O robô virou médico

Cada vez mais as máquinas avançam para dentro do consultório e das salas de operação para aumentar a eficiência e a qualidade do atendimento na medicina

A organização mundial da saúde prevê, para 2020, um novo marco demográfico no planeta. O número de crianças com menos de 5 anos de idade será, pela primeira vez, menor do que o de adultos com mais de 60 anos. Com uma população cada vez mais ampla e sujeita a novos problemas de saúde, surge uma oportunidade para empresas de tecnologia na área médica. Empresas de todo o mundo estão de olho nisso, mesmo as que não têm tradição no setor.

Um exemplo é a Apple. O último modelo do relógio Apple Watch faz eletrocardiogramas e pode até detectar queda de idosos — coisas que nem o fundador Steve Jobs previa. De acordo com a consultoria Deloitte, o faturamento do mercado global de saúde chegará a 10 trilhões de dólares em 2022, um aumento de 23% em relação a 2018. A revolução tecnológica na área médica vai ainda mais fundo para tentar resolver problemas antigos, entre os quais a falta de profissionais dessa área, como médicos, especialistas e enfermeiros.

O déficit de profissionais deverá beirar os 13 milhões no mundo em 2035. Com isso, o setor requer mais eficiência e busca inspiração nas fábricas. A necessidade pavimenta o caminho para robôs em hospitais — de radiologistas a cirurgiões.

Quem lidera essa onda de mudanças é empresa americana Intuitive Surgical, a maior fabricante do setor. Ela é a criadora dos robôs da série Da Vinci, que fazem cirurgias de diversos tipos — de bariátricas a urológicas —, sempre sob o comando de um médico especializado. Desde que a Intuitive entrou na bolsa no ano 2000, suas ações valorizaram mais de 8 300%.

Os robôs são mais precisos do que humanos para fazer incisões delicadas e permitem uma recuperação pós-operatória mais acelerada. Para Alfonso Migliore, diretor-geral do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, um dos que usam os robôs Da Vinci no país, as operações feitas por máquinas trazem menos riscos aos pacientes. “O robô gera menos lesões durante a remoção da próstata, um dos casos mais comuns de uso. Com isso, há menos problemas de incontinência urinária e de impotência sexual”, diz Migliore.

Uma das rivais da Intuitive Surgical está surgindo no Japão. A startup Riverfield, de Tóquio, pretende lançar no ano que vem um robô-cirurgião chamado Emaro. Para isso, recebeu 12 milhões de dólares em investimentos. A farmacêutica Johnson & Johnson e a Alphabet, empresa dona do Google, também trabalham para a criação de robôs-cirurgiões em uma sociedade, a Verb Surgical. Segundo um levantamento da consultoria americana Pitchbook, feito a pedido de EXAME, os investimentos de capital de risco em startups de robótica para a área médica no mundo cresceram quase 900% de 2012 a 2018.

No ano passado, o valor chegou a 494 milhões de dólares, um recorde. O que atrai o olhar dos investidores é a eficácia das máquinas em cirurgias. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Yonsei, na Coreia do Sul, com base em mais de 10 000 cirurgias, mostra que problemas de funcionamento ou falhas nos robôs-cirurgiões da linha Da Vinci ocorreram em apenas 185 casos (1,8% do total). Já a taxa de mortalidade foi de apenas 12 (0,12% dos casos).

Ainda que seja líder, a Intuitive Surgical tem apenas 5 270 robôs em funcionamento no planeta. O número de vendas é pequeno porque o equipamento tem um preço alto: mais de 2 milhões de dólares, sem contar o kit de instrumentos adicionais.

Como no setor de impressoras, o ganho da empresa vem da venda de peças de reposição. O urologista Anuar Ibrahim Mitre, integrante do conselho consultivo do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, afirma que a cirurgia robótica é cara. “Não acredito que os hospitais tenham muito lucro com os robôs. Talvez haja até um grau de subsídio. Robô é sinônimo de alta tecnologia”, afirma Mitre. Um estudo feito por pesquisadores da Grécia e do Reino Unido mostra que as operações robóticas têm um custo de 10 000 a 210 000 reais.

Ainda assim, o mercado de robôs-médicos está em expansão. A previsão é que o faturamento anual do setor passe dos atuais 6,6 bilhões de dólares para quase 25 bilhões em 2025, segundo a consultoria Zion Market Research, especializada em tendências tecnológicas. Para Leonardo Giusti, líder da área de saúde e sócio da consultoria KPMG, a expansão global está ligada aos benefícios operacionais que os robôs trazem a pacientes e hospitais, como a possibilidade de recuperação mais rápida. “A robotização, antes restrita à indústria, chega à saúde por necessidade de assertividade e velocidade”, diz Giusti.

Robô Pepper, do SoftBank: ele fala e reconhece emoções | Francois Lenoir/Reuters

O Japão é um dos países que mais se preparam para lidar com o envelhecimento da população. Lá, uma em cada cinco pessoas tem mais de 70 anos. Não são só os robôs-cirurgiões que têm vez. A Panasonic testa uma cama hospitalar que se transforma em cadeira de rodas motorizada, evitando o trabalho de mover para uma cadeira o paciente que está deitado. O SoftBank tem um robô de atendimento chamado Pepper que pode interpretar emoções humanas. Ele é usado em casas de repouso para interagir com pacientes.

Já nos Estados Unidos a empresa suíça ABB faz um teste com robôs colaborativos em laboratórios médicos no campus de inovação do Texas Medical Center, em Houston. Eles vão catalogar documentos, montar kits de instrumentos esterilizados e preparar dosagens de remédios, como fazem enfermeiros e farmacêuticos. A expectativa é cortar pela metade as tarefas realizadas por humanos no laboratório. Há um uso parecido no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Com robôs para fazer a separação de remédios para pacientes internados, o número de funcionários no laboratório diminuiu 62% e as equipes foram transferidas para outras funções. O hospital também faz, há dez anos, cirurgias com robôs. Para Enrico De Vettori, diretor da divisão de saúde da Deloitte, ainda é preciso avançar na transformação digital de hospitais para que os robôs possam ser usados. “A substituição de enfermeiros, por exemplo, dependerá dos dados que os robôs conseguirão transmitir”, afirma De Vettori.

Uma dúvida ao falar sobre robôs na medicina é universal: eles vão substituir os humanos? Não nos próximos anos. Um hospital totalmente robotizado está longe da realidade. Peter Diamandis, médico, engenheiro e presidente da Singularity University, escola do Vale do Silício que ganhou fama com programas educacionais inovadores e uma incubadora de empresas, diz que, no futuro, os melhores cirurgiões serão robôs, mas isso levará mais de uma década para ocorrer. “A habilidade de aperfeiçoamento de um cirurgião é limitada. A robótica, a aprendizagem de máquina e a visão computacional se fundirão. Com isso, os melhores cirurgiões serão robôs e terão feito dezenas de milhares de operações”, afirma Diamandis.

Junto à eficiência, o avanço tecnológico deverá oferecer qualidade de vida e taxas de sobrevivência mais altas aos pacientes. A queda de preços e a popularização de robôs virão com o tempo e com a maior demanda. Enquanto esse futuro não chega, a chave é a colaboração entre o homem e a máquina, onde quer que estejam. Inclusive em centros cirúrgicos.