Jack Dorsey é o novo bilionário do Vale do Silício

Até 2007, ninguém sabia quem era Jack Dorsey. Hoje, o fundador da rede social Twitter e do serviço de pagamentos Square é um dos empreendedores mais badalados da Califórnia

São Paulo – A carreira do empreendedor americano Jack­ Dorsey, de 35 anos, começou cedo. Aos 13 anos, ele ganhava dinheiro programando sistemas de rotas para empresas de táxi em sua cidade natal, St. Louis, no estado do Missouri. Aprendeu programação sozinho em um PC da IBM comprado pela famíla em 1984.

Aos 21 anos, foi estudar programação na Universidade de Nova York. Depois de passar por diversos empregos, chegou em 2006 à Odeo, uma jovem empresa da Califórnia especializada em podcasts, softwares de áudio digital. A empresa não estava indo bem. Certo dia, Evan Williams, fundador da Odeo, fez uma enquete com seus funcionários: o que eles fariam se a empresa precisasse começar do zero? Valia qualquer resposta.

Dorsey mostrou, então, um projeto que guardava na gaveta: um aplicativo que permitia que as pessoas informassem aos amigos, por mensagens de celular, o que estavam fazendo em determinado momento. Williams gostou, mas decidiu transformar o aplicativo em um site.

Em duas semanas, o projeto, batizado de “Twitter”, estava no ar. “Convidando colegas de trabalho”, foi o primeiro post do Twitter, escrito por Dorsey, em julho de 2006. Deu tão certo que o programador virou o presidente da empresa, e Williams ficou no comando do conselho. 

O sucesso meteórico de Dorsey não veio sem traumas. Logo começaram a aparecer problemas de gestão aparentemente simples e previsíveis, como os picos de acesso, que, nas mãos do jovem programador, tornaram-se grandes confusões. Diariamente, o site do Twitter saía do ar.

Não tardou para que os dois amigos rompessem. Williams retomou o cargo de presidente, e Dorsey passou para o conselho de administração. Apesar dos percalços iniciais, o Twitter seguiu sua trajetória ascendente e acabou se consolidando como uma das maiores redes sociais do mundo, com 500 milhões de usuários. Mas o rompimento com Williams não fez bem a Dorsey.

Na única vez  em que se pronunciou sobre o assunto, foi enfático. “Foi um soco no estômago”, disse em uma entrevista à revista Vanity Fair. A briga, no entanto, abriu caminho para ele criar a segunda empresa.

No início de 2009, Jim McKelvey, um ex-chefe seu que havia abandonado o mundo da tecnologia para se dedicar às artes plásticas, ligou para contar que havia perdido uma venda de 2 000 dólares porque uma cliente não tinha dinheiro vivo e ele não possuía uma máquina de cartão de crédito.


McKelvey, então, perguntou por que Dorsey não criava um aplicativo de celulares para que pequenos comerciantes aceitassem pagamentos de cartões. A conversa foi o embrião da Square, empresa que tem como principal produto um leitor de cartões de crédito e débito que se conecta a smartphones e tablets, e cobra uma taxa de 2,75% de cada transação. 

Quando surgiu em 2007, o Twitter foi considerado um serviço inovador, mas acabou demorando dois anos para deslanchar. Hoje, é o Square que está no mesmo estágio. Visto como uma promessa na forma como fazemos nossos pagamentos, ainda precisa provar que será um marco.

O americano Sam Hamadeh, sócio da PrivCo., consultoria especializada em empresas de capital fechado, e amigo de Dorsey, lembra da primeira vez em que o Square foi usado, em janeiro de 2010. “Eu, Dorsey e Sean Parker (presidente do Facebook na época) organizamos um evento em minha casa, em Nova York, com a intenção de arrecadar fundos para a campanha política da democrata Reshma Saujani, que disputou uma vaga na Câmara dos Deputados”, diz Hamadeh.

Segundo ele, mais de 100 pessoas compareceram à festa. Dorsey passou smartphones com os leitores do Square para seus convidados, que fizeram as doações usando cartão de crédito. “Levantamos 20 000 dólares. Mas o mais importante foi que as pessoas ficaram entusiasmadas com a invenção”, lembra Hamadeh.

No início de agosto, o Square anunciou uma parceria de 25 milhões de dólares com a rede americana de cafeterias Star­bucks. Na fase inicial do projeto, os clientes de 7 000 franquias do Star­bucks nos Estados Unidos poderão pagar suas compras com um código de barras em seus smartphones.

Já usado por 1 milhão de comerciantes, o Square recebeu, em julho, 220 milhões de dólares do fundo de private equity britânico Rizvi Traverse. O aporte elevou seu valor de mercado para 3,2 bilhões de dólares e acabou fazendo de Dorsey, que tem 3% do Twitter, o novo bilionário do Vale do Silício. 

Em uma entrevista para o apresentador americano Charlie Rose, Dorsey tentou resumir tudo o que vinha fazendo desde o primeiro software que desenvolveu em seu PC da IBM ainda na adolescência em St. Louis. “Meu objetivo sempre foi simplificar as interações humanas”, disse.


Além de suas incursões como empreendedor, Dorsey tem mostrado talento como investidor. Em 2011, participou de uma rodada de investimentos de 7 milhões de dólares no Instagram, aplicativo de fotografias para smartphones. Um ano depois, a empresa foi vendida ao Facebook por 1 bilhão de dólares. 

Seu perfil no Twitter tem mais de 2 milhões de seguidores, número próximo ao de celebridades como o roqueiro Ozzy Osbourne e a atriz americana Miley Cyrus. Apesar do interesse que desperta, Dorsey é conhecido por ser reservado. Além disso, tem fama de ter demorado a usufruir dos confortos que sua fortuna pode oferecer.

Por anos, morou num apartamento de 1 milhão de dólares em São Francisco. Quando, em junho, decidiu trocá-lo por uma mansão de mais de 10 milhões de dólares, com vista para a ponte Golden Gate, fez questão de evitar qualquer comentário sobre o assunto — foi a corretora de imóveis que espalhou a notícia.

“Com seu estilo reservado, Dorsey já mudou a forma como nos comunicamos pela internet e deu início a uma revolução em como fazemos compras”, afirma Peter Fenton, sócio do Benchmark Capital, fundo americano de capital de risco. Se o sistema de pagamentos imaginado por Dorsey será mesmo revolucionário, ainda não sabemos. O que se sabe é que o Square já contribuiu para alçá-lo ao seleto clube dos empreendedores bilionários do Vale do Silício.