O pior das reformas na Argentina já ficou para trás

As reformas do governo de Mauricio Macri, na Argentina, finalmente começam a dar resultado e a economia entra numa fase de forte recuperação

As relações entre o Brasil e a Argentina costumam lembrar as daquele casal de namorados que vive brigando, mas não consegue sobreviver um sem o outro. O histórico de rivalidade comercial e de interdependência econômica dos dois países demonstra que é preciso ficar atento ao que ocorre no vizinho — qualquer variação econômica num dos lados da fronteira acaba repercutindo no outro. Foi assim quando o Brasil mergulhou na recessão, privando as exportações argentinas de seu maior mercado e, por tabela, empurrando o país também para uma recessão. A boa notícia é que, após um ajuste duríssimo no governo do presidente Mauricio Macri, a economia argentina começa a esboçar uma consistente recuperação, com resultados melhores do que o esperado — o que ajuda os exportadores brasileiros e traz um alento para nossa economia.

Os números são animadores. O PIB argentino, que havia encolhido 2,3% no ano passado, cresceu 1,6% no primeiro semestre e pode fechar o ano com uma expansão de 2,5% (na previsão do Fundo Monetário Internacional) ou até 3% (na estimativa do governo). Os economistas atribuem o crescimento à retomada das obras de infraestrutura, que estavam paralisadas desde 2016, e ao agronegócio, que recebeu um investimento de 58 bilhões de dólares e deverá escoar uma safra de grãos 28% maior em 2017. Mas o boom não se limita a esses segmentos: 90% do setor produtivo registrou crescimento neste ano, reforçando a certeza de que os argentinos estão trilhando o caminho certo.

A avaliação é que finalmente as políticas adotadas pelo governo Macri nos últimos dois anos começam a dar resultado. Macri é um empresário de 58 anos que ganhou prestígio como presidente do time Boca Juniors e prefeito de Buenos Aires. Após vencer a eleição presidencial em 2015, ele deu uma guinada na política econômica herdada de seus antecessores, o casal Néstor e Cristina Kirchner, que permaneceram 12 anos no poder. Uma de suas primeiras medidas foi a reforma cambial, tema sensível num país conhecido por sua economia dolarizada. O governo eliminou as restrições para a compra de dólares que vigoravam desde 2011, retomando o regime de câmbio flutuante. Com a mudança, o peso argentino perdeu 40% do valor em relação à moeda americana da noite para o dia. Paralelamente, Macri fechou um acordo com os chamados “fundos abutres” (detentores de títulos da dívida argentina após o colapso econômico de 2001), colocando um ponto final no calote de 11 bilhões de dólares no sistema financeiro internacional. Com isso, o país voltou ao mercado de crédito, um passo fundamental para retomar os empréstimos a juros baixos e atrair investidores.

Outra medida que causou forte impacto foi o fim dos subsídios para água, luz, gás e transportes, provocando aumentos de 200% a 2 000% nas tarifas desses serviços. Para conter a inflação, o Banco Central manteve a taxa de juro num nível elevado, na faixa de 25%. Até mesmo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), uma espécie de IBGE argentino, suspeito de manipular os principais indicadores econômicos durante anos, entrou na mira do presidente Macri. Alvo de um processo de reestruturação, o Indec só voltaria a divulgar dados oficiais depois de nove meses. Macri também extinguiu a taxação de exportação de produtos agrícolas — fruto de uma briga de Cristina Kirchner com o agronegócio — e abriu o país às importações.

A conta dessa faxina foi alta. A Argentina fechou 2016 com 200 000 desempregados a mais, inflação anual de 45% e  economia em recessão. Cerca de 1,4 milhão de argentinos passaram para situação de pobreza, e Macri viu sua aprovação despencar para 25%. “Apesar do impacto inicial, o grosso do ajuste foi feito no ano passado, abrindo caminho para a economia deslanchar”, diz Marcos Casarin, economista-chefe para a América Latina da consultoria inglesa Oxford Economics. “Os investimentos voltaram e há espaço para uma expansão maior, uma vez que o mercado de crédito ainda é pouco explorado.” Nos últimos meses, a retomada se consolidou. A taxa de desemprego caiu de 9,2%, no primeiro trimestre, para 8,7%, no segundo. A inflação desacelerou. E a aprovação do governo, para alívio de Macri, voltou a subir.

Mauricio Macri e Cristina Kirchner: ela concorre ao Senado

nas eleições do dia 22 | Marcos Brindicci/Reuters

O TESTE DAS URNAS

A recuperação na economia deve ajudar Macri e sua coalizão Mudemos nas eleições parlamentares do dia 22 de outubro, quando será renovada metade da Câmara e um terço do Senado. O presidente argentino conta com uma vantagem. A oposição está desgastada por uma disputa entre Cristina Kirchner e uma ala que prega a renovação do peronismo. A ex-presidente adotou a estratégia de transformar a eleição num plebiscito do governo Macri. Para isso, criou um partido, o Unidade Cidadã (UC), e candidatou-se ao Senado pela província de Buenos Aires. As eleições prévias de agosto mostraram o desgaste do kirchnerismo. Cristina até obteve uma pequena vantagem de 0,2% dos votos em relação ao candidato governista (três senadores serão eleitos por Buenos Aires), mas a coalizão de Macri venceu em vários redutos da oposição, incluindo a capital argentina e províncias importantes como Córdoba, Mendoza, Santa Fé e até em Santa Cruz, feudo dos Kirchner.

Macri não deverá obter maioria no Congresso, mas deve usar o poder de barganha com os governadores da oposição para aprofundar a reforma econômica, uma vez que as províncias dependem do repasse federal de impostos para pagar as contas. E há muito ainda a ser feito. “O governo começou a diminuir a inflação; agora, precisa reduzir o déficit fiscal, reformar o mercado de capitais, aumentar as exportações e ampliar a competitividade do país”, diz Juan Pablo Lohle, ex-embaixador da Argentina no Brasil e hoje diretor do Centro de Estudos Políticos Estratégicos Internacionais, de Buenos Aires. Para Lohle, o Brasil está fazendo reformas estruturais que poderiam inspirar a Argentina, como a da legislação trabalhista. O tema é sensível devido à força política do movimento sindical. Mas o fato é que um trabalhador formal na Argentina custa 30% mais do que no Brasil e 50% mais do que no México, quando os salários são convertidos em dólares.

A retomada na atividade econômica no Brasil também é um ótimo sinal para a Argentina. Cada vez que o PIB brasileiro sobe 1 ponto percentual, a economia do vizinho cresce 0,25 ponto. Num menor grau, o inverso também acontece, o que beneficia diretamente as empresas brasileiras que têm negócios no país. De janeiro a setembro, as exportações brasileiras para a Argentina cresceram 26% em relação ao mesmo período de 2016, puxadas principalmente pelo setor automotivo — um aumento considerável se comparado ao avanço de 6,4% das exportações argentinas para o Brasil. Só nos oito primeiros meses do ano, o investimento brasileiro no país vizinho já soma 307 milhões de dólares, mais do que o dobro do registrado em todo o ano passado. “Pela primeira vez em 30 anos, Brasil e Argentina têm uma política econômica convergente, com os dois países combatendo o déficit fiscal e fazendo reformas estruturais, o que estimula os investimentos”, diz o argentino Dante Sica, economista-chefe da consultoria de análise econômica Abeceb, uma das mais conceituadas do país. Se a Argentina e o Brasil derem continuidade às reformas, os dois países têm tudo para se fortalecer nesta nova fase de retomada.

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A DISPUTA DOS CARROS

A retomada do consumo na Argentina e o aumento da oferta de crédito levaram a um aquecimento das vendas de veículos no país, em que os carros produzidos no Brasil disputam a preferência. Neste aspecto, os veículos brasileiros mais básicos estão ganhando de goleada. Hoje, de cada três carros zero quilômetro vendidos na Argentina, dois são feitos no Brasil. Três fatores explicam esse boom. O primeiro diz respeito aos problemas estruturais da economia argentina. A produção de um carro no país custa 25% mais do que no Brasil, por causa dos impostos e dos encargos trabalhistas. O segundo fator é o câmbio. Nos primeiros oito meses do ano, o dólar se valorizou 10% em relação ao peso argentino, o que tornou o preço dos carros brasileiros mais atrativo. Por fim, a queda do poder aquisitivo favorece os veículos pequenos e mais baratos, produzidos no Brasil. Como resultado, a participação de veículos brasileiros aumentou 56% nos primeiros nove meses do ano, enquanto a dos argentinos caiu 5%. A invasão brasileira abriu uma disputa entre o governo e a Acara, a associação das concessionárias do país, por causa de um acordo que limita a importação de veículos sem a cobrança de impostos. Como as importações dispararam em relação às exportações, o governo argentino já estuda cobrar das concessionárias os 35% de imposto sobre cada veículo brasileiro vendido no país.