Di Genio, o último rei do ensino

Di Genio, dono do Objetivo, ergueu um dos maiores grupos de educação do mundo com seu jeitão todo particular. Por que ele quer um sócio?

São Paulo – Se há um grupo de empresas brasileiras que entrou para a elite mundial do capitalismo recentemente, esse é o time das redes de ensino privado. Depois de décadas de gestão familiar sem muitas ambições, essas empresas iniciaram nos últimos anos uma alucinante onda de fusões, aquisições e aberturas de capital. Duas empresas destacaram-se nessa fase.

A Kroton, após mais de 20 compras, virou o maior grupo de ensino privado do mundo, com valor de mercado de 28 bilhões de reais. A Estácio vale hoje 9 bilhões de reais. Em comum, além do apetite para aquisições, essas redes têm um controle difuso, com empreendedores dividindo as decisões no conselho de administração.

Mas uma empresa conseguiu figurar entre as maiores da educação sem se render às modernas práticas de gestão nem aos encantos do mercado financeiro: o paulistano Grupo Objetivo, dono da universidade Unip. Nos últimos anos, seu fundador, o paulista João Carlos Di Genio, rechaçou as mais variadas ofertas, seja de associação com fundos de investimento, seja de venda para a concorrência.

Parecia que o Objetivo ficaria para sempre na pré-história do capitalismo. Não foi sem surpresa, portanto, que concorrentes, investidores e consultores receberam a notícia antecipada pela última edição de EXAME — Di Genio está, finalmente, procurando alguém para dançar.

No início de novembro, Di Genio contratou o banco BTG Pactual para encontrar um sócio. Há alguns anos, ele havia escalado o banco Merrill ­Lynch para ouvir as propostas que não paravam de chegar — mas nunca quis fazer negócio. Segundo executivos próximos, agora é diferente.

Di Genio quer atrair um fundo de investimento ou um grupo de ensino disposto a comprar uma parcela da empresa e preparar o Objetivo para ir à bolsa. Pelas contas de seus assessores financeiros, a empresa vale 9 bilhões de reais — o equivalente ao valor de mercado da Estácio.

Detalhe: as escolas, os cursinhos pré-vestibular e o sistema de ensino da marca Objetivo, que atendem 400 000 estudantes de ensino básico e médio, ficariam de fora do negócio. Ainda assim, Di Genio tem a oferecer o maior império de educação superior de capital fechado do país. São 27 ­campi da Unip mais 28 faculdades de outras marcas e 598 polos de ensino a distância.

Somando tudo, o Grupo Objetivo tem 500 000 alunos na educação superior e fatura 2,5 bilhões de reais. “A Unip é líder em São Paulo, o maior mercado do país, e se posiciona no nicho mais rentável do mercado, entre as redes mais básicas e as mais caras, como PUC e Ibmec”, diz Romário Davel, consultor da Hoper Educação. Di Genio não deu entrevista.

Por trás da decisão de venda há um dilema. Aos 75 anos, Di Genio não tem um sucessor. Seus três filhos ainda não chegaram à adolescência. Seu sobrinho, Fernando Di Genio Barbosa, diretor do grupo, não é visto como candidato. Além dele, Di Genio tem um grupo de diretores que o acompanham há mais de 30 anos. Ele ainda toma sozinho todas as decisões importantes.

Funcionou por décadas desse jeito. Mas o custo desse jeitão particular de fazer as coisas está ficando cada vez maior. Enquanto a concorrência dispara na frente, a Unip permanece grande e poderosa, mas lenta e pouco eficiente. Di Genio não tem uma plataforma central de ensino nem um software integrado de gestão.

Isso acarreta custos maiores e dificulta o crescimento por aquisições. Enquanto a margem de lucro operacional da Unip está na casa dos 20%, segundo executivos próximos, na Kroton a margem chegou a 39% nos últimos 12 meses.

“O Di Genio sempre se orgulhou de ser o maior e de ditar as regras do setor. De uns anos para cá, ele perdeu a liderança e, pouco a pouco, tem perdido também a capacidade de influenciar o mercado”, diz um concorrente.

Di Genio é um dos pioneiros da educação privada no Brasil. Fundou o Objetivo em 1965, no centro de São Paulo, junto com três sócios — entre eles o médico Drauzio Varella. Começou com um curso pré-vestibular. Em 1970, abriu os primeiros colégios e, em 1972, a primeira faculdade.

Naquela época, o Brasil tinha dezenas de pequenas faculdades privadas — a maioria comandada por professores cheios de boa vontade, mas totalmente descapitalizados. Di Genio já tinha sua rede de colégios e cursinhos pré-vestibular em dezenas de cidades, muitos deles com sócios locais.

Isso lhe garantiu uma base de alunos e uma capacidade de investimento que seus concorrentes não tinham. Em 1988, criou sua universidade, a Unip, que hoje tem mais de 400 000 alunos. Nos anos 2000, abriu os primeiros polos de ensino a distância, aproveitando a experiência de outro braço de negócio — ele é dono de emissoras de rádio e de TV.

“Há décadas ele é o grande visionário desse setor”, diz o empresário Chaim Zaher, principal acionista individual da Estácio, que começou sua carreira no setor como franqueado do Objetivo em 1976.

Concorrentes e desafetos gostam de lembrar das amizades que Di Genio mantinha em Brasília que, segundo eles, lhe garantiam privilégios na aprovação de cursos e de novas unidades.

Ficou famosa na capital uma estrutura para festas que mantinha nos anos 80 e 90 em sua mansão — conhecida como Circo do Di Genio, palco de calorosas recepções das quais participavam deputados, ministros, senadores. Di Genio sempre negou qualquer tipo de favorecimento.

Mais recentemente, a Unip foi acusada de usar artifícios para aumentar as notas de seus cursos em exames de desempenho, como o Enade. Em 2012, a Universidade de Sorocaba denunciou a Unip por supostamente reprovar alunos medianos para impedi-los de participar do exame.

O objetivo era enviar para a prova apenas uns poucos bons alunos e, com isso, aparecer no topo dos rankings. Uma comissão de representantes do Ministério da Educação e do Inep, instituto de pesquisas educacionais, não encontrou nenhuma irregularidade e arquivou o processo.

Mais recentemente, em setembro, um grupo de oito estudantes de arquitetura de Campinas, no interior de São Paulo, entrou na Justiça para poder realizar o Enade depois de ser reprovado em duas disciplinas.

Na defesa dos alunos, seu advogado, Danilo Andrietta, anexou e-mails supostamente trocados por professores de uma unidade da Unip em Santos recomendando a reprovação intencional dos alunos. Os alunos de Campinas ganharam o direito de fazer o exame.

Com tudo isso na mesa, a Unip vale 9 bilhões de reais? Na última grande aquisição do setor, da universidade paulistana São Judas pela rede de ensino Anima, o preço pago por aluno foi de 12 400 reais — medida comum em educação, embora os valores oscilem em razão da margem de lucro, da localização e do crescimento das instituições.

Mas, como a São Judas atende um público semelhante ao da Unip, especialistas calculam que, com 500 000 alunos, a Unip e as demais faculdades de Di Genio valham cerca de 7,5 bilhões de reais. O que pode pesar negativamente na conta é uma estrutura societária pesada. Em algumas faculdades, Di Genio tem até 30 sócios.

Isso também está dificultando a migração da Unip e das demais faculdades de instituições sem fins lucrativos para com fins lucrativos — um passo fundamental para abrir o capital. Di Genio nunca recebeu dividendos no ensino superior, mas ganhou fortunas alugando seus imóveis para as escolas. Se tudo der certo, logo a fortuna crescerá bastante.