J.R. Guzzo: No Brasil, o que não mata engorda

Até pouco tempo atrás, analistas decretavam que o mandato de Temer estaria próximo do fim. O governo do presidente, porém, parece cada dia mais robusto

Era comum, até pouco tempo atrás, ouvir que o governo Michel Temer teria só mais uns 15 dias de vida, e olhe lá. “Desta vez”, garantiam os analistas políticos, os cientistas sociais e os meios de comunicação, não vai dar: Temer não existe mais. Como o presidente continuava existindo, anunciava-se que da próxima ele não passaria. Por alguma razão qualquer, Temer permanecia vivo no dia seguinte ao que fora marcado para seu novo óbito — e assim foi acontecendo, sucessivamente, cada vez que as fontes geralmente bem informadas decretavam que ele estaria à beira da morte. Davam o homem por desenganado, chamavam o padre para a extrema-unção, preparavam o velório — e nada. Com o tempo, acabou cansando. Já não se fala mais, agora, que Temer vai cair no dia seguinte. Também pararam as divagações a respeito de como seria a futura presidência do deputado Rodrigo Maia ou, imaginem só, da ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal. Hoje, embora muito pouca gente diga isso em público, já se dá como “cenário provável” que Temer deixará a Presidência da República no dia 31 de dezembro de 2018.

Pode ser chato, mas o que se vai fazer? As coisas, às vezes, não saem como os comunicadores, os formadores de opinião e os influenciadores digitais querem que elas saiam. O governo Temer, é verdade, está morto moralmente, e morto há bom tempo — desde que se comprovou que o presidente da República se reunia no fundo da noite, em seu próprio palácio, com um escroque confesso e bilionário que hoje está na cadeia. Falaram do quê? Por quê? Para quê? Eis um mistério que ficará oculto para sempre, como o segredo da tumba do faraó. Mas aí é que está: o governo está morto só moralmente, e no Brasil ninguém morre só de moral. Isso aqui não é nenhum Japão, onde o ministro faz haraquiri em público quando é pego roubando um lápis de cor. Estamos no Brasil, e no Brasil o sujeito morto moralmente está mais do que vivo em todo o resto — com o Diário Oficial, os cargos comissionados e a chave do Tesouro Nacional à sua disposição. Aqui, como diz a sabedoria popular, “o que não mata engorda”. O governo Temer, por via de consequência, parece a cada dia mais robusto, corado e gordinho. Não conseguiram matar o homem? Pois ele engordou.

A questão não se resume à sua permanência no cargo. Sem barulho, e muito menos comemoração, Temer foi aprovando reformas que ninguém antes dele conseguiu aprovar — reformas modestas, insuficientes, limitadas por concessões aos políticos, mal armadas, mas consideradas 100% impossíveis de serem obtidas a cada votação no Congresso. Estão aí as mudanças nas leis trabalhistas, desidratadas mas em vigor. Estão de pé outras reformas bem menos faladas, mas capazes de gerar consequências relevantes para melhorar o funcionamento das atividades de produção. Os juros caíram. A inflação caiu. O desemprego caiu. A recessão calamitosa criada por Dilma Rousseff, com todas as suas misérias, foi superada. A produção industrial teve um crescimento superior a 5% em outubro, em relação ao mesmo mês de 2016 — o melhor resultado em quatro anos. Fala-se, até, na aprovação da reforma da Previdência — que, como se sabe, seria uma impossibilidade científica, capaz de mergulhar o país numa greve geral perpétua ou nos levar à guerra civil. Para completar, Michel Temer, ninguém menos que Michel Temer em carne e osso, começou a aparecer na imprensa como um possível candidato à Presidência da República em 2018. Alô? Como? O quê? Isso mesmo: candidato a suceder a si próprio, pelo que anda se escrevendo por aí.

A vontade é de soltar uma gargalhada. Mas esperem um pouco: Temer não estava morto e enterrado até outro dia? Justamente: estava. Por motivos acima do entendimento do mundo político, tal como ele aparece na mídia, não está mais. A cada dia haverá mais gente buscando seu apoio — porque ele sobreviveu, e sobrevivendo continuou no governo. Faz uma tremenda diferença em sua popularidade entre políticos e candidatos em geral.