A obra inacabada de 11 de setembro

Terror, medo, insegurança, crise na economia, escândalos corporativos. Os Estados Unidos, um 11 de setembro depois

Em sua edição comemorativa de 11 de setembro, a revista Time resolveu salomonicamente um dilema editorial. Estampou, lado a lado, dois articulados ensaios. Um, escrito por Andrew Sullivan, argumentou que, sim, os Estados Unidos mudaram desde os atentados terroristas. O outro, de autoria de Michael Elliott, rebateu que, não, o país continua sendo o mesmo, graças a Deus. O sábio Salomão é, de fato, a tábua de salvação. Ser taxativo é ofício de articulista.

Para Sullivan, “o 11 de setembro mostrou, pela primeira vez na história, que o solo americano é realmente vulnerável a um ataque mortal de um inimigo estrangeiro”. Elliott replicou que “é simplesmente ridículo imaginar que derrotar o terrorismo radical islâmico vai exigir o mesmo nível de compromisso nacional visto na Guerra Fria”. É difícil julgar o 11 de setembro e suas conseqüências porque a obra de destruição daquela ensolarada manhã de terça-feira segue inacabada. Quem sabe será menos penoso do que muitos imaginam dar cabo do perigo, conforme argumentou Elliott. Mas, talvez daqui a 50 anos, EXAME ainda esteja avaliando o que está em jogo desde 11 de setembro de 2001.

Nos argumentos, Sullivan e Elliott foram tão radicais quanto a turma de Osama bin Laden. No entanto, é possível, salomonicamente, dar razão a ambos e discordar deles. Ponto para Elliott: cadê a revolução cultural e de comportamento? No day after fomos alvejados por uma barragem de comentários banais de que a cultura popular criaria vergonha na cara.

O momento era muito dramático para o besteirol da televisão. Bem, os reality shows estão aí, fortes e idiotas como sempre. E existe uma clara preferência nacional pelo escapismo. O seriado Friends, sobre as agruras cotidianas de seis charmosos jovens nova-iorquinos, foi o campeão de audiência na temporada pós-11 de setembro. Para os seis amigos, parece que aquelas torres gêmeas nunca desapareceram da paisagem de Manhattan. Mas, falando de coisas mais sérias, e aqui vai um ponto para Andrew Sullivan, é inegável que ocorreram algumas mudanças profundas na paisagem da política externa americana.


Essas mudanças estavam sendo ensaiadas antes, mas se tornaram irresistíveis após os ataques a Nova York e Washington. No jornal inglês Financial Times, Lionel Barber descreveu com precisão quais são os três novos pilares da segurança nacional americana:

* A guerra contra o terrorismo é o fio condutor da política externa dos Estados Unidos. Os países que ajudam Washington serão recompensados. Os que dão as costas serão negligenciados, e ai de quem se colocar no caminho. Sofrerá sanções ou coisa pior.

* Os Estados Unidos estão menos inclinados que antes a acatar as leis internacionais como parte da guerra contra o terror, que se converteu numa cruzada pessoal do presidente George Bush.

* Haverá, isso sim, mais inclinação a ataques preventivos. E, após a missão punitiva no Afeganistão, o Iraque desponta como alvo quase inevitável dessa mania de prevenção.

Com essa postura mais agressiva e menos preocupada em investir em alianças internacionais, não causa surpresa o isolamento da única superpotência no planeta. O professor de Harvard Michael Ignatieff lembrou que logo após 11 de setembro os americanos capitalizaram a simpatia mundial. Houve o pessoal que bradou “bem feito!”, mas a reação natural foi considerar os atentados um ataque contra a civilização. Um ano depois, fica patente que o presidente Bush perdeu oportunidades históricas para costurar uma coalizão internacional que combata não apenas o terror mas também outros desafios perigosíssimos no cenário internacional.

E aqui a lista, da aids ao socorro de economias combalidas, é maior do que o número de reality shows na televisão americana. Dentro do governo, houve o triunfo de falcões, como o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, que colocaram de molho o multilateralista Colin Powell, secretário de Estado. Por isso, a cruzada de Bush hoje é marcada por isolamento e unilateralismo. Analistas antiamericanos têm o hábito de exagerar as resistências ao império, mas o título do já citado artigo de Lionel Barber no Financial Times, sobre as relações dos Estados Unidos com o resto do mundo, oferece uma medida apropriada do que está acontecendo: “Não contra você, mas nem sempre com voc”.

Dentro de casa, o presidente Bush pôde contar com um esperado fervor patriótico e uma corrente de solidariedade. Sua popularidade por alguns meses desafiou as leis da gravidade. O país absorveu o cerceamento de liberdades civis, a explosão do déficit público e a maior expansão do poder presidencial desde os tempos de Franklin Roosevelt, nos anos 30. Bush aproveitou o embalo para lançar uma cruzada a favor do voluntarismo. Os americanos estariam unidos contra os inimigos externos e também engajados em um novo espírito cívico. Grupos filantrópicos registraram muitas adesões logo após os atentados.

O engajamento já caiu bastante, embora com bem menos intensidade em Nova York. Nacionalmente, mais de 275 000 pessoas doaram sangue pela primeira vez na vida entre 11 de setembro e 1o de outubro de 2001, de acordo com dados da Cruz Vermelha, mas apenas 20% retornaram para uma segunda doação. Os templos religiosos, que viram a freqüência crescer após os atentados, também já voltaram aos padrões anteriores a 11 de setembro.


Outro professor de Harvard, Robert Putnam, se diz hoje desiludido com o enfraquecimento do espírito comunitário pós-11 de setembro. Nos anos 90, Putnam fez pesquisas sobre a falta de civismo na sociedade americana. Ele tinha esperança de que o 11 de setembro produzisse uma grande geração, como ocorreu depois do ataque japonês contra Pearl Harbor, em 1941. Segundo disse a EXAME, Putnam agora avalia que as oportunidades de renascimento cívico criadas após 11 de setembro estão se fechando rapidamente.

Os americanos não estão doando sangue como Putnam gostaria, mas seguem abrindo a carteira para usar o cartão de crédito. Após 11 de setembro, os consumidores deram uma banana aos alarmistas que apostavam no sucesso de Osama bin Laden contra o modo de vida americano. Ainda na noite daquele dia infame, Bush lembrou que a economia estava aberta para negócios. A General Motors deu um empurrão nas legiões de consumidores ao anunciar o financiamento de seus carros sem juros. Consumir passou a ser um gesto patriótico. Isso ajudou a injetar ânimo numa frágil e assustada economia, assim como a insistência do Federal Reserve, o banco central de Alan Greenspan, para levar os juros a seu patamar mais baixo em 40 anos.

Laurence Meyer, ex-colega de Greenspan no Fed, admitiu ao Wall Street Journal sua surpresa com o pequeno impacto de 11 de setembro no comportamento dos consumidores. Talvez seja realmente verdade. “Nós adoramos ir às compras”, afirmou Meyer. Viva o consumidor patriótico, mas hoje a pergunta é: por quanto tempo ele poderá ser o salvador da economia? A economia reagiu bem ao impacto inicial de 11 de setembro, mas não existem razões para deslumbramento um ano depois.

Na avaliação de Scott Anderson, economista do banco Wells Fargo, os ataques terroristas causaram um declínio apenas temporário na confiança do consumidor e nas vendas de varejo. Muito mais insidiosas foram a implosão ponto-com e o impacto a longo prazo dos escândalos corporativos. Por esta última, poucos esperavam. Alguns meses após 11 de setembro, elementos como Kenneth Lay (Enron) e Bernie Ebbers (WorldCom) só perdiam para Osama bin Laden na categoria de inimigo público número 1.


Economistas como Anderson vêem uma conexão entre as emoções geradas pelos ataques de 11 de setembro e as fraudes contábeis que abalaram Wall Street com os fundamentos da maior economia do mundo. Hoje, a economia americana vê-se colhida entre duas guerras: uma contra a desconfiança externa provocada pelo terrorismo; a outra contra a desconfiança interna motivada pela onda de falcatruas.

Para alívio do presidente Bush, os americanos ainda distinguem o comandante-em-chefe que teve o batismo de fogo em 11 de setembro e o executivo-chefe que foi atropelado pelos acontecimentos (e pelo Congresso) na crise das fraudes. Mas não custa lembrar que nos Estados Unidos o papel de cidadão confunde-se com o de acionista. São 80 milhões de americanos, quase metade da população adulta, com interesses nos mercados.

São cada vez mais freqüentes as reportagens sobre a amargurada classe média, que colocou suas economias na bolsa acreditando numa bolha eterna e sonhando com uma doce aposentadoria, e se deu mal. Curiosamente, a mesma opinião pública, que ainda poupa o executivo-chefe de sua indignação, esperava que o comandante-em-chefe atuasse na campanha contra as fraudes com a mesma determinação que exibira nos dias dramáticos de setembro e, em seguida, na guerra no Afeganistão.

Mais que isso, as pesquisas confirmam que a economia compete com o terror como a principal preocupação nacional. A barbárie de 11 de setembro fica mais distante dos americanos à medida que se afasta de Nova York e Washington. E, com a aproximação das eleições para o Congresso em novembro, temas mais sensíveis ao bolso do cidadão-acionista devem ganhar ainda mais valor.

Os democratas — que têm a vantagem de uma cadeira no Senado e sonham em reconquistar a Câmara dos Deputados dos republicanos — deixaram de tratar o presidente como vaca sagrada durante a onda de escândalos corporativos. Bush passou a ser visto como um beneficiário do capitalismo de compadres, incapaz de enxergar que a crise era sistêmica e não se resolveria com a remoção de algumas maçãs podres do cesto empresarial.

Paul Krugman, economista de Princeton, hoje mais conhecido como articulista do New York Times, acredita que Bush será julgado pela história muito mais por seu comportamento na crise das fraudes do que pelo 11 de setembro. Novamente, como no caso dos articulistas da revista Time, a casa de apostas está aberta. Paralelos entre o atual presidente Bush e seu pai são irresistíveis.

Dom Bush I alcançou estrondosa popularidade na guerra contra o Iraque, mas foi derrotado pela recessão econômica dos anos 90, que levou o obscuro Bill Clinton ao poder. Hoje, além da crise de confiança na América corporativa, Bush filho convive com a possibilidade de um novo mergulho da economia nas águas recessivas. É verdade que o cenário de um ataque contra o Iraque já estava sendo montado antes que a massa americana soubesse das estripulias das empresas fraudulentas ou o que significa opções de ações. Mas agora existe uma tentação extra de distrair a opinião pública. Claro que um país desconfiado após tantas fraudes pode perguntar se Bush não está confundindo seus interesses políticos com os interesses nacionais.