“O que me move é a conquista”, declara Warren Buffett

O lendário investidor americano Warren Buffett fala sobre o que o motiva a continuar a investir aos 82 anos e sobre seu mais novo sócio, o brasileiro Jorge Paulo Lemann

São Paulo – O maior investidor de todos os tempos dá expediente há cinco décadas no mesmo prédio cinza e sem graça na cidade de Omaha, no estado americano de Nebraska. Aos 82 anos, Warren Buf­fett, fundador da holding Berkshire Hathaway, dono de uma fortuna de mais de 53 bilhões de dólares, não pensa em se aposentar.

Numa tacada recente, ele comprou, em fevereiro, a fabricante de alimentos Heinz, junto com o fundo 3G Capital, dos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira — donos também da AB InBev, maior cervejaria do mundo, e da rede de lanchonetes Burger King. Em Omaha, Buffett falou à jornalista Cristiane Correa, autora do recém-lançado livro Sonho Grande, sobre Lemann e seus sócios, publicado pela editora Sextante.

EXAME – O senhor é o quarto homem mais rico do mundo e dá expediente todos os dias. Quando o trabalho deixa de ser sobre dinheiro?

Warren Buf­fett – Nunca é sobre dinheiro. É sobre querer fazer uma coisa bem, e isso não acaba nunca. Essa é a graça do jogo. Não se trata de pensar: “Se eu ganhar 1 milhão de dólares ou 1 bilhão de dólares, o jogo acabou”. Até porque, a partir de um determinado ponto, o dinheiro não tem mais utilidade. O que me move é a conquista. Venho ao escritório quase todos os sábados. Sou muito feliz aqui. 

EXAME – O senhor falou em felicidade no trabalho. O que é intolerável num ambiente profissional?

Warren Buf­fett – Quero pessoas legais ao meu redor. O escritório funcionaria com gente desagradável? Acho que não. Tivemos alguém assim há uns 20 anos e comprometeu a produtividade de todos. 

EXAME – Trabalhar na Berkshire é um sonho para milhares de pessoas do setor financeiro. Como é uma entrevista de emprego com o senhor?

Warren Buf­fett – A Tracy Britt (uma das principais executivas da Berkshire) me trouxe milho e tomates em sua entrevista. Ela cresceu numa fazenda e sabia que eu gostava de milho. Ouço sobre coisas diferentes que empresas como o ­Go­ogle fazem, mas não sou assim. Estou mais preocupado com o jeito das pessoas do que com o currículo delas. É um pouco como um casamento. Às vezes, as pessoas erram na escolha.

EXAME – O senhor está com 82 anos de idade e tem sido insistentemente perguntado sobre quem vai sucedê-lo. Como se prepara um sucessor — e ainda mais um sucessor para Warren Buffett?

Warren Buf­fett – Não dá. Você tem de achar alguém já preparado. Por uma razão simples: não há como ensinar a fazer o que faço.  


EXAME – Há décadas Charlie Munger é seu sócio. Lemann, Telles e Sicupira estão juntos há quase 40 anos. Como ter sociedades tão longevas?

Warren Buf­fett – Não se deve competir com seu sócio. A ideia de que um tem de ganhar não funciona em nenhuma relação, seja uma sociedade, seja um casamento. Para alguns, a graça é aparecer. É o oposto, por exemplo, de Jorge Paulo Lemann.

EXAME – Qual foi sua primeira impressão ao conhecer Lemann?

Warren Buf­fett – Não sabia nada sobre ele. Nos víamos a cada dois ou três meses (no con­selho da antiga Gillette, nos anos 90). Notei que ele não fingia saber o que não sabia, não falava para ouvir a própria voz. Tinha uma tremenda visão de negócios.

EXAME – O senhor sabia algo sobre o Brasil antes de conhecê-lo?

Warren Buf­fett – Não. Até hoje sei pouco. Não viajo muito. Só estive abaixo da linha do Equador uma vez, para uma festa do meu amigo Bill Gates. Nunca estive na Rússia. Fui ao Japão e à Índia uma vez. À China, três. O Brasil é um lugar lógico para investir. É grande, tem empresas de porte. Tracy, nossa viajante profissional, já esteve duas vezes no Brasil nos últimos dois anos. Na última, visitou empresas do ramo de saúde. 

EXAME – Qual o tamanho de uma companhia para despertar sua atenção? 

Warren Buf­fett – Para nos parecer interessante, uma empresa deve ser grande. Quão grande? Depende de minha situação financeira no momento. Hoje seria perto de 20 bilhões de dólares. Em 2009, compramos a ferrovia Burlington Northern Santa Fe por 34 bilhões de dólares. Não tínhamos todo o dinheiro e pagamos uma parte em ações. Mas não gosto de usar ações.

EXAME – Lemann o consulta antes de fechar um negócio?

Warren Buf­fett – No caso da Burger King isso aconteceu, mas não é algo que espero que ele faça. No caso da Anheuser-Busch, fui surpreendido. Imaginava que ele faria aquilo, mas não num período hostil. Achei até que o negócio não sairia. Foi a única transação daquele tamanho naquele período. Brasileiros comprando um ícone americano? Quem diria…

EXAME – Quando Lemann comprou a Anheuser-Busch, em 2008, houve muita especulação para saber quem o senhor apoiaria, como um dos maiores acionistas da empresa. Como isso se deu nos bastidores? 

Warren Buf­fett – Alguns conselheiros tentaram fazer coisas bem antieconômicas para bloquear o que chamavam de invasores. Minha decisão foi avaliar se as ações subiriam ou não e se o negócio seria fechado apesar da crise global. Vendi parte das ações e isso chateou alguns. Não sabia a dinâmica do conselho da AB. Encontrei August Busch IV, então CEO da AB, uma única vez num jogo de beisebol. Tinha falado com August Busch III uns 15 anos antes. Nunca me aproximei deles. Tínhamos um investimento grande lá, mas não como na Coca-Cola, por exemplo.


EXAME – Lemann lhe disse que queria ter a maior cervejaria do mundo?

Warren Buf­fett – Não. Nunca o vi contar vantagem. Ao contrário. Ele sempre minimiza o que faz — e essa é uma das razões pelas quais gosto dele.

EXAME – Na sua opinião, qual o principal traço da cultura que ele criou?

Warren Buf­fett – Ele e seu grupo são extremamente focados. Nunca são complacentes. Querem levantar toda manhã e fazer melhor que no dia anterior. O que estão fazendo na Anheuser-Busch é impressionante. Eis uma companhia que está aí há muito tempo, com enorme sucesso. Ainda assim, a operação hoje é muito melhor que cinco anos atrás. E Lemann diz que há mais a fazer.

EXAME – Quais os maiores erros que o senhor cometeu na carreira?

Warren Buf­fett – Sempre haverá erros. A pergunta é como resolvê-los. Seria melhor acertar sempre, mas é impossível. Mas o erro não pode colocar tudo em risco. Ter dez iniciativas e errar em quatro não é errar.

EXAME – Qual é seu sonho hoje?

Warren Buf­fett – Meus sonhos envolvem basicamente a Berkshire, além de não envelhecer (risos). Isso aqui é minha pintura e quero que esteja mais bonita em cinco ou dez anos.