O prejuízo da Petrobras é nosso

A perda bilionária da Petrobras, a primeira em 13 anos, é fruto de um entendimento perverso: o de que a empresa pode perder dinheiro porque é “rica”. Mas o dinheiro não é dela, é dos acionistas, a população brasileira

São Paulo – Entre os diversos legados que fazem parte do inventário de micos deixados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sua sucessora, Dilma Rousseff, a Petrobras, com certeza, é um dos mais enrolados. Lula, como se sabe, passou anos reclamando de uma imaginária “herança maldita” que alegava ter recebido de seu antecessor.

Quando chegou a hora de sair do governo, deixou a sua própria — só que essa foi de verdade. Boa parte das dores de cabeça do atual governo, na verdade, se resume a tentar desmanchar a penca de desastres de diversos tamanhos que recebeu ao assumir — e suas perspectivas reais de sucesso nesse trabalho são para lá de duvidosas.

O caso da Petrobras, um dos últimos a sair do armário de esqueletos que Lula empurrou para cima da atual presidente, é um exemplo notável. A empresa acaba de divulgar os resultados do segundo trimestre de 2012 — um prejuízo de 1,3 bilhão de reais, o primeiro dos últimos 13 anos.

Não foi por falta de vendas, na temperatura morna da economia brasileira de hoje: a receita líquida da estatal chegou perto dos 70 bilhões de reais entre abril e junho, ou vigorosos 10% mais do que tinha conseguido no mesmo período de 2011.

O que aconteceu, simplesmente, foi que a Petrobras gastou mais do que recebeu. Os resultados nas áreas em que a empresa deu lucro, como exploração e produção, ficaram praticamente iguais aos do ano passado. Já as despesas furaram o teto.

Se o Brasil fosse a Argentina ou a Venezuela, países que nosso governo tanto admira, não haveria maiores problemas. A presidente Cristina e o coronel Chávez mandariam fazer uma massagem qualquer nos números, e o que é prejuízo viraria lucro. Mas, aqui, embora muita gente gostasse, ainda não dá para fazer essas coisas.

Um poço que não produz é um poço que não produz. Preço de venda abaixo do custo é preço de venda abaixo do custo. Um erro é um erro — e a soma de tudo isso significa, apenas, vermelho no balancete. No caso deste último trimestre da Petrobras, o prejuízo é a consequência inevitável da combinação de um pouco disso tudo.

Boa parte dos poços do pré-sal, anunciados no governo Lula com muito foguetório e pouca geologia, acabou se revelando seca na hora de ser explorada. Apesar dos pesados aumentos dos preços internacionais do petróleo, as autoridades que mandam na Petrobras resolveram fingir que não estava acontecendo nada; pensando no Ibope da popularidade presidencial, em vez da aritmética, mantiveram as vendas de combustível ao público em preços incompatíveis com seu custo.


Erros técnicos grosseiros na área de industrialização do petróleo, fruto de politicagem e de ideologia nas decisões sobre investimento em novas refinarias, mantêm a capacidade de refino da empresa paralisada há anos.

Grandes obras “lançadas” por Lula continuam sendo apenas terrenos baldios; a famosa refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, já está custando quatro vezes o que foi previsto e continua sem ver um centavo do dinheiro que o coronel Chávez comprometeu-se a aplicar nela.

O prejuízo superior a 1 bilhão de reais no segundo trimestre de 2012 não foi construído ontem. Como gostava de dizer o ex-governador Leonel Brizola, é coisa que “vem de longe”. Empresas da natureza e do porte da Petrobras não pegam gripes; só pegam doenças que vão sendo incubadas dia após dia em seu organismo e não recebem a profilaxia correta.

Nenhuma delas é tão nociva quanto a entrega de decisões empresariais a aproveitadores políticos. É algo que vem de um entendimento perverso: o de que a Petrobras pode perder dinheiro porque é “rica”. Mas o dinheiro não é da Petrobras; é de seus acionistas, e esses acionistas são a população brasileira, que tem a maioria das ações e é representada no controle da empresa pelo governo.

Seu dever, nesse papel, é defender os interesses dos cidadãos deste país, que são os verdadeiros donos da companhia. É exatamente o que se espera de sua nova direção e da presidente da República.