É melhor distribuir dividendos ou garantir investimentos?

Uma pesquisa inédita mostra quais empresas brasileiras mais pagaram dividendos a seus acionistas no ano passado — e as que foram obrigadas a fechar a torneira

São Paulo – Em países com mercados de capitais maduros, é comum que os investidores pressionem empresas rentáveis a distribuir parte do lucro a seus acionistas. Nos Estados Unidos, a fabricante de eletroeletrônicos Apple cedeu à pressão e, há dois anos, anunciou que pagaria dividendos pela primeira vez desde 1995.

Como tem um volume impressionante de recursos em caixa — quase 160 bilhões de dólares, mais que o dobro do valor de mercado da mineradora Vale —, a companhia rapidamente se transformou numa das maiores pagadoras de dividendos do mundo.

Até 2015, o plano é distribuir 100 bilhões de dólares aos acionistas. Mas há empresas que não estão nem aí para dividendos, mesmo sendo constantemente questionadas pelos investidores.

É o caso da Berkshire Hathaway, empresa de investimento do bilionário Warren Buffett. Ele costuma dizer que tem bons planos para os recursos que tem em caixa, cerca de 40 bilhões de dólares — e que esse dinheiro vai render mais se ele mesmo investi-lo. 

Que companhia está certa? Provavelmente as duas. Segundo especialistas em mercado de capitais, o melhor que as empresas podem fazer é ter uma política clara de distribuição de dividendos — e informar aos acionistas valores aproximados de quanto pretendem pagar.

Se têm um plano agressivo de investimentos, provavelmente terão de usar parte do lucro para isso. “As companhias devem equilibrar a demanda dos investidores com a necessidade de crescer”, afirma Emilio Carazzai, conselheiro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Um levantamento feito, a pedido de EXAME, pela empresa de informações financeiras Economatica mostra que, no Brasil, as companhias abertas que mais distribuíram dividendos em 2013 seguem essa recomendação. 

A primeira desse ranking é a Multiplus, administradora de programas de fidelidade controlada pela companhia aérea TAM. Como não tem necessidade de fazer grandes investimentos e gera caixa — em 2013, sua geração de caixa foi de 285 milhões de reais, 18% maior que a do ano anterior —, a Multiplus pagou o equivalente a 151% de seu patrimônio na forma de dividendos no ano passado.

Do lucro total de 2013, quase 100% foi distribuído aos acionistas (a lei brasileira estabelece um limite mínimo de 25%). “Essa é uma prática bem recebida pelo mercado, que nos ajuda a atrair investidores”, diz Jaime Rebelo, diretor financeiro da Multiplus. Ser bem-vista pelos investidores é uma vantagem para as empresas que querem voltar a captar recursos na bolsa, fazendo novas ofertas de ações.

Uma companhia que vem conseguindo pagar dividendos elevados mesmo tendo de fazer investimentos é a processadora de operações com cartões Cielo. Seu estatuto fixa em 50% a fatia do lucro anual a ser distribuída aos acionistas, mas, na prática, esse percentual chega a 70%.

Isso ocorre, segundo os analistas, porque a margem de lucro da companhia é elevada, de cerca de 40%, o que permite que haja recursos para os dois objetivos. No ano passado, a Cielo investiu 2 bilhões de reais, principalmente no credenciamento de novos estabelecimentos comerciais que passaram a receber pagamentos com cartões, e distribuiu 1,7 bilhão de reais aos acionistas.

A fabricante de cigarros Souza Cruz, terceira colocada no ranking da Economatica, paga tradicionalmente dividendos elevados —que podem chegar a 100% do lucro. Como a venda de cigarros tem caído, a empresa investe e cresce pouco (suas­ receitas aumentam basicamente em razão do reajuste do preço). 

Ao todo, as empresas abertas distribuíram 92 bilhões de reais em dividendos em 2013, valor 7% superior ao do ano anterior. O setor elétrico é o que, na média, faz os pagamentos mais generosos. Essas empresas têm receitas estáveis e, na maioria dos casos, pouca necessidade de fazer grandes investimentos.

AES Tietê e Cemig estão entre as empresas que mais distribuíram dividendos em relação ao patrimônio em 2013 (e a Cemig foi a que mais aumentou os pagamentos). Mas há uma distorção nesse setor: a Eletrobras.

Embora tenha tido prejuí­zo em 2012 e 2013, a empresa aparece no topo de um ranking que analisa o valor dos dividendos em relação ao preço das ações, também elaborado pela Economatica. “Não faz sentido. A companhia deveria reter caixa para fazer frente às suas necessidades financeiras”, diz Flávio Conde, analista-chefe da corretora Gradual.

Procurada, a Eletrobras encaminhou trechos de uma nota publicada em seu balanço: “A administração entende que, em face à existência de reserva de lucros que excede à absorção dos prejuízos do exercício, deve realizar o pagamento dos dividendos mínimos previstos no artigo 8o do Estatuto Social”.

É comum que empresas que passam por dificuldades financeiras ou por mudanças de estratégia façam revisões em sua política de dividendos. Foi o que aconteceu com a companhia de telefonia Oi de 2012 a 2013: a empresa tinha dívidas elevadas e alta necessidade de investimento e, ainda assim, era bastante generosa com os acionistas.

Em 2013, distribuiu 1,3 bilhão de reais, 71% do lucro. A política mudou depois da fusão com a Portugal Telecom, que já era acionista da Oi, no fim do ano passado: o total a ser pago aos investidores até 2016 foi reduzido de 2 bilhões para 500 milhões de reais por ano.

“Para o investidor, é importante analisar a situação das empresas que pagam dividendos elevados. Se a estratégia mudar ou houver algo errado com a operação, o valor pode ser reduzido”, diz Victor Martins, analista da corretora Planner.

Para os analistas, esse é o caso do banco Santander, que pagou 8 bilhões de reais aos acionistas no ano passado, um recorde. Mas 75% desse valor são relativos a uma distribuição extraordinária de recursos em caixa, o que não deve se repetir. Com razão, o investidor gosta de empresas generosas — mas é fundamental que a generosidade dure mais que um ano.