Calendário Pirelli 2019 prova que o nu feminino morreu

O Calendário Pirelli 2019 atesta: as mulheres deixaram de ser objeto para virar sujeito

Foto: Divulgação

Qual é o calendário Pirelli que marcou você?” A pergunta foi dirigida a Sergei Polunin, bailarino de companhias como o Bolshoi, modelo e ator. Estamos no Hangar Bicocca, sede em Milão da Pirelli, onde o calendário de 2019 está sendo apresentado. “Não sei ao certo. Com certeza foi algum com mulheres meio nuas. Você sabe, aquelas fotos sensuais, com metade do peito aparecendo.”

Não culpe Sergei, não o considere um machista. Essa é a primeira lembrança que vem à cabeça da maioria das pessoas sobre a folhinha mais famosa do mundo. O Calendário Pirelli foi lançado em 1964, como um presente da subsidiária britânica para os revendedores. O fotógrafo Robert Freeman, famoso por seus retratos dos Beatles, foi chamado. As imagens então mostravam duas modelos bastante populares no Reino Unido em poses ingenuamente sexy.

De lá para cá, 46 calendários foram produzidos, com alguns anos de intervalo devido à crise do petróleo nos anos 70. Duas premissas sempre foram seguidas: os fotógrafos tinham liberdade total e, talvez inconscientemente, o espírito do tempo sempre esteve impresso mês a mês. Boa parte desses calendários retratou, simplesmente, mulheres com muita pose e pouca roupa.

São célebres as fotos de Kate Moss fumando, Naomi Campbell coberta de areia, Gisele Bündchen baixando a calcinha e levantando a blusa. Muitas caras e bocas sensuais, muitos seios à mostra, alguns tantos nus frontais. Os excessos eram alardeados. A imagem de dezembro de 2010, fotografada em Trancoso pelo polêmico Terry Richardson, acusado depois de assédio, mostra o próprio fotógrafo abraçado às 11 modelos, entre elas Ana Beatriz Barros. O figurino? Apenas a parte de baixo do biquíni.

Nos últimos três anos, no entanto, o Calendário Pirelli perdeu o apelo sexy, com fotos artísticas no lugar de pinups festivas. O tema de 2019 são as aspirações e os desejos de quatro mulheres. Uma delas é uma pintora interpretada pela modelo Laetitia Casta, que contracena com o bailarino Sergei Polunin, aquele que se lembrou dos calendários sensuais no começo deste texto. As demais são uma socialite vivida pela modelo Gigi Hadid, a bailarina encarnada pela bailarina Misty Copeland e uma fotógrafa, papel da atriz Julia Garner.

As fotos são de Albert Watson, autor da conhecida foto de Hitchcock segurando um ganso pelo pescoço. O mote do calendário de 2019, longe de qualquer conotação sensual, teria relação com o movimento #MeToo, abraçado por feministas e celebridades?

Adriana Lima no calendário de 2005, ao lado, e Kate Moss (abaixo) em 2006: passado | Fotos: Divulgação

“Há muita confusão sobre isso”, diz Watson, na sede da Pirelli. “O #MeToo é sobre assédio, não sobre o nu feminino. Nunca passou pela minha cabeça que eu estivesse assediando uma mulher ao fazer uma foto de nu. Ao mesmo tempo, acho ultrapassado fotografar mulheres sem roupa na praia, quis fazer outra coisa. Um crítico do New York Times definiu bem esse calendário ao dizer que finalmente as mulheres estavam sendo tratadas como sujeito, e não como objeto.”

A exploração do corpo feminino, é fato, está em baixa nas publicações e na publicidade. Fizeram muito sucesso, entre os anos 90 e 2000, as chamadas lad magazines, revistas com apelo machista. Títulos como FHMMaxim Loaded, depois de surfar picos de popularidade, foram descontinuados ou reposicionados. O motivo? A nova onda feminista não comporta posturas sexistas.

Emblemática foi a decisão da Playboy americana, em 2016, de deixar de publicar nus femininos. Um ano depois, voltou atrás. Mas eliminou a assinatura “Entretenimento para homens” e passou a veicular matérias em defesa das mulheres, como um artigo da atriz -Scarlett Byrne sobre o Free the Nipple, movimento que prega o direito delas de exibir os seios. “Playboy sempre será uma marca de estilo de vida focada nos interesses do homem, mas os papéis de gênero estão evoluindo, e nós também”, afirmou Cooper Hefner, filho do fundador, Hugh Hefner, e atual presidente do grupo.

Na propaganda, o segmento de cervejas sempre caiu na armadilha de colocar campanhas apelativas direcionadas para o público masculino. Mas até isso está mudando. Em 2016, a Skol foi condenada a pagar uma multa por causa de uma propaganda considerada ofensiva às mulheres, na qual a modelo Bárbara Borges era clonada e entregue a diversos homens. No ano seguinte, a marca convidou oito artistas mulheres a fazer releituras de peças antigas. A assinatura da campanha foi “redondo é sair do passado”. “Aquelas peças não representam mais nossos valores e compromissos”, diz Maria Fernanda Albuquerque, diretora de marketing da Skol. “A sociedade evolui e as pessoas evoluem. Acreditamos que estava na hora de falarmos abertamente sobre determinados temas, e o respeito ao próximo é um deles.”

A falta de nus no Calendário Pirelli não o torna menos emblemático. O lançamento é sempre feito com estardalhaço, para cerca de 900 convidados do mundo inteiro, entre celebridades, jornalistas e clientes, e culmina num festivo baile de gala. São impressos alguns poucos milhares de calendários, todos seriados e dados como presente.

E o que pensam os dois principais fotógrafos brasileiros de mulheres? Diz Bob Wolfenson: “No ano passado fiz um livro que tinha muitas mulheres nuas, e minha filha, que é superfeminista, disse: ‘Lide com isso’, no sentido de que provavelmente haveria muita crítica. Estou querendo fazer um livro só dos meus nus, porque ficou uma coisa exótica. O pressuposto de uma revista masculina na época era a objetificação das mulheres, mas eu procurava que sempre houvesse algo entre minha lente e a mulher, havia sempre um contexto artístico”. Sem entrar na discussão sobre a validade do nu, afirma JR Duran: “O calendário já mostrou belas mulheres em fotos saturadas, na sequência foram retratos, e depois fotografias que poderiam estar numa Vogue francesa. Mas o resultado é sempre surpreendente, são peças para poucos, que reverberam muito”.