A indústria de fragrâncias passa por uma revolução — como o vinho

Os consumidores estão começando a identificar os diferentes tipos de fragrância em perfumes

Houve uma época, e não estamos falando de muito tempo atrás, em que escolhíamos vinho como compramos água: bastava estar em um garrafão de 5 litros ou em uma garrafa azul que já ia para nossa mesa. Essa história mudou muito de cerca de 30 anos para cá. Hoje, não só aprendemos a diferenciar um cabernet sauvignon de um tannat como sabemos a procedência, temos nossas preferências e usamos palavras como terroir sem parecer (muito) pedantes. O mercado agora sinaliza que outro produto está seguindo o mesmo caminho: o perfume.

“A indústria de fragrâncias passou por uma revolução, impulsionada por um cliente mais curioso, bem-educado e criterioso”, diz o venezuelano Luis Miguel Gonzalez Sebastiani, gerente global de perfumes da marca Bulgari. “A abundância de informações, agora disponíveis nas pontas dos dedos, permite que nossos clientes aprendam, troquem, compartilhem e classifiquem o tipo de perfumaria a que estão expostos todos os dias. Isso impulsiona uma busca constante por autenticidade, qualidade, desempenho, o que eleva o nível para a maioria dos perfumistas. Os bons e velhos tempos em que apenas se lançava uma nova fragrância com um produto médio e muito marketing acabaram.”

A criação de um perfume é quase uma alquimia. “O perfumista trabalha com uma paleta com cerca de 3.000 ingredientes, uma parte natural e outra sintética”, afirma Jean Bueno, gerente de perfumaria de O Boticário. “O processo de desenvolvimento de uma fragrância começa como uma tela em branco, em que o artista vai misturando as cores. Um só produto tem de 50 a 400 ingredientes.” Alguns perfumes são tão específicos que, para sua formulação, é preciso criar um aroma totalmente etéreo: cheiro de uma tarde de verão no Mediterrâneo, de combustível queimado no autódromo, da casa da bisavó no interior, de uma doceria à moda antiga. Para isso, os pesquisadores usam um aparelho dotado de uma técnica chamada headspace, capaz de captar o odor de determinado ambiente. Ele tem espécies de cotonetes que “absorvem” as moléculas responsáveis pela produção de odores do local, as quais depois são decifradas por máquinas — assim, o cheiro pode ser reproduzido artificialmente.

O processo de entendimento da complexidade de um perfume e o refinamento do consumidor têm, segundo Bueno, aumentado de alguns anos para cá. “Passamos agora por um momento de sofisticação do mercado. Antes, usavam-se muito splash, água de colônia, lavanda — era tudo muito básico. O que o consumidor procurava era o cheiro de pós-banho. Hoje é diferente. Existe uma preocupação maior com a qualidade. Os ingredientes e os processos tornam-se únicos em cada produto.”

O mercado global de perfumes movimentou 49,4 bilhões de dólares em 2017, segundo a consultoria Euromonitor. Em 2013, foram 41 bilhões. E, para 2020, a projeção é de 53,7 bilhões. Segundo Bueno, o crescimento se deve ao maior conhecimento por parte do consumidor. “Há alguns anos o consumidor procurava um perfume suave, doce ou amadeirado. Hoje, existe cliente que pede determinado ingrediente. Ele sabe a diferença entre eau de toilette e eau de parfum e questiona a dosagem.”

Uma questão que ganha cada vez mais peso no mercado de consumo em geral diz respeito à sustentabilidade. “As marcas de cosméticos estão, como consequência, cada vez mais preocupadas com isso. A Natura, por exemplo, está entre as empresas mais sustentáveis do mundo”, diz o perfumista Isaac Sinclair, da casa de perfumaria Symrise. Uma prática da empresa brasileira bastante reconhecida foi o reflorestamento da zona rural de Abaetetuba, no nordeste do Pará. Antes tomada por pastagens degradadas, resultado das queimadas entre as safras de cana-de-açúcar, a região agora concentra plantações de espécies como andiroba, murumuru e ucuuba, cultivadas pela população local e usadas como matéria-prima de cosméticos.

A Bulgari lançou recentemente sua fragrância mais ecologicamente correta, a Man Wood Essence, com fornecedores de matéria-prima sustentável. “Selecionamos com critério nossos parceiros, colocando o ecodesign, a sustentabilidade e a responsabilidade social como prioridades”, diz Sebastiani. É uma evidência de que fragrância boa não se reconhece apenas pelo nariz.


O bê-á-bá da perfumaria

As principais famílias olfativas para você virar um connoisseur

Cítrica/aromática: composta de fragrâncias leves, refrescantes e energéticas, com notas cítricas (limão, tangerina, laranja, lima) ou ervas aromáticas (tomilho, sálvia, menta, alecrim, anis).

Lavanda: combina notas de flores de lavanda, gerânio e musk. É mais fresca, alegre e vibrante.

Floral: é a mais importante das famílias olfativas femininas. As fragrâncias são envolventes e transmitem feminilidade e delicadeza. Essa família pode se dividir em subtipos — fresco, bouquet, frutal ou ambarado, por exemplo.

Oriental: tem notas intensas que lembram os cheiros do Oriente (como resinas adocicadas, bálsamos da Arábia e especiarias da Índia) ou notas animálicas (como âmbar, almíscar e civete), associadas ao sândalo e à baunilha.

Floriental: combina o bouquet floral com a sensualidade das fragrâncias orientais. Pode se dividir em subtipos, como frutal, amadeirado ou gourmand.

Chypre: marcantes, suas fragrâncias resultam de uma combinação de madeiras e musgos.

Fougère: nasceu de uma mistura de lavanda, gerânio e cumarina (do perfume Fougère Royale, de 1882) e evoluiu com notas frescas, cítricas, herbais, florais e frutais. É a mais expressiva das famílias masculinas. Pode se dividir em fresco, aromático, amadeirado e ambarado.

Amadeirada: inicialmente considerada uma subfamília, ganhou espaço com o crescimento do mercado. Suas fragrâncias, baseadas em madeiras clássicas, como vetiver, sândalo e cedro, viraram clássicos do mercado masculino.