No Pará um vilão virou bom exemplo de agricultura

Em uma área do Pará que já foi símbolo de devastação, a agricultura avança e ajuda a preservar a floresta. A nova fronteira agora atrai a atenção de grandes investidores do agronegócio

Redenção e Santana do Araguaia – Em 2002, o paranaense Rodolfo Schlatter chegou ao Pará em busca de espaço. Até então ele era dono de fazendas em Goiás e Mato Grosso do Sul, onde cultivava soja, milho e algodão. Rumo ao Norte, Schlatter procurava terras baratas para expandir a produção.

Acabou comprando uma área de 17 000 hectares em Santana do Araguaia, no sudeste paraense. Numa região dominada pela criação de gado, ele foi um dos primeiros agricultores em grande escala.

“Quando chegamos aqui, todo mundo nos chamava de loucos”, diz Thiago Schlatter, de 27 anos, filho de Rodolfo responsável por tocar os negócios da família em Santana do Araguaia — o pai e os irmãos permanecem em Mato Grosso do Sul.

“Hoje, quase ninguém duvida que a região é um território muito promissor para a agricultura.” No dia 18 de fevereiro, quando EXAME visitou a propriedade, cinco máquinas equipadas com GPS iniciavam a colheita. A safra de 2014 é a 12a de soja dos Schlatter em território paraense e deve render 20 milhões de reais. Ao fundo, em áreas já colhidas, era possível ver o início do plantio do milho.

A produção de grãos no Pará cresceu  quase 50% de 2002 para cá, chegando a 1,4 milhão de toneladas no ano passado. Ainda é pouco se comparada ao volume colhido em áreas onde a agricultura já está consolidada, como o Centro-Oeste e a região formada pelo sul do Maranhão e do Piauí, nordeste do Tocantins e oeste da Bahia, conhecida pelo acrônimo Mapitoba.

Recentemente, no entanto, investidores passaram a ver nas terras paraenses uma nova fronteira a ser desbravada — mais especificamente nas cidades de Santana do Araguaia, Redenção, Conceição do Araguaia, Floresta do Araguaia, Santa Maria das Barreiras e Cumaru do Norte, no sudeste do estado.

Juntos, esses municípios formam um território de 52 000 quilômetros quadrados, o equivalente ao de estados como o Rio Grande do Norte e o Espírito Santo ou maior do que países como a Dinamarca. A SLC Agrícola e a V-Agro, duas das maiores empresas produtoras de grãos do Brasil, estão à procura de terras e planejam se instalar por lá neste ano.

“A região tem tudo para estourar”, diz Arlindo Moura, presidente da V-Agro. Segundo a consultoria agrícola Céleres, na próxima década a produção de soja no sudeste paraense poderá alcançar 1,6 milhão de toneladas por ano. 

Terras fartas e mais baratas do que no restante do país compõem um pacote atraente. Um hectare de terra no sudeste paraense custa 2 200 reais, quase um quarto do preço médio no país, segundo a consultoria Informa Economics/FNP.

O clima quente e as chuvas de 2 000 milímetros anuais permitem o plantio de duas safras por ano — na maior parte da região de Mapitoba, onde chove a metade, só se colhe uma safra anual. 

Saída pelo norte

A região tem mais uma vantagem: sua posição geográfica torna relativamente fácil uma saída da produção pelo Norte do país. Mas, para isso, a infraestrutura precisa melhorar. A produção é hoje escoada pela BR-158 e pela PA-287 até a cidade de Colinas, no Tocantins. Daí, segue pela ferrovia da mineradora Vale até o porto de Itaqui, no Maranhão. 

No trecho de 200 quilômetros da BR-158 entre Redenção e Santana do Araguaia quase não se vê asfalto, e os buracos frequentes forçam o motorista a invadir a pista oposta. Muitas das pontes são improvisadas — foram instaladas como quebra-galho pelo Exército e se tornaram permanentes — e permitem a passagem de um veículo por vez. Sinalização, não há nenhuma.

O governo paraense espera leiloar até o fim do ano a concessão de uma ferrovia de 1 200 quilômetros ligando Santana do Araguaia a Colares, nos arredores de Belém, onde está prevista a construção de um porto. A obra, orçada em 7 bilhões de reais, tem conclusão prevista para 2018.

“Quando as obras saírem do papel, a região terá uma logística muito competitiva para exportar para a China”, diz Gustavo Lunardi, executivo da SLC LandCo, braço da SLC encarregado de analisar terras para aquisição. 


Boa parte das lavouras da região ocupa pastagens cuja produtividade caiu ao longo dos anos. O Pará tem 3 milhões de hectares de pastos degradados aptos a ser cultivados — um terço dos quais nos municípios do Sudeste.

“A agricultura pode crescer aproveitando essa área já desmatada no passado”, diz Marcio Sztutman, gerente de Conservação da Amazônia na ONG The Nature Conservancy. “A floresta não precisa ser prejudicada.” Ao contrário: de 2004 a 2012, houve queda de 80% na área anual desmatada no Pará — embora o estado continue a ser o que mais derruba árvores no país.

Um dos casos mais emblemáticos é Santana do Araguaia, onde desde 2005 o desmatamento caiu de 617 para 40 quilômetros quadrados por ano. Em 2012, a cidade saiu de uma lista do governo federal que aponta os municípios que mais devastam a floresta e restringe o recebimento de recursos públicos.

A agricultura também ajuda os pecuaristas a tirar melhor proveito da terra e a aumentar a produtividade do rebanho. Em muitas propriedades, parte da área é separada para cultivar arroz, soja e milho num ciclo anual e, ao final, com os nutrientes que sobram na terra, a pastagem ressurge pronta para receber o gado de volta.

“Alternando pe­cuá­ria e agricultura, pretendo engordar até cinco bois por hectare, cinco vezes o que conseguia antes”, diz Edenilson Bocchi, outro paranaense que se encantou pelo Pará. Até dois anos atrás, ele era apenas pecuarista, mas hoje já destina aos grãos um terço dos 14 000 hectares produtivos de suas fazendas.  

Precariedade

Redenção, com 100 000 habitantes, aos poucos está se tornando o principal polo dessa nova fronteira agrícola. O aeroporto local, atendido por apenas um voo diário de bimotor para nove passageiros, é a porta de entrada da região. A cidade concentra serviços como hospital, universidade, escolas particulares e um florescente comércio de máquinas agrícolas.

A Agrinorte, concessionária da fabricante de tratores John Deere, se instalou no município em 2008. De lá para cá, suas vendas crescem 25% ao ano. Os cofres públicos também estão faturando mais.

“A arrecadação de tributos vem aumentando 15% por ano graças ao agronegócio”, diz o prefeito de Redenção, Vanderlei Coimbra, que tem 30 anos e só concluiu o ensino médio. Nascido  lá mesmo, Coimbra faz parte de uma minoria: sete de cada dez moradores da cidade vieram de fora do Pará.

Em 2013, Redenção ganhou cinco bairros — um avanço que a infraestrutura não vem acompanhando. Quase nenhuma rua é asfaltada. Não há transporte público. Para se locomover, a maioria da população recorre a um serviço informal de mototáxis.

Água encanada é um luxo — só três em cada dez casas estão ligadas à rede de abastecimento. Nas cidades vizinhas, a situação não é melhor. A riqueza que está brotando nos campos é a esperança de melhoria da realidade urbana.