A Quinto Andar une o virtual ao real no mercado de imóveis

Com valor de mercado estimado em mais de 1 bilhão de reais, a imobiliária digital QuintoAndar se aliou a concorrentes tradicionais para crescer

Alugar um imóvel costuma ser um aborrecimento. Por isso, os empreendedores mineiros André Penha e Gabriel Braga, que se conheceram em 2011 fazendo um curso de MBA na Universidade  Stanford, nos Estados Unidos, decidiram abraçar a causa dos locatários. Assim nasceu a QuintoAndar, imobiliária digital especializada em aluguéis residenciais e hoje avaliada em mais de 1 bilhão de reais.

Atuando em 23 cidades, a companhia que nasceu online agora está ampliando o lado offline do negócio. Assim como a varejista americana Amazon comprou a rede de supermercados de produtos naturais Whole Foods, a QuintoAndar está fazendo associações com imobiliárias tradicionais para encorpar a carteira de imóveis. “As empresas disruptivas são geralmente vistas como as desafiantes, mas queremos transformar competidores em parceiros”, diz Braga.

A QuintoAndar começou em Campinas, no interior de São Paulo, em 2012 e estreou na capital paulista em 2015. Era o auge da crise do setor imobiliário. Com a recessão, muitos consumidores adiaram o sonho da casa própria, preferindo alugar casas e apartamentos, enquanto a oferta de imóveis estagnou.

A plataforma conecta proprietários ou administradores aos candidatos a inquilinos. A diferença em relação a outras do ramo, como o Grupo Zap Viva Real, é que esses sites funcionam apenas com a publicação de anúncios classificados, enquanto a QuintoAndar se coloca como intermediária formal entre locadores e locatários, prestando serviços para as duas pontas.

As imagens das residências são feitas por fotógrafos a serviço da QuintoAndar, e corretores parceiros guiam as visitas. O interessado submete todos os documentos para sacramentar o negócio pela internet, sem passar por cartório, e não precisa de fiador nem caução.

Empregando tecnologia de análise de dados para medir o risco financeiro que cada cliente representa e coberta por um seguro para toda a carteira, a plataforma garante aos proprietários o pagamento em dia e resolve even-tuais desavenças. Assim, o tempo médio de fechamento do contrato fica em torno de quatro dias — ante 40 do processo em imobiliárias tradicionais.

Com as imobiliárias parceiras, que recebem um percentual da receita que o locatário gera, a QuintoAndar estima aumentar o número de novos contratos fechados por mês em seis vezes no final deste ano em relação a 2018. A primeira associada, em abril, foi a Casa Mineira, de Belo Horizonte. “Vamos nos dedicar mais à nossa especialidade, que é o relacionamento com os proprietários, ganhando dinamismo e eficiência no online”, diz Daniel Araújo, sócio da Casa Mineira.

Depois vieram mais 12 parcerias nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás e no Distrito Federal. A última foi a imobiliária Nova São Paulo, de forte presença na zona sul paulistana.

Para aumentar a atratividade dos imóveis à disposição, a QuintoAndar está oferecendo consultoria para os proprietários reformarem casas e apartamentos, adiantando alguns meses de aluguel para bancar as obras.

O dinheiro vem dos cerca de 100 milhões de dólares em investimentos que a QuintoAndar já recebeu. Na última rodada, no final de 2018, a gestora de recursos americana General Atlantic aportou 250 milhões de reais, juntando-se a fundos como o Kaszek Ventures, dos argentinos fundadores do Mercado Livre, como acionista relevante da imobiliária brasileira.

Por trás da agressividade da QuintoAndar está a aposta de que o mercado de moradias no Brasil vai seguir uma revolução mundial. Na visão da imobiliária digital, cada vez mais os consumidores optarão por alugar uma casa ou apartamento em vez de comprar, para ganhar a liberdade de mudar quando quiser.
A QuintoAndar não está sozinha nessa expectativa. Construtoras como a MRV e a Vitacon já avisaram que pretendem passar a focar imóveis para alugar. No Brasil, apenas 18,1% das residências são locadas, enquanto em algumas cidades dos Estados Unidos a proporção chega a 50%.
Oportunidades de crescer, portanto, devem continuar aparecendo. Concorrentes, também. Marketplaces internacionais gigantes, como OLX e Mercado Livre, estão investindo no mercado imobiliário.
O mercado está aquecido tanto aqui quanto lá fora. A própria Amazon anunciou, no fim de julho, uma parceria com a Realogy para conectar interessados em comprar residências aos corretores da imobiliária nos Estados Unidos. A união com as empresas físicas mostra que, para conquistar o mercado imobiliário, só tecnologia e ambição não bastam.