Professor Niall Ferguson, de Harvard, põe o ocidente no divã

O influente historiador inglês defende que as instituições ocidentais estão num rápido processo de degeneração — e que é preciso limitar a ação dos governos para salvá-las

São Paulo – O britânico Niall Fer­guson está na­que­la liga dos pro­fessores uni­v­er­sitários em que a me­dida do sucesso não é mais o número de citações em artigos acadêmicos. Professor de história na Universidade Harvard e palestrante requisitado tanto na Europa como nos Estados Unidos, tornou-se uma ce­le­bridade — na medida em que um pro­fessor de história pode ser uma ce­lebridade.

Já esteve na lista das 100 pessoas mais influentes da revista americana Time, foi consultor do senador John McCain, que disputou a Presidência dos Estados Unidos em 2008 com Barack Obama, e viu seu livro A Ascensão do Dinheiro ser trans­formado em uma série de te­le­vi­são.

Teve detalhes de sua vida privada publicados em jornais quando se se­parou, há poucos anos, e, re­cen­te­mente, voltou a ter destaque, mas desta vez pelo lan­çamento do livro A Grande De­ge­neração — A Decadência do Mundo Ocidental, que saiu em maio no Brasil pela Editora Planeta.

Na obra, defende que democracia, capitalismo, respeito às leis e sociedade civil — em suma, as maiores instituições ocidentais — estão em crise e que as políticas adotadas pelos governos dos Estados Unidos e da Europa só fazem piorar a situação. É por isso, diz Ferguson, que o Ocidente apresenta menor crescimento e maior desigualdade do que no passado. Leia a seguir trechos da entrevista concedida a EXAME.

EXAME – O senhor diz que a democracia está em crise. Quais são as evidências?

Niall Fer­guson – Há várias. Nos países ricos, o crescimento econômico se mantém terrivelmente baixo desde 2008. A desigualdade social hoje é tão acentuada quanto era durante a década de 20. Isso sem falar que a política está cada vez mais polarizada.

Além disso, há uma desilusão generalizada, especialmente entre os mais jovens, cujas perspectivas para o futuro são  piores do que as que qualquer geração enfrentou desde a Grande Depressão.

EXAME – O fraco desempenho econômico é suficiente para concluir que as instituições estão em crise?

Niall Fer­guson – Sim, principalmente na Europa. As instituições do bloco têm se revelado altamente ineficazes. Mas o mesmo vale para os Estados Unidos, que têm perdido competitividade. Hoje, é mui­to mais fácil abrir uma empresa em partes da Ásia do que, digamos, em Boston.


Como disse o ex-premiê inglês Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que experimentamos de tempos em tempos. É por isso que as economias bem-sucedidas da Ásia, como Taiwan e Coreia do Sul, fizeram a transição para a democracia. Mas a questão é: que tipo de democracia funciona melhor? Hoje parece alta­mente discutível que os Estados Unidos tenham o melhor sistema.

EXAME – Por quê? 

Niall Fer­guson – O sistema americano é baseado na ideia de separação entre Executivo, Le­gis­lativo e Judiciário, no qual um fiscaliza o outro. Mas isso não impediu que o governo americano adotasse uma política fiscal desastrosa. Ao permitir o aumento da dívida para tentar melhorar a situação econômica atual, estamos tirando recursos das gerações futuras.

As crianças que estão nascendo hoje pagarão mais impostos lá na frente para tapar esse buraco e, provavelmente, terão menos be­nefícios. O contrato entre as gera­ções, um dos pilares da democracia, está sendo rasgado. 

EXAME – Quais são os sinais de que também há um processo de degeneração em democracias emergentes, como o Brasil?

Niall Fer­guson – Estava em São Paulo um pouco antes de as manifestações começarem, em junho, e pude ver que a infraestrutura de transportes é realmente terrível. O Brasil acaba de passar por um período prolongado de crescimento, mas o setor público ainda é altamente ineficiente. A expectativa crescente da população tem gerado essa insatisfação. 

EXAME – Se é verdade que as instituições ocidentais estão se degenerando, qual é a alternativa? 

Niall Fer­guson – A melhor alternativa é o modelo ocidental de antigamente, em que o papel do governo central era mais limitado e o mercado era muito menos penalizado pela regulação, que ficou mais complicada nos últimos anos. 

EXAME – Mas não foi justamente a falta de regulação que provocou a crise mundial há cinco anos?

Niall Fer­guson – Isso é um mito. O mercado estava mais regulado em 2007 do que em 1990, depois do relaxamento das regras nos anos 80. Instituições que perderam dinheiro, como a companhia hipo­tecária Fannie Mae, estavam sob a supervisão do Congresso. O problema é que a regula­mentação era complexa e as ins­ti­tuições não a cumpriam. Por isso, insisto em dizer: mais regulação não resolverá nossos problemas.