O que a Irlanda fez para se tornar a economia que mais cresce na Europa

O país investiu em educação e passou a incentivar as pequenas e médias empresas a criar produtos inovadores. Hoje é um centro global de tecnologia

Quase na fronteira com a Irlanda do Norte, a cidade de Monaghan, a 130 quilômetros da capital, Dublin, preserva as características típicas de uma vila do interior da Irlanda. No centro, há uma igreja gótica com uma alta torre de pedra que pode ser vista da estrada. As ruas são estreitas, e as casas, de até dois andares, têm fachada de pedra ou de tinta branca. A cidade é a maior da região, mas a população é de cerca de apenas 8.000 habitantes. Sua economia depende da criação de gado e ovelhas e de produtos agrícolas, como cogumelos — a maior parte da produção é exportada. Não fosse por outro fator, a cidadezinha não teria nada muito especial. Nos arredores, foi inaugurada em abril a maior instalação industrial da Irlanda: um galpão de 46.500 metros quadrados onde são fabricadas as máquinas empilhadeiras da empresa Combilift.

Fundada em 1998 por dois empreendedores locais, Martin McVicar e Robert Moffett, a empresa fez sucesso depois de desenvolver uma empilhadeira que se move em quatro sentidos (uma engrenagem muda o eixo das suas rodas, algo que nenhuma outra fabricante oferece). Hoje a companhia vende desde pequenas empilhadeiras, manuseadas por pessoas de pé, até grandes máquinas para levantar contêineres. O negócio passou aperto na crise de 2008, mas as vendas agora crescem em ritmo acelerado. Em 2017, a Combilift faturou 230 milhões de euros (970 milhões de reais) e o objetivo é dobrar o valor em cinco anos com a nova fábrica, onde trabalham 550 funcionários.

A empresa de Monaghan é a 13a maior fabricante de empilhadeiras do mundo (98% das vendas vão para o exterior) e concorre com gigantes como as japonesas Toyota e Mitsubishi e a sul-coreana Hyundai. Os bons resultados têm a ver com uma escolha: foco em inovação. A Combilift investe 7% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias (a Apple, por exemplo, investe 4%). “Temos mais de 200 concorrentes. É um mercado saturado. A alternativa para competir é oferecendo produtos únicos”, disse Martin McVicar a EXAME, numa conversa na cafeteria da nova fábrica.

O caso da Combilift não é isolado: simboliza o que ocorre na Irlanda de forma disseminada. Cada vez mais as pequenas e médias empresas irlandesas têm investido em pesquisa e desenvolvimento para criar produtos diferentes da média do mercado. Num estudo elaborado pela Comissão Europeia (braço executivo da União Europeia), a Irlanda desponta como o país com as pequenas e médias empresas mais inovadoras da União Europeia. Em outras pesquisas, a Irlanda também se sai bem. É o décimo país mais inovador do mundo, segundo o Índice Global de Inovação, elaborado pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e pela escola de negócios francesa Insead. Os irlandeses se destacam na eficiência dos investimentos em ciência e tecnologia. Nesse quesito, o país fica em segundo lugar entre 127 nações analisadas (a China é líder e o Brasil está em 106o). A Irlanda fica ainda ao lado das economias mais ricas nos índices de competitividade e de facilidade para fazer negócio.

A situação atual contrasta com o passado recente da Irlanda. Nos anos 80, o país era chamado de “o mais pobre do mundo rico”. A Irlanda fez parte do Reino Unido até 1922, mas, apesar da proximidade com o berço da Revolução Industrial, nunca teve uma indústria de fato. Até 1960, sua economia era agrária e dependia das exportações de carne e leite para o vizinho. O perfil começou a mudar só nos anos 60, quando o governo estabeleceu um plano para melhorar a educação depois de enfrentar uma grave crise econômica. O primeiro passo foi tornar gratuitas as escolas e universidades, que antes eram pagas. A estratégia ganhou força, com investimentos constantes para melhorar a qualidade do ensino. Até então, apenas 2% dos estudantes cursavam o ensino superior. Hoje são 50%.

Fábrica de empilhadeiras da Combilift, na cidade de Monaghan: a inovação é fundamental para competir em escala mundial | Filipe Serrano

Logo a economia começou a deslanchar. Em 1987, o centro financeiro de Dublin ganhou status de zona econômica especial, onde as empresas pagam um baixo imposto de 10% sobre os lucros. A política atraiu investimentos. Entre 1995 e 2000, a economia irlandesa cresceu, em média, 9,5% ao ano, e o país ganhou o apelido de “Tigre Celta”, em referência aos Tigres Asiáticos (Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan). “Por causa dos investimentos em educação, nos anos 90, a Irlanda tinha um exército de pessoas bem capacitadas e o custo da mão de obra era baixo, se comparado ao restante da Europa. Isso levou a um forte crescimento econômico”, diz Philip O’Sullivan, economista-chefe do banco de investimento Investec, um dos maiores do país. Hoje, a Irlanda tem o segundo maior PIB per capita da União Europeia em paridade de poder de compra (69 900 dólares, sete vezes o do Brasil), ficando atrás somente de Luxemburgo. Desde 2011, a economia irlandesa é a que mais cresce na zona do euro. Em 2017, o avanço foi de 7,8%.

A Irlanda tem conseguido esses resultados também graças a uma sólida política de inovação que já dura décadas. A estratégia é baseada em três pilares: atrair investimentos estrangeiros, apoiar empreendedores locais na inovação e financiar projetos de pesquisa em universidades e centros tecnológicos. Cada um desses vetores é de responsabilidade de uma agência do governo. Uma delas é a Autoridade de Desenvolvimento Industrial, cuja função é trazer empresas estrangeiras para o país. Fundada em 1949, é um dos órgãos mais importantes do governo irlandês. Para ter ideia, a agência é uma das maiores proprietárias de imóveis comerciais, avaliados em 450 milhões de euros. O modelo de trabalho é o seguinte: a agência compra terrenos — geralmente em cidades menos desenvolvidas —, prepara os projetos e busca empresas interessadas em se estabelecer. Setores de alta tecnologia, como biofarmacêutico, equipamentos médicos, serviços financeiros, software e eletrônico são prioridade. Foi assim que a agência convenceu a empresa de tecnologia Apple a abrir um escritório em Cork, cidade de 120 000 habitantes no sul do país, ainda nos anos 80. Atualmente, a Apple emprega 6 000 pessoas no local. “Nossos impostos ajudam, mas o que faz as empresas continuarem investindo na Irlanda é a força de trabalho altamente qualificada”, diz Heather Humphreys, ministra de Negócios e Inovação, pasta que supervisiona a agência. O dinheiro obtido com os aluguéis e com as vendas de imóveis custeia a Autoridade de Desenvolvimento Industrial. Se o retorno for maior do que os gastos, o dinheiro volta para o Tesouro. Em 2016, a agência transferiu 300 000 euros para o governo.

Com bons níveis de educação e de investimentos de multinacionais, a Irlanda tornou-se um dos mais importantes centros de tecnologia do mundo. Na capital,  Dublin, de 1,1 milhão de habitantes, fica um dos maiores escritórios do Google fora dos Estados Unidos, onde trabalham 7 000 funcionários. Ao todo, as empresas estrangeiras empregam 210 000 pessoas — quase 10% da força de trabalho da Irlanda, de 2,3 milhões (o total de habitantes é de 4,7 milhões).

Escritório do Google em Dublin: a alta qualificação da mão de obra faz com que as multinacionais invistam no país | Peter Würmli

A presença das multinacionais é um incentivo para empreendedores locais — eles se tornam fornecedores dessas companhias. É aí que entra uma segunda agência, chamada Enterprise Ireland. Fundada em 1998, ela ajuda os empreendedores irlandeses a estruturar seus primeiros produtos, a encontrar clientes e a se capacitar em workshops. A agência investe até 250 000 euros por empresa. Para receber o apoio, os empresários precisam cumprir certos requisitos: o foco tem de ser obrigatoriamente a exportação e é preciso ter outros investidores. Além disso, os empreendedores devem mostrar um plano claro de como gerar pelo menos dez empregos e alcançar uma receita de 1 milhão de euros em quatro anos. Só no ano passado, a agência investiu 31 milhões de euros (133 milhões de reais) nas startups. Gente como Paul McElhone acaba se beneficiando. Ele é um dos sócios da startup Moocall, que desenvolveu um sensor para gado único no mundo. O sistema mede os movimentos do rabo dos animais e alerta o produtor quando uma vaca está prestes a parir. “Com o apoio da agência, conseguimos vender 35 000 sensores em 50 países”, diz. O Brasil é o próximo da lista. Hoje, 5 000 startups participam dos programas da Enterprise Ireland. Juntas, elas mantêm 200 000 empregos.

Paul McElhone, da startup Moocall: apoio do governo para criar um sensor para gado | Filipe Serrano

Outro trabalho importante da agência é financiar a pesquisa aplicada. As startups classificadas recebem uma espécie de “vale-ciência” — um auxílio de 5 000 euros para contratar um dos 14 centros de tecnologia irlandeses que fazem pesquisas para a indústria. Cada um desses centros tem uma especialidade, de tecnologias de processamento de laticínios à microeletrônica. Um deles é o Ceadar, que faz pesquisas em big -data, liderado por Edward McDonnell. O centro fica num prédio de escritórios vizinho à University College Dublin, uma das principais instituições do país, e faz a ponte entre a academia e as empresas. O Ceadar desenvolve ferramentas de análise de dados que são então aproveitadas pelas startups para incrementar seus produtos. “O bom disso é que até as menores empresas têm acesso às melhores mentes na universidade”, diz McDonnell. Fora da Europa, a Irlanda pode ser mais conhecida por suas tradições, pela música do U2, pela literatura de James Joyce e pela cerveja do que por suas empresas com tecnologia de ponta. Mas está firme no caminho para ampliar essa percepção.