Seu Dinheiro — O risco na Bolsa aumentou. Não é só culpa dos caminhoneiros

A queda pode ter criado oportunidades, mas o risco de investir em ações agora é muito alto

Depois de cair 11% em duas semanas, o Ibovespa voltou ao patamar que estava no começo do ano, em torno de 77 000 pontos. Era esperado que este fosse um ano complicado para a bolsa, em razão da incerteza eleitoral e do aumento de juros nos Estados Unidos (o que costuma drenar recursos de mercados emergentes). Mas a piora das perspectivas para a economia — algo que vinha ocorrendo ao longo do ano e ganhou força depois da greve dos caminhoneiros — tornou o momento ainda mais difícil. “A queda pode ter criado oportunidades, mas o risco de investir em ações agora é muito alto”, diz Eduardo Levy, diretor da gestora Rio Bravo, que prefere aplicar em renda fixa, aproveitando o aumento dos juros de longo prazo. Para quem estiver disposto a enfrentar o risco da bolsa, os analistas recomendam as ações de produtoras de commodities, como a mineradora Vale e a metalúrgica Gerdau, que ganham com a valorização do dólar e com o aumento de preços de matérias-primas no exterior. Segundo um relatório do banco americano JP Morgan, trata-se de uma combinação incomum que permite aos exportadores ter um retorno melhor em reais. No acumulado do ano, o índice da bolsa brasileira que acompanha o desempenho dos papéis de companhias de commodities valorizou cerca de 30%. Entre as ações que caíram demais e ficaram baratas, os analistas citam as da varejista Lojas Renner e as da locadora de veículos Localiza. “São empresas com boa gestão, dominantes em seus setores e que ficaram mais baratas. Por isso, valem a pena”, diz Paulo Abreu, responsável pelos fundos de ações da gestora de fundos Pacífico.


PARA LEMBRAR

ECORODOVIAS

As ações da concessionária de rodovias EcoRodovias caíram cerca de 5% em meio à greve dos caminhoneiros. Uma das medidas tomadas pelo governo para encerrar os protestos foi isentar os caminhões vazios da cobrança de pedágio pelos eixos suspensos, o que pode reduzir suas receitas. Mas os analistas acreditam que, como os contratos de concessão costumam prever compensações quando ocorre alguma mudança desse tipo, o impacto será limitado.


ATENÇÃO

AMBEV

As ações da fabricante de bebidas Ambev caíram quase 6% neste ano. A queda se acentuou em maio, depois de a empresa ter divulgado um resultado pior do que o esperado no primeiro trimestre. Segundo a Ambev,

as vendas no Brasil diminuíram por causa do verão mais ameno. Apenas sete analistas sugerem comprar os papéis, entre os 16 que acompanham

a companhia, segundo a empresa de informações financeiras Thomson Reuters.


IMÓVEIS

UM MÊS RUIM PARA OS FUNDOS

Prédios em São Paulo: o índice que acompanha o desempenho dos fundos imobiliários caiu 6% desde abril | Germano Lüders

As ofertas de fundos imobiliários registradas em 2018 — que somam 5,4 bilhões de reais — já superaram o volume do ano passado inteiro. Mas a desvalorização dos fundos nas últimas semanas, motivada pela incerteza em relação ao futuro da economia, pode atrasar as novas emissões. O Ifix, índice que acompanha o desempenho dos fundos imobiliários listados na B3 (bolsa brasileira), recuou cerca de 6% desde o pico que atingiu em abril. Com isso, as cotas de alguns deles já estão valendo menos do que os preços previstos para as novas ofertas que eles pretendiam fazer. Esse é o caso de pelo menos cinco fundos, segundo Marcos Baroni, especialista em mercado imobiliário da empresa de análises financeiras Suno Research. Espera-se que os gestores adiem as ofertas para aguardar alguma valorização ou reduzam o preço das emissões.


AÇÕES GLOBAIS

MAIS INSTABILIDADE

Jerome Powell, do Fed: dúvidas sobre o ritmo da alta dos juros nos Estados Unidos | Deng Min/Getty Images

A volatilidade das principais bolsas de valores do mundo disparou em 2018. Um relatório do banco UBS mostra que as ações globais tiveram quedas diárias superiores a 1%, 11 vezes em cinco meses — durante todo o ano passado, foram apenas duas vezes. O levantamento tomou como base o índice MSCI ACWI, que engloba cerca de 2 500 ações de empresas de 47 países, incluindo as brasileiras Petrobras e Vale. “Não achamos que o ciclo de alta do mercado acabou. Mas é pouco provável que retornemos à era da baixa volatilidade”, diz Mark Haefele, diretor global de gestão de fortunas do UBS. Para ele, as dúvidas sobre o ritmo do aumento de juros, a ser decidido pelo Federal Reserve, o banco central americano, presidido por Jerome Powell, deve deixar os mercados mais instáveis.


ENTREVISTA

Os processos abertos na Comissão de Valores Mobiliários para investigar ofertas de investimento feitas de forma irregular triplicaram em dois anos. Em 2017, somaram 99. Wagner Souza, gerente de orientação aos investidores da CVM, diz quais são os golpes mais comuns.

Que denúncias a CVM recebe com mais frequência?

No passado, os problemas mais comuns eram relacionados aos intermediários, como as corretoras. Os investidores reclamavam que eles haviam feito operações não autorizadas. Isso mudou depois de 2011, quando a regulação obrigou que todas as ordens dos investidores sejam registradas. Em 2017, as denúncias de ofertas irregulares de investimentos ficaram mais frequentes.

Por quê?

Com as redes sociais, ficou fácil disseminar golpes como as pirâmides financeiras, que são os mais numerosos entre os que chamamos de “ofertas irregulares”. As pessoas são atraídas pela promessa de alta rentabilidade num prazo curto e sem risco. Já recebemos dúvidas de investidores sobre propagandas de investimentos que prometiam um retorno de 50% em dez dias úteis, o que é um absurdo. Os estelionatários também se aproveitam de assuntos que estejam em evidência, como o bitcoin, para aplicar novos golpes.

Qual é o problema do bitcoin?

Há pessoas vendendo participações em empresas de mineração de moedas virtuais que não existem. Para evitar cair nesses golpes, é essencial se informar sobre quem está oferecendo o investimento. E ter bom senso.


TÍTULOS PÚBLICOS

A VOLATILIDADE CRESCEU, O RETORNO TAMBÉM

Os interessados em comprar títulos públicos tiveram um incentivo adicional em maio. Depois que o Banco Central manteve os juros em 6,5% ao ano — quando a aposta da maioria dos analistas era que haveria uma nova queda, para 6,25% —, o retorno oferecido pelos papéis voltou a subir. Com a instabilidade causada pela greve dos caminhoneiros, as taxas aumentaram ainda mais. É possível encontrar títulos com vencimento em 2025 pagando juros de cerca de 12% ao ano. Os papéis atrelados à inflação oferecem retornos de quase 6% mais a variação do IPCA. O problema tem sido aproveitar a oportunidade. Por causa da volatilidade das taxas, o sistema do Tesouro Direto foi suspenso 11 vezes no último mês. Além disso, quem já tinha títulos públicos sentiu um solavanco na carteira. Se os juros sobem, o valor dos papéis antigos — que oferecem taxas menores — diminui. A desvalorização de alguns papéis passou de 5% em maio. Mas só tem prejuízo quem vender seus títulos antes do vencimento: mantendo até o fim, recebe a rentabilidade determinada na compra.

Toque para ampliar.
Toque para ampliar.