O pior vilão de James Bond

A não estreia do novo filme do 007, abatido pelo coronavírus, gerou perdas milionárias

Era para ser uma das maiores estreias do ano, celebrando o 25o filme oficial de James Bond e a despedida de Daniel Craig do papel. Além da expectativa de uma bilheteria mundial superior a 1 bilhão de dólares, haveria ações promocionais casadas com marcas importantes que são parceiras oficiais da franquia. Era para ser. Pelo menos não será mais em abril. A princípio, 007 ­— Sem Tempo para Morrer, que entraria em cartaz no Brasil no dia 9, foi adiado para novembro. Como tudo no planeta, o agente britânico foi afetado pela pandemia do novo coronavírus. Um inimigo mais difícil do que qualquer vilão de ficção ou problemas reais das produções anteriores.

Muitos planos foram alterados. Entre eles a tradicional première de gala em Londres (frequentemente com a presença de membros da família real britânica), que seria no dia 31 de março. A Heineken, uma das principais parceiras desde 1997, cancelou um evento de lançamento do filme na Jamaica, país em que o inglês Ian Fleming criou os livros de Bond, até morrer em 1964. O novo longa serviria para promover a nova cerveja sem álcool da companhia holandesa, que já teve um divertido comercial estrelado por Craig em janeiro.

Já a Nokia associou ao filme a campanha do novo smartphone 8.2, primeiro da empresa com conexão 5G, que aparece em algumas cenas. Um grande evento de lançamento marcado para 19 de março, em Londres, porém, foi reduzido a um anúncio com transmissão online, sem público.

A Omega não teve como recuar com o relógio Seamaster 300M 007 Edition, que também está presente no filme. O produto já está à venda com preços de 8.100 e 9.400 dólares, dependendo do material da pulseira. O mesmo aconteceu com outra relojoaria parceira, a Swatch. Mas o estímulo gerado por um filme em cartaz está temporariamente perdido.

Relógio Omega promovido pela franquia: modelo jà à venda, mas o impulso que seria dado pelo filme foi perdido | Divulgação

São alguns casos. Mas muitas outras empresas têm ligação comercial com James Bond, desde as maiores parceiras até as que se limitam a fazer inserções pon­tuais de produtos nas cenas. Um clube que envolve firmas de vestuário (Tom Ford, ­N-Peal, Matera, Vuarnet, Crocket & Jones, Michael Kors), bebidas (Bollinger) e veículos (Aston Martin, Land Rover, Triumph). Todas juntas renderam cerca de 100 milhões de dólares para a franquia. Um valor que ajudou, e muito, a financiar 007 ­— Sem Tempo para Morrer, que se tornou a obra mais cara da história da franquia, com orçamento de 250 milhões de dólares e equipe de 650 pessoas. E pensar que o pioneiro 007 Contra o Satânico Dr. No foi feito em 1962 com apenas 1 milhão de dólares…

Apenas para convencer Daniel Craig a ser Bond pela quinta e última vez foi necessário oferecer-lhe um salário de 25 milhões de dólares e participação nos lucros. Há cinco anos, Craig havia jurado que não faria mais o papel. Em quatro filmes, perdeu dois dentes e a pontinha de um dedo, além de sofrer outros ferimentos, tomar sustos e fazer sacrifícios — curiosamente, ele voltou a se machucar na recente produção, fraturando um tornozelo (veja quadro).

Espera-se que o retorno ambicionado venha mesmo em novembro. Mas os estúdios MGM estariam estimando perdas entre 30 milhões e 50 milhões de dólares com o adiamento, segundo a revista americana The Hollywood Reporter. Em 58 anos, a franquia passou por vários apuros reais. Sean Connery, o primeiro Bond, sofreu aflições autênticas em cenas com tarântulas, tubarões e raio laser. Acidentes e explosões causaram ferimentos graves, amputação e até morte de dublês e membros da equipe técnica, além de quase cegar a atriz Halle Berry. Outras minúcias de bastidores atrasaram algumas produções em alguns anos. Mas todos os percalços pareceram de superação mais fácil e rápida do que a ameaça do microscópico coronavírus.