Turismo — O que é que Salvador tem?

A capital baiana se renova com a construção de hotéis em prédios históricos, restaurantes de comida contemporânea e bares de coquetelaria

Ambientada em Salvador, Segundo Sol bem que tentou. Empenhada em retratar a capital baiana como uma cidade cosmopolita e conservada, a última novela das 9 da Globo esmerou-se na pós-produção das infindáveis tomadas aéreas para disfarçar os carcomidos edifícios que marcam o entorno do Elevador Lacerda. Mas a verdade é que eles continuam lá, esmaecidos pelo tempo, muitos inabitados, e que a primeira capital do Brasil, prestes a completar 470 anos, ainda tem um hercúleo trabalho pela frente para repaginar suas áreas degradadas.

A boa notícia é que novos atrativos têm despontado no horizonte. Somados à revitalização do Pelourinho, que enfim restaurou a extraordinária Igreja do Passo, entre outras joias arquitetônicas do século 18, prometem rejuvenescer a cidade que ainda abriga nosso maior Carnaval de rua (no ano passado, 15 milhões de foliões aglomeraram-se em Salvador, ante 9 milhões em São Paulo e 6 milhões no Rio de Janeiro).   

A novidade mais recente rouba a cena na Praça Castro Alves, perto da saída superior do Elevador Lacerda. Trata-se da antiga sede do jornal A Tarde, um edifício de 11 andares e estilo art déco que foi inaugurado em 1930 e, na última década, restaurado sob a supervisão do arquiteto paulistano Isay Weinfeld. A fachada, revestida de argamassa misturada a pó de pedra, ganhou toldos vermelhos que poupam do sol as janelas, antirruído, de madeira. Iluminado por lâmpadas bem amarelas, o letreiro informa que o novo inquilino é o Fasano.

Quem entra no lobby do sétimo hotel do grupo — o próximo será em Trancoso, prometido para o segundo semestre — depara com o mesmo piso de mármore de Carrara e as paredes adornadas com granito verde da época do jornal, que ali se manteve por 45 anos. A porta à direita dá acesso à recepção, com sofás azuis e paredes revestidas de madeira, e a da esquerda revela uma filial do restaurante que dá nome ao grupo e é encabeçado pelo restaurateur Rogério Fasano.

Parece ser o ambiente no qual Isay mais se esmerou. As paredes foram cobertas com fibra de bananeira e enfeitadas com obras de arte garimpadas em ateliês locais. Recipientes de latão originalmente usados na produção de açúcar foram transformados nos majestosos lustres do bar. Predominantemente italiano, o cardápio abre espaço para alguns pratos regionais assinados pela chef Tereza Paim, uma das maiores autoridades em comida baiana.

Sorvete de carvão com creme de limão, do Origem: reinvenção de sabores locais | Tomas Rangel

Inaugurado em dezembro, o hotel estava em obras desde 2014. A demora se deve ao tombamento da fachada e de alguns ambientes pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. “Vigas e pilares precisaram ser reforçados, o que tornou o trabalho ainda mais minucioso”, lembra Constantino Bittencourt, sócio-diretor do Fasano. Com a mesmerizante Baía de Todos os Santos como pano de fundo, a cobertura abriga uma das piscinas mais convidativas do grupo. As diárias partem de 1.050 reais. 

Outro alento para a hotelaria soteropolitana, que teve 21 baixas nos últimos quatro anos, o Fera Palace Hotel abriu as portas em 2017. Fica na mesma rua do Fasano e ocupa o edifício de 1934 que abrigou o Palace Hotel, tido como o primeiro do gênero no estado a merecer a alcunha de luxuoso. Com arquitetura triangular similar à do icônico Flatiron Building, de Nova York, foi revitalizado por iniciativa do empreendedor mineiro Antonio Mazzafera. Coube ao arquiteto dinamarquês Adam Kurdahl, do escritório Spol Architects, a intrincada reforma do edifício, que incluiu a recuperação da fachada original, da escada principal, de mármore, e de mais de 280 adornos art déco. Também localizada na cobertura, a piscina ombreia com a do Fasano. As diárias são bem parecidas.

Ainda no Pelourinho, a Casa do Carnaval da Bahia virou escala imperiosa mesmo para quem não se imagina dentro de um abadá sacolejando pela cidade ao som de axé e companhia. Aberto em fevereiro de 2018, o memorial tem curadoria do cenógrafo Gringo Cardia, que caprichou na seleção de itens v-isuais, e presta um tardio tributo à folia local. Explica, de maneira didática e surpreendentemente não laudatória, como Salvador acabou virando sinônimo de festa — com as devidas homenagens, claro, a Dodô e Osmar, Luiz Caldas, à turma do Timbalada e demais figuras-chave.

Gabriel Guerra, dono do LariBar | Ligia Skowronski
O restaurante Mistura Contorno: contemporâneos | Ligia Skowronski

O empreendimento Cloc Marina Residence, no Largo 2 de Julho, é mais uma novidade que poupou do abandono uma construção histórica. Foi erguido a partir do casarão que abrigou nos anos 70 a conhecida Boate Cloc. As arcadas de tijolo que dividem o salão do Mistura Contorno, principal chamariz do complexo, datam do século 19. Aberto há três anos, o restaurante de peixes e frutos do mar é uma filial bem mais sofisticada do Mistura, que a chef Andréa Ribeiro mantém em Itapuã há 27 anos. Do teto pendem lustres de cristal Baccarat e as mesas sustentam toalhas de linho e talheres italianos. Um janelão de vidro escancara a vista da Baía de Todos-os-Santos.

O posto de chef baiano do momento pertence a Fabrício Lemos. Determinado a reinventar a culinária local, ele abriu há três anos o contemporâneo Origem, no qual trabalha só com menu-degustação, com 14 etapas. Um shot de cachaça incrementada com alguma fruta da época, como caju e jenipapo, costuma abrir a refeição. Na sequência pode vir o abarajé, um abará frito depois de empanado, e terminar com um sorvete de carvão com creme de limão. “Não sou contra o acarajé ou as roskas, como chamamos as caipiroskas, mas chegou a hora de Salvador reinventar seus sabores”, diz Lemos, que abriu o segundo restaurante em dezembro. Trata-se do Ori, no Horto, especializado em snacks requintados.

E ainda há boas novas etílicas, a exemplo do intimista LarriBar, em Garcia, especializado em drinques e em atividade desde 2017. Desmembrado do restaurante vizinho Larriquerrí, resume-se a um balcão de cimento que serpenteia por boa parte do acanhado salão. Quem faz as vezes de mixologista é o proprietário, Gabriel Guerra, de 31 anos, formado em artes visuais. Ele faz questão de produzir o próprio gelo, cristalino, moldado num recém-adquirido ice ball maker, vários dos bitters e tanto o molho inglês quanto o suco de tomate que vão no bloody mary. “Até há pouco, ninguém dava bola para a coquetelaria aqui”, diz Guerra. “Hoje, todos parecem ávidos por novidades.”