Campeã em educação, Finlândia agora exporta seu modelo

As escolas da Finlândia ajudaram a transformar o país em uma nação rica. Agora, os finlandeses querem vender seu modelo educacional para o mundo

À primeira vista, a escola de ensino fundamental Siltamäen não tem nada de especial. É uma das três de Siltamäki, bairro essencialmente de classe média, na zona norte de Helsinque, a capital da Finlândia. As 270 crianças matriculadas ali, com idade de 7 a 12 anos, são as que moram nas vizinhanças da escola, que é  pública. Como boa parte das escolas fora do centro da capital, a Siltamäen tem um grande quintal e é cercada por uma floresta. Mas ali ocorre um projeto experimental que, de certa forma, resume as ambições que a Finlândia tem para o futuro de sua educação, considerada uma das melhores do mundo.

Numa sala do segundo andar da escola fica o Fuse Studio, um programa desenvolvido pela universidade americana Northwestern, de Chicago, para estimular na garotada o interesse em ciências, tecnologia, engenharia, design e matemática. A rotina dos estudantes no laboratório é escolher desafios em áreas como robótica, biotecnologia, desenvolvimento de jogos e impressão em 3D. A maioria dos desafios vem em kits para ser manipulados pelos estudantes.

Quando EXAME visitou a escola, no final de outubro, um grupo de alunos do 5o ano da professora Nina Orpana construía um carrinho movido a energia solar. Eram meninos e meninas de 11 anos, sem uniformes e descalços, que habilmente colocavam minipainéis fotovoltaicos na carroceria de carrinhos de plásticos. Uma lanterna potente era a fonte de energia que carregava a bateria e fazia o brinquedo se movimentar. Os alunos anotavam os dados de tempo de exposição da luz e de velocidade do carrinho — conceitos de física que eles estavam aprendendo e nem percebiam. Outros grupos de estudantes faziam experimentos com luzes led e ringtones para celulares. A professora Nina vibrava a cada experiência que dava certo.

O laboratório começou a funcionar na escola no ano passado e, como atende às diretrizes do novo currículo nacional finlandês, lançado em 2016, com grande ênfase em tecnologia, deverá ser adotado em outras unidades de ensino. “O objetivo agora é desenvolver nos alunos as competências exigidas para o século 21”, diz Anna-Mari Jaatinen, diretora da escola, que se dedicou durante dois anos para trazer o laboratório para a Siltamäen.

Loja da Nokia: a qualidade da educação no país foi fundamental para o sucesso da companhia finlandesa de aparelhos de telecomunicações | Henrik Kettunen/Getty Images

A motivação de professores, assistentes e diretores de escolas, como a vista na Siltamäen, é o que move praticamente todo o sistema educacional da Finlândia. O país nórdico de 5,5 milhões de habitantes, que passa quase metade do ano coberto por neve, coleciona indicadores de educação e de qualificação da população invejáveis. Hoje, 99% dos jovens concluem o ensino médio, o maior índice global. No Brasil, só 59% completam essa fase até os 19 anos.

No Pisa, teste educacional aplicado pela OCDE — associação que reúne 34 economias ricas — para avaliar a competência de jovens de 15 anos em matemática, leitura e ciências em 70 países, os finlandeses têm aparecido entre os melhores do mundo. Embora nas últimas edições suas notas tenham caído, eles arrebataram o quarto lugar no ranking de leitura, o quinto no de ciências e o 11o no de matemática — os estudantes brasileiros transitaram entre a 59a e a 65a posição na última edição do teste. A Finlândia também está entre os cinco países mais inovadores do planeta. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o país é o número 1 em capital humano, liderando o ranking de 130 países em três categorias, que variam de zero a 54 anos, de um total de cinco categorias por idade.

A história de sucesso da Finlândia começou nos anos 60, época em que o então país pobre começou a reverter os lucros da indústria de papel e celulose — ainda hoje uma das mais importantes de sua economia — para o financiamento das primeiras políticas de bem-estar social. Nos anos 70, uma reforma implantou o ensino gratuito universal e lançou as bases da formação de uma mão de obra qualificada. Essa evolução foi essencial para que, nos anos 90, aflorasse uma indústria de telecomunicações no país. Daí despontou o fenômeno Nokia, uma empresa centenária (nascida como fabricante de papel) que dominou o mercado de celulares no mundo no começo dos anos 2000.

Se a educação ajudou a transformar a Finlândia numa economia menos dependente de recursos naturais e cada vez mais voltada para o conhecimento, agora ela deverá ajudar o país — que celebra em 2017 o centenário de sua independência — a dar outro salto. Se todo o mundo olha para a Finlândia como um exemplo, por que não vender suas melhores lições para quem quiser comprar?

O sucesso educacional da Finlândia remonta a muito antes dos primeiros iPads entrarem nas salas de aula. Em 1957, quando a televisão chegou ao país e a perspectiva de produção audiovisual local era nula devido ao tamanho da população, um dilema se colocou: dublar ou legendar os programas estrangeiros. A segunda opção acabou prevalecendo devido ao duplo benefício que traria aos finlandeses: melhorar a habilidade de leitura e fazer com que os cidadãos ouvissem línguas estrangeiras. “Essa foi uma política que não custou quase nada e foi decisiva para melhorar a capacidade de leitura da população”, lembra Pasi Sahlberg, ex-professor na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e um dos mais renomados educadores finlandeses.

Hoje, a Finlândia é uma das nações com maior índice de leitura da Europa: são 70 milhões de livros emprestados das bibliotecas públicas num país de 5 milhões de pessoas. Ao longo de décadas, a Finlândia construiu um sistema que prima pela qualidade na construção do conhecimento e pelo bem-estar das crianças. Elas começam a ser alfabetizadas aos 7 anos. Antes disso, passam por creches e pré-escolas em que o foco é nada além de brincar, especialmente ao ar livre. O inverno glacial não é desculpa para ficarem trancadas. A rotina é a mesma até quando o termômetro registra 15 graus negativos.

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Nas escolas da Finlândia, os alunos não cumprem longas jornadas de aulas, têm pouca lição de casa e as provas não são o principal instrumento de avaliação — ao contrário do sistema adotado pelos atuais campeões do Pisa, os asiáticos, que impõem pressão e carga pesada de testes e tarefas. No país nórdico, há uma ampla oferta de cursos de línguas — as crianças começam a aprender inglês aos 9 anos — e de aulas de artes, artesanato, esportes e economia doméstica. “O objetivo não é formar apenas estudantes competentes, mas cidadãos capazes de cuidar de si mesmos e dos outros”, diz a psicóloga mineira Juliene Ferreira, que está fazendo doutorado em educação na Universidade de Tampere.

As aulas são cada vez mais interdisciplinares. O novo currículo nacional propõe, por exemplo, que disciplinas como ciência, matemática e música possam ter aulas integradas em um projeto. Antes mesmo da mudança, os professores já colocavam em prática duas vezes ao ano módulos de “aulas sobre fenômenos”, que combinam conteúdos para tratar de temas do cotidiano. Com o novo currículo, essa abordagem vai além. Nove entre dez finlandeses dizem que não ligam para as colocações do país no Pisa, mas as mudanças curriculares miram as novas competências globais que o próprio exame deve começar a avaliar em 2018.

Na sala de aula, porém, o mantra entre os educadores continua o mesmo: ninguém pode ser deixado para trás. Toda escola tem professores responsáveis por cuidar dos alunos com necessidades especiais — sejam elas dificuldades de ordem acadêmica ou problemas emocionais que afetem a rotina escolar dos estudantes. “O que diferencia a Finlândia no Pisa não é ter um grande número de alunos com altíssimo desempenho, mas haver uma parcela muito pequena que vai mal”, diz o professor Veli-Matti Harjula, da escola de ensino fundamental Merilahden, na zona leste de Helsinque, uma região com alta presença de imigrantes.

Os professores têm lugar de destaque na sociedade finlandesa. A carreira é valorizada e, para pisar numa sala de aula, é preciso ter mestrado. Em 2015, a taxa de aprovação nos cursos de formação de professores foi de 4,2%. Ou seja, lá é mais difícil ser professor primário do que ser médico, cujo índice de aprovação nas faculdades é de 8,8%. Embora não recebam salários extraordinários, os vencimentos mensais de 2 800 euros permitem uma confortável vida de classe média. “Existe uma grande confiança da sociedade nas escolas e nos professores. Ninguém duvida que o filho recebe a melhor educação possível”, diz Marita Mäkinen, vice-reitora da Faculdade- de Educação da Universidade de Tampere.

Com toda a atenção que o modelo finlandês vem atraindo, governo, universidades e iniciativa privada passaram a ver a educação como um produto de exportação a ser vendido para o mundo todo. Hoje, o país já contabiliza cerca de 200 milhões de euros por ano em receitas relacionadas a serviços educacionais, mas estimativas apontam que esse valor deve chegar a 1 bilhão de euros nos próximos anos. “A educação pode ser a nova Nokia da Finlândia”, diz Pekka Saavalainen, presidente da Universidade da Finlândia, um consórcio de três universidades federais que tem cursos reconhecidos na área de educação e de formação de professores, e está focado em vender serviços para outros países.

Desde junho, um grupo de 120 professores da Arábia Saudita vem fazendo treinamento em diferentes unidades do consórcio. Eles ficarão na Finlândia por seis meses. O contrato firmado com o governo da Arábia Saudita incluiu a vinda dos familiares dos professores, trazendo 400 pessoas para o país. Há basicamente dois modelos sendo testados. O de treinamento nas geladas terras finlandesas, como o que está sendo feito com os sauditas, e o de formação no país interessado.

O consórcio já tem acordo com 11 países, entre eles o Brasil. O grupo de ensino superior Anima, de Belo Horizonte, com 80.000 alunos, contratou a Universidade da Finlândia para dar treinamento a 40 professores brasileiros de diferentes áreas por um período de um ano, que envolve cursos online e três módulos de uma semana de aulas presenciais no Brasil. Duas educadoras finlandesas já vieram para a primeira rodada presencial por aqui. Foram investidos 500.000 reais no projeto. “Quando você tem como referência seu vizinho, o máximo que vai conseguir é ser o melhor do bairro. Por isso, precisamos olhar para os melhores do mundo”, diz Daniel Castanho, presidente da Anima Educação, que embarcou no final de outubro para uma visita à Finlândia. A ideia é renovar o contrato para uma nova turma de professores da Anima — no total, o grupo tem 3.500 docentes.

Castanho, porém, vê a possibilidade de usar a metodologia para dar treinamento a professores de fora da Anima e tenta amarrar uma parceria com os finlandeses. “Poderíamos criar uma plataforma de -treinamento para capacitar mais de 100.000 professores brasileiros.” Ideias como essa são exatamente o que os finlandeses querem ouvir. “As relações entre Brasil e Finlândia nunca foram tão fortes como são agora”, disse a EXAME a ministra da Educação e da Cultura Sanni Grahn Laasonen, que veio ao Brasil em 2016.

Alunos da Anima Educação: professores da Finlândia para treinar educadores brasileiros | Daniel Mansur/Divulgação

A marca Finlândia na área de educação tem sido explorada também pelas startups de tecnologia. Por muito tempo, a Nokia foi um dos símbolos da inovação industrial do país, mas a companhia entrou atrasada na onda de smartphones e perdeu relevância — ainda que tente agora se reerguer. No entanto, a empresa ajudou a formar uma mão de obra supercapacitada no setor de telecomunicações, e as novas gerações estão cada vez mais interessadas em empreender no país.

Estima-se que apenas em Helsinque estejam instaladas 500 startups que queiram ser como a Rovio, empresa finlandesa de games, dona do jogo Angry Birds. A Rovio acabou de abrir o capital e é avaliada em 1 bilhão de dólares. Parte das startups mira o gigantesco mercado global de educação, estimado em 6 trilhões de dólares ao ano, três vezes o que movimenta a informática no mundo. “Assim como o Vale do Silício, a Finlândia desenvolveu um ecossistema de educação com as melhores escolas, os melhores professores e as melhores práticas. É natural que as tecnologias inovadoras para o ensino também saiam daqui”, diz Antii Korhonen, um dos fundadores da aceleradora xEdu. Criada há dois anos, a xEdu tem 40 startups do setor de educação sendo preparadas para se transformar em grandes empresas. “As edutechs são as novas fintechs”, diz Korhonen, referindo-se às empresas financeiras, estrelas entre as startups.

Uma delas é a Seppo, plataforma de games voltada para a educação. A empresa foi criada em 2011 pelo professor de história Riku Alkio após uma excursão a Roma, na Itália, em que ele levou 24 alunos de 17 anos. Para tornar a viagem mais interessante, surgiu a ideia de fazer um jogo inspirado no popular reality show americano Amazing Race, em que os competidores solucionam desafios pelos locais onde passam. No jogo criado por Alkio, os alunos procuravam objetos de arte e identificavam estilos arquitetônicos nas igrejas romanas. “Mesmo após o fim das atividades escolares, os alunos queriam continuar jogando. Percebi que ali havia um negócio a ser desenvolvido.”

Hoje, a Seppo já é utilizada por mais de 200.000 estudantes de 1.000 escolas em 20 países, incluindo o Brasil. Aqui, a plataforma foi adotada pela faculdade Eniac, de Guarulhos, e já foi testada pelo Senai do Paraná, que negocia um contrato. O modelo é de assinatura por parte da escola, que paga de acordo com a estimativa de usuários. A conexão de cada estudante ao site custa, em média, 5 euros por ano. Na plataforma, há jogos prontos disponíveis — como o de biologia para ser utilizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo, onde alunos de 11 anos identificam sementes, árvores e animais — e opções para professores construírem jogos personalizados. Os finlandeses nunca imaginaram que a educação que tanto os orgulha pudesse chegar tão longe e alcançar tantas mentes. E, de quebra, render um bom dinheiro.