O poder do imponderável, como o 11 de setembro

Livro mostra como fatos inesperados -- o sucesso do Google e de Harry Potter ou os ataques de 11 de setembro -- podem mudar o mundo e destruir qualquer planejamento

Em seu website, o escritor, cientista e ex-operador do mercado financeiro Nassim Nicholas Taleb deixa bem claro logo de cara qual é sua praia: “Meu principal hobby é provocar as pessoas que levam a si mesmas e seu conhecimento muito a sério”. Libanês radicado nos Estados Unidos, Taleb tem dedicado boa parte de sua vida profissional — e não só seu tempo livre — ao estudo do incerto e do modo como nos enganamos ao superestimar o que sabemos.

Atualmente, ele é professor de uma exótica disciplina batizada de “Ciência da Incerteza”, na Universidade de Massachusetts. Em The Black Swan — The Impact of the Highly Improbable (numa tradução livre, “O cisne negro — o impacto do altamente improvável”), livro lançado nos  Estados Unidos em abril e que já está na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times, Taleb mostra que o desconhecido tem uma força muito maior do que se imagina — e que pode jogar por terra qualquer tipo de planejamento ou conhecimento. Para o autor, a dificuldade em fazer previsões só tende a aumentar. “Apesar do nosso progresso e crescimento no que se refere ao conhecimento — ou talvez por causa disso –, o futuro será cada vez menos previsível”, diz ele.

Taleb chama de “cisnes negros” os fatos imprevistos e que têm um tremendo impacto no mundo — para o bem ou para o mal. (A escolha dessa expressão é uma referência ao susto que os primeiros ornitólogos europeus tomaram ao visitar a Austrália, no final do século 17. Contra todas as evidências, eles depararam com o fato de que cisnes, além de brancos, podiam também ser negros, o que invalidou uma premissa de longa data e exigiu uma revisão de conceitos.)

Dessa lista, fazem parte tanto os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 quanto a febre provocada pelo bruxo mirim Harry Potter, o maior sucesso editorial dos últimos tempos. Para o autor, a existência desses “cisnes negros” é um incômodo para muita gente, mas sobretudo para executivos e economistas, que geralmente acreditam ter controle e previsibilidade sobre seus projetos, áreas e empresas. Taleb tenta mostrar que, infelizmente para eles, essa é uma crença vã.  

UTILIZANDO PESQUISAS das áreas da ciência cognitiva e de probabilidades, ele explica o motivo. O ser humano é programado para se auto-enganar e para achar que detém a capacidade de prever mesmo eventos imprevisíveis e de lidar com contextos inesperados. Taleb argumenta que nossa consciência obedece a uma lógica perversa: somos capazes de aprender apenas sobre o que já sabemos, sempre levando em consideração fatos concretos.


Ao desprezar tudo o que é abstrato e desconhecido, acabamos por mergulhar no escuro. Um exemplo do perigo desses mergulhos é a quebra da empresa de hedge fund Long Term Capital Management (LTCM), em 1998. Embora seu quadro de gestores contasse até com economistas agraciados com o Prêmio Nobel, a empresa simplesmente não conseguia enxergar o que estava a sua volta. Arriscou-se demais e acabou perdendo tudo.

Como escapar da armadilha? O autor nos convida a aceitar viver em um mundo de muito mais incertezas e insegurança e a lutar contra a padronização do pensamento. Para isso, prega que é fundamental manter o hábito de questionar estruturas de pensamento e atitudes, mesmo que isso exija ações não ortodoxas (como deixar de assistir à televisão) ou a busca de conhecimentos em áreas de arte, literatura, filosofia e psicologia. As recomendações de Taleb são poderosas e contraditórias em relação às medidas que tradicionalmente definem o sucesso, mas que, segundo ele, apenas aprisionam o ser humano numa única estrutura mental — ineficiente para o mundo atual, em que a mutação da ordem é constante.

O homem vive hoje uma oportunidade incomparável, prega Taleb. Pela primeira vez em milhares de anos a capacidade humana de refletir e de compreender antes de (re)agir pode ser utilizada em todo o seu potencial, evitando a resposta clássica típica de quem está em frente a um predador prestes a atacar. Em um mundo que tem ganho cada vez mais complexidade e no qual a maioria das organizações enfrenta desafios com os quais nunca lidou antes, o texto de Black Swan é provocador e estimulante. Embora provavelmente o autor exagere ao subestimar o poder do planejamento — é difícil imaginar que uma empresa possa se perpetuar sem ter nenhum plano futuro –, vale a pena tentar pensar “fora da caixa”. Os “cisnes negros” vão continuar surgindo, mas talvez você e sua empresa não sejam atropelados por eles.

Marcelo Cardoso é presidente da DBM Brasil, consultoria especializada em gestão do capital humano em momentos de transição.