Obstáculos na pista para a Itapemirim

O governo deve realizar mudanças drásticas no setor de transporte rodoviário de passageiros - e a Itapemirim, atolada em problemas financeiros e de gestão, corre o risco de ficar sem suas melhores rotas

Criada em 1953, a tradicional Viação Itapemirim, do Espírito Santo, é uma espécie de símbolo do transporte rodoviário no Brasil. Seus 1 165 ônibus, todos amarelos, são quase onipresentes nas principais estradas brasileiras.

Em seu melhor momento, durante a década de 90, a Itapemirim chegou a virar companhia aérea, um caminho que parece ter se transformado em obsessão entre as maiores empresas de ônibus do país – apesar dos fracassos recorrentes. De lá para cá, as contas da Itapemirim foram lentamente se deteriorando e a concorrência ocupou espaço.

O que vem pela frente pode tornar a vida ainda mais difícil em Cachoeiro do Itapemirim, a sede da empresa. Até o fim do ano que vem, o governo federal deve licitar as 1 600 linhas rodoviárias interestaduais do Brasil. Até hoje, as companhias de ônibus exploraram essas rotas com grande autonomia.

Com o leilão, muda tudo. Elas se transformarão em prestadoras de serviços e, assim como as empresas aéreas, estarão sujeitas a um maior controle governamental. O sucesso no leilão também dependerá da capacidade de cada companhia em baixar as margens de lucro obtidas com a venda de passagens.

Pelas regras, ganha quem oferecer os melhores preços ao consumidor. “Como em um processo de seleção natural, a licitação deixará de fora as companhias malgeridas. Aquelas que não apresentarem resultados positivos não terão fôlego para oferecer preços baixos nas tarifas”, diz Marcelo Perrupato, secretário de Política Nacional de Transportes.

O momento não poderia ser pior para a Itapemirim, afundada em prejuízos e em longuíssimas e inconclusas disputas de poder. Sua escala – foram 3,2 milhões de passageiros transportados no ano passado – não tem sido suficiente para evitar prejuízos, que se repetem em maior ou menor intensidade nos últimos dez anos (veja quadro).

Sua dívida, de aproximadamente 200 milhões de reais, tem custo alto, dado o resultado operacional negativo. Apenas no ano passado, a Itapemirim pagou 37 milhões de reais em juros e encargos. A sangria financeira cobrou seu preço com a falta de crescimento.


Entre 2006 e 2007, a companhia praticamente estagnou num faturamento de 419 milhões de reais – as vendas, na verdade, chegaram a recuar entre um ano e outro. No mesmo período, suas principais concorrentes – a capixaba Águia Branca e a carioca Cometa – cresceram, respectivamente, 9% e 11%.

Devido ao fluxo de caixa comprometido, a Itapemirim tem hoje uma das frotas de ônibus mais antigas do Brasil, com idade média de dez anos.

O ponto mais sensível do grupo é sua divisão de transporte de cargas, a Itapemirim Cargas. A empresa opera no vermelho desde 1996 e, no ano passado, as perdas atingiram 60 milhões de reais. Nos anos 90, a divisão foi o ponto de partida para o grupo ensaiar uma malsucedida aventura no setor aéreo.

Embalada pelo sonho de construir uma Fedex brasileira, a Itapemirim Cargas chegou a ter oito aviões, entre eles seis Boeing 727 próprios. Deu tudo errado e o que sobrou foi vendido para a TAM, em 1998.

Mais recentemente, a divisão de cargas fez um novo investimento com final infeliz. Aplicou 33 milhões de dólares emprestados do BNDES na construção de dois grandes terminais de cargas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas a expectativa de demanda desses dois terminais jamais se concretizou.

A tentativa de criar a Fedex brasileira faz parte do estilo de negócios do fundador da Itapemirim, o deputado federal Camilo Cola, hoje com 84 anos de idade.

Cola e seus sucessores no comando da companhia construíram e ainda mantêm uma estrutura extremamente verticalizada, que chegou a fabricar os próprios ônibus na década de 90 e hoje tem seguradora, agência de publicidade interna, lanchonetes, postos de gasolina e hotéis instalados às margens de rodovias. “Para sobreviver, o grupo Itapemirim tem de reduzir urgentemente sua estrutura”, afirma um executivo da empresa ouvido por EXAME.

Com a perspectiva de perder terreno por causa das licitações, a empresa deu início a uma reestruturação. Recentemente, se desfez de uma garagem em Brasília, vendendo-a por 25 milhões de reais.


Também repassou as empresas Nossa Senhora da Penha e Expresso Kaiowa para a família Constantino, dona de várias empresas de ônibus e controladora da companhia aérea Gol. As duas companhias foram arrematadas por 120 milhões de reais. No início deste ano, o grupo Itapemirim também vendeu dois terminais de carga, um no Rio e outro em São Paulo, por 72 milhões de reais.

Com o valor arrecadado, a empresa vem diminuindo a dívida e fazendo novos investimentos. Até o fim do ano, serão investidos 50 milhões de reais em 100 novos ônibus – o que deve reduzir a idade média da frota para oito anos.

Também há planos de vender a rede Flecha, de lanchonetes em beira de estradas. Pelos planos dos executivos da empresa, essas medidas deverão estancar os prejuízos ainda neste ano. Em um comunicado enviado à reportagem de EXAME, a Itapemirim afirma que a expectativa é que o grupo registre lucro de 19 milhões de reais até dezembro.

Os números da Itapemirim

Mais do que colocar as finanças em ordem, o real desafio da Itapemirim é de comando. Atualmente existem dois grupos que se digladiam dentro da empresa. Um deles é liderado por Camilo Cola Filho (ou Camilinho, como é conhecido), filho adotivo do fundador.

Aos 52 anos, Camilinho é presidente da problemática Itapemirim Cargas. A outra ala, formada por executivos de carreira no grupo, é mais ligada ao fundador, Camilo Cola. Trata-se de uma desavença antiga que começou na década de 90, quando a empresa iniciou um processo de profissionalização.

Na ocasião, os executivos passaram a questionar a capacidade administrativa de Camilinho. O caso foi parar na Justiça, em meio a acusações de grampos telefônicos. O processo de profissionalização foi interrompido e, de lá para cá, a divisão se acirrou, refletindo na administração da empresa.

Para tentar resolver essa disputa de vez, serão definidas nas próximas semanas as novas regras de governança corporativa do grupo. A idéia é que o comando da empresa seja tocado não mais por uma pessoa, mas por um colegiado de executivos. (A presidência era ocupada pela mulher de Camilo Cola, Inez, que morreu há quatro meses.)

Resta saber se isso será suficiente para fazer com que a Itapemirim volte também a seus dias de glória.