J.R. Guzzo | O Brasil é o país das crises falsas

Poucas vezes, na história brasileira, foi vivido um período de 5 meses com tantos estorvos produzidos na linha de montagem que fabrica crises artificiais

O Brasil de hoje está concorrendo, definitivamente, ao título de país mais travado do mundo por surtos de neurastenia em sua vida política. Poucas vezes, na história brasileira, foi vivido um período de cinco meses com tantos estorvos produzidos na linha de montagem que fabrica sem parar crises artificiais, mortas horas depois de nascerem, ou simplesmente falsas. Isso não faz o Brasil parar, porque o Brasil não parou nem está parado em sua vida prática — ao contrário. Mas perturba os nervos dessa coisa chamada “agentes econômicos” e, por isso, gera perda de tempo em estado puro; para um país que tem tanta coisa complicada para resolver, e no qual cada hora é decisiva para tornar menos incômoda a vida da população, esse desperdício é uma lástima.

O último espasmo da usina de crises foi a divulgação de conversas entre o ministro Sergio Moro, da Justiça, e um dos procuradores da Operação Lava-Jato, obtidas de forma criminosa pelos operadores de um site inimigo do governo. Criou-se de imediato uma gravíssima crise que não chegou a completar seus 15 minutos de fama — só seria realmente uma crise se anulasse a Lava-Jato ou se trouxesse a ela danos irreparáveis, mas isso não aconteceu, por ser uma impossibilidade material. Resultado: o terremoto anunciado não derrubou nem um abrigo de ônibus, mas perturbou mais uma vez a jornada de trabalho normal de um país que precisa desesperadamente trabalhar. É muito ruim.

Não se trata, nem de longe, de uma ação, ou um conjunto de ações, da oposição em seu legítimo direito de discordar de propostas do governo e de apresentar alternativas a elas. A oposição munida de mandato legal para combater o governo, aliás, não chega a 20% do Parlamento. O que existe, na verdade, é uma guerra para derrubar o ministro Sergio Moro, por ser ele o inimigo número 1 do crime por atacado no Brasil. Pode ser um inimigo mais ou menos efetivo, mais ou menos imaginário, mas com certeza é um inimigo como nenhum outro que jamais tenha ocupado um cargo-chave num governo brasileiro — e isso é mais do que suficiente para que a maioria dos políticos e das classes que mandam no país queira ver o homem morto e enterrado.

Quem diz derrubar Sergio Moro diz, ao mesmo tempo, acabar com a Lava-Jato, soltar as dezenas de pesos-pesados da corrupção que estão hoje no xadrez ou com a tornozeleira e devolver o comando do Brasil à confederação nacional de ladrões que esteve no governo nos últimos 16 anos — ou nos últimos 500, como queiram. Isso envolve, obrigatoriamente, a sabotagem, por todos os meios, ao governo atual. É essa a única disputa real que existe hoje no país. O resto é disfarce.

Mas será que não existe gente bem-intencionada, honesta e inteligente que faça restrições à Lava-Jato ou ao governo em geral? É claro que existe. Mas também é claro que ninguém precisa aceitar que o tratem como um bocó — não é essa gente boa que atrapalha, obviamente. Quem joga contra o interesse comum e a favor do próprio bolso — ou, mais precisamente, da própria pele — são esses fabricantes de “crises” de todos os tipos, jogadas sobre você a cada meia hora.

Eles não querem consertar coisa nenhuma. Não querem salvar “as instituições”, o cumprimento meticuloso da lei e os “direitos” da população. Não querem proteger ninguém de nada. Não querem salvaguardar a aposentadoria “dos pobres” nem salvar os brasileiros dos “massacres” que o governo quer promover com a facilitação para a posse de armas. O que eles querem é sair da cadeia ou afastar qualquer risco de irem para lá. Querem voltar a construir obras públicas por cinco vezes o preço real. Querem impedir que mude qualquer coisa que esteja errada, dos privilégios da Previdência Social aos benefícios que permitem aos criminosos cumprir um sexto da pena a que foram condenados ou sair da prisão para comemorar o Dia das Mães — mesmo que estejam presos por matar a própria mãe. A lista vai longe.

O que se vê na vida pública brasileira, todo dia, é essa guerra.