerca de 100 polos e as aulas práticas (de até duas por semana) são marcadas de acordo com a disponibilidade do aluno.

Rodrigo Galindo, da Kroton: aposta em cursos híbridos | Lia Lubambo

Como os cursos a distância não são financiados pelo governo federal, seu crescimento, ligado à capacidade de pagamento dos alunos, tende a ser mais sustentável no longo prazo. Mas há questões em aberto que nublam o potencial do mercado. A primeira delas diz respeito às próprias redes de ensino. A expansão acelerada de polos pode fazer com que muitos não atinjam o número mínimo de alunos necessário para sua manutenção.

Para se sustentar, o polo precisa ter, em média, de 150 a 450 alunos, dependendo do modelo de negócios. Unidades muito boas chegam a ter 4 mil alunos. Mas reunir essas pessoas tem ficado mais difícil com o aumento da concorrência. Os polos da Ser Educacional, a maioria deles recém-inaugurada, têm, em média, apenas 88 alunos.

Um entrave é como responder às constantes dúvidas dos alunos sem precisar inchar a base de professores, algo que derrubaria parte do ganho de escala. “Estamos testando o uso de inteligência artificial para ter um assistente virtual que possa responder de forma prática às dúvidas tanto acadêmicas quanto administrativas”, afirma Jânyo Diniz, presidente da Ser Educacional.

Outra leva de dúvidas vem do mercado e de órgãos reguladores. Uma das controvérsias é a aceitação de cursos a distância em algumas profissões. O Conselho Federal de Enfermagem é contra EAD para formar enfermeiros e apoia um projeto de lei em tramitação na Câmara que obriga a formação restrita a cursos presenciais.

Um dos grandes entraves é a retenção dos alunos. Em outra frente, o Sindicato dos Professores de São Paulo reclama de demissões e afirma que professores de cursos a distância ganham menos do que os de cursos presenciais. Segundo as empresas, os trabalhos são diferentes e o modelo de remuneração também. Depois de usufruir a onda de risco zero do Fies, as escolas vão encarar as exigências do EAD.