Tóquio quer mostrar qual é o valor de uma Olimpíada

A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, quer usar os Jogos Olímpicos de 2020 para mostrar ao mundo que a capital japonesa não está ficando para trás

Primeira mulher eleita governadora da região metropolitana de Tóquio, há dois anos, a ex-apresentadora de TV Yuriko Koike vem encarando um desafio que poucos políticos no mundo têm a oportunidade de enfrentar: administrar a sede de uma edição dos Jogos Olímpicos. Em 2020, os olhos do mundo estarão voltados para a capital japonesa, e Yuriko está ciente disso. Entre seus principais desafios está o controle dos custos, que já estouraram em duas vezes a expectativa inicial de 7 bilhões de dólares (alguma semelhança com o Brasil?).

Além disso, há a preocupação de criar uma estrutura que comporte os 4,5 milhões de turistas esperados para o evento sem atrapalhar a vida dos 30 milhões de pessoas que vivem na região da Grande Tóquio. Dessa maneira, a governadora pretende que, após os Jogos, Tóquio seja reconhecida como um modelo a ser copiado. E o sucesso da Olimpíada pode significar o sucesso de Yuriko: rival do primeiro-ministro Shinzo Abe, ela é vista no Japão como uma potencial substituta do atual premiê no futuro.

Como está a preparação para os Jogos Olímpicos? O que Tóquio pretende mostrar ao resto do mundo em 2020?

Os preparativos para Tóquio 2020 estão indo bem. Nas recentes revisões do projeto feitas pelo Comite Olímpico Internacional, a velocidade das obras foi avaliada positivamente. Para nós, a Olimpíada é uma chance inigualável de ter o mundo focado em Tóquio. Queremos aproveitar o apelo para mostrar Tóquio ao mundo. Também é uma vitrine para apresentar um modelo de cidade sustentável. Outro foco são os Jogos Paralímpicos. Para nós, estes serão os “Jogos da Recuperação e da Construção”, pois 2020 marcará dez anos do grande terremoto que atingiu o leste do Japão. Tivemos um grande apoio de vários países na época. Agora, eu gostaria de mostrar ao mundo toda a nossa gratidão.

O custo associado aos Jogos Olímpicos mais do que dobrou em relação à estimativa inicial. O que aconteceu?

Um de nossos maiores esforços é reduzir essa conta. Quando assumi o governo [em 2016], os Jogos estavam orçados entre 18 bilhões e 27 bilhões de dólares [a promessa inicial, em 2013, havia sido de 7 bilhões de dólares de gastos]. Porém, após várias reuniões com o governo nacional e o comitê organizador, chegamos a um acordo para um teto de 14 bilhões. Depois, conseguimos economizar mais 1,3 bilhão de dólares. Nossa meta é continuar de olho no orçamento até o início dos Jogos. Claro que estamos observando também o sucesso do evento e o desenvolvimento de legados. Portanto, estamos nos esforçando para verificar o que é necessário para cumprir com as responsabilidades. 

Algumas obras estão enfrentando atrasos, de acordo com o planejamento inicial. Quais são os motivos?

Tivemos problemas como a identificação de solo poluído em algumas obras. Por isso, alguns dos planos de construção foram adiados. Mesmo assim, garanto que tudo estará pronto até a abertura dos eventos-teste. Colaborarei pessoalmente para ter certeza de que os preparativos estarão completos até lá.

Um dos problemas enfrentados pelas cidades-sede das Olimpíadas é a falta de legado pós-evento. O que Tóquio fará para evitar isso?

Não queremos que os Jogos sejam um evento temporário, mas que deixem um legado duradouro para a população de Tóquio. A realização da Olimpíada precisa desenvolver a cidade em todos os campos, melhorando a qualidade de vida dos cidadãos e auxiliando o crescimento sustentável dos municípios do entorno. Os legados dos últimos Jogos Olímpicos em Tóquio, realizados em 1964, concentraram-se na infraestrutura urbana, como as rodovias e a primeira linha de trem-bala. Para 2020, acredito que nosso legado será o que poderíamos chamar de uma busca por “uma sociedade madura”.

Poderia dar um exemplo?

Vamos usar os Jogos Paralímpicos para tornar Tóquio uma cidade mais livre de barreiras. A intenção é promover a participação social de pessoas com deficiências e idosos, de modo a impulsionar a criação de uma sociedade inclusiva. Também estamos procurando ser mais eficientes. Queremos fazer reformas no estilo de trabalho, como estímulos ao trabalho em casa e aos horários alternativos. Junto com as empresas ferroviárias estamos criando horários alternativos de viagem e encorajando a população a fazer deslocamentos mais confortáveis, evitando horários de pico.

Que tipo de investimentos Tóquio pode atrair com a realização dos Jogos?

Tóquio é cheia de recursos humanos e com diversos potenciais. Então, somos uma cidade verdadeiramente atraente para investimentos. Mas temos um plano de atrair mais empresas financeiras estrangeiras e também companhias com tecnologia avançada, relacionadas à Quarta Revolução Industrial. Queremos tornar Tóquio o centro financeiro e econômico número 1 do mundo.

Como fazer isso?

Anunciamos, no ano passado, o plano Global Financial City Tokyo [“Tóquio, Cidade Financeira Global”, em tradução livre]. Estamos nos engajando em melhorias para o desenvolvimento de um ambiente de negócios global. Isso inclui o desenvolvimento de procedimentos administrativos, como o fornecimento de serviços em inglês — uma grande necessidade das empresas estrangeiras.

A senhora foi a primeira mulher eleita para o cargo de governadora de Tóquio. Qual é o significado dessa vitória?

Tenho repetido que a capacidade das mulheres ainda não foi completamente aproveitada e valorizada. Ainda há poucas mulheres em cargos-chave. Acredito que a estratégia de colocar as mulheres em posições de tomada de decisão, tanto no setor público quanto no privado, tornará empresas e sociedades mais fortes.

E como as mulheres podem ser mais bem aproveitadas no Japão?

Por aqui, as mulheres japonesas atingem o ensino superior cedo e demonstram muita competência, mas não são absorvidas pela sociedade. Isso traria mudanças necessárias à economia e ao próprio desenvolvimento social. Tento fazer minha parte como governadora. Aumentei o número de mulheres gerentes e também me esforço para criar ambientes de trabalho mais amigáveis.

Qual é a importância dessas medidas?

À medida que a sociedade envelhece e a população trabalhadora diminui, a participação das mulheres se torna mais do que importante: é uma necessidade, especialmente na economia. Elas são necessárias para um crescimento sustentável, por isso continuarei apoiando as mulheres.

Nas últimas décadas, houve a ascensão de diversos países e cidades na Ásia. O que Tóquio pode fazer para manter um papel de liderança na região?

No início do século passado, Tóquio era uma cidade modelo para todos os povos asiáticos que esperavam modernização e prosperidade. Agora, minha missão é estabelecer Tóquio como um modelo dinâmico que vale a pena copiar. Não apenas na Ásia, mas globalmente. Para isso, devemos evoluir como uma cidade madura e continuar a gerar crescimento mesmo com o declínio da população.

Qual seria o melhor caminho para isso?

A chave é criar um ambiente em que diversos estilos de vida sejam respeitados e as pessoas possam viver em harmonia. A construção desse caminho para ser uma competidora mais forte globalmente é uma ferramenta para um maior crescimento do país e da cidade. Queremos continuar sendo um bastião para o mundo. Vamos aproveitar a Olimpíada para isso.

Obras para a Olimpíada de 2020: assim como ocorreu no Brasil, os preparativos para os Jogos de Tóquio também sofrem com atrasos e estouro do orçamento | Toru Hanai/Reuters