O negócio é pedalar

As microacademias, ou estúdios, ganham espaço focadas em um único esporte, mas precisa acelerar o passo para reagir ao contra-ataque das tradicionais

As luzes e a trilha sonora remetem a uma balada, mas é apenas uma aula na Velocity, rede paulistana de academias voltadas para spinning (pedalagem com bicicletas ergométricas). A Velocity é focada nessa modalidade. Não cobra mensalidades: o aluno paga pacotes ou aulas avulsas. Com faturamento de 15 milhões de reais em 2019, a Velocity é contraponto às grandes redes de academias multifuncionais com centenas de metros quadrados e milhares de alunos. Cada unidade da Velocity tem cerca de 250 metros quadrados e uma sala para exercícios, com algumas dezenas de bicicletas. A empresa é ponta de lança de uma nova onda: a de microacademias, ou estúdios. Mais flexíveis, tecnológicos e charmosos para o público jovem, os estúdios atraem praticantes de spinning, ioga e crossfit.

A Velocity foi criada em 2013 pelo empreendedor neozelandês Shane Young, radicado há nove anos no Brasil, ao lado do investidor Declan Sherman, do fundo Everlight Capital. O tipo de exercício, o spinning, não é novo e já é praticado em academias há décadas. A novidade está na forma. A trilha sonora é pensada para que a batida da música coincida com as rotações da bicicleta. As aulas são compradas e reservadas pelo site da Velocity — é possível escolher até qual bicicleta será usada em um mapa da sala. Além dos estúdios de spinning, Young criou outra rede, Kore, de aulas funcionais, em 2018. No mesmo ano, a empresa iniciou a expansão por meio de franquias e, no final de 2019, Young tinha 17 estúdios Velocity (seis próprios) e 14 unidades Kore (quatro próprias). O ritmo é tão intenso quanto as aulas. O plano é chegar a 2023 com 150 unidades Kore e 50 Velocity.

Os estúdios ganharam espaço durante a crise econômica, já que frequentadores de academia repensaram pagamentos mensais e passaram a preferir pagar apenas pelas aulas feitas, de acordo com Young. Um risco, claro, é que as pessoas façam uma primeira aula-teste e não retornem mais (rumo a outro estúdio com algum outro esporte da moda). Para atrair e reter os participantes, a Velocity investe nas redes sociais — as duas marcas juntas têm mais de 80.000 seguidores no Instagram — e na divulgação por meio de celebridades. Entre os sócios da Velocity está a influenciadora Gabriela Pugliesi, e seu marido, Erasmo Viana, é um dos sócios do Kore. A dupla soma 5,4 milhões de seguidores no Instagram. A companhia também busca criar um senso de comunidade entre os usuários. Há celebrações para quando os alunos atingem as marcas de 500, 800 e 1.000 aulas. A empresa vende camisetas e bermudas, cuja receita responde por 3% do faturamento.

O formato de estúdio foi trazido dos Estados Unidos, onde o modelo é responsável por 42% dos centros de atividade física. A inspiração para a Velocity vem de estúdios como a americana SoulCycle, criada em 2005 e com faturamento estimado em mais de 100 milhões de dólares por ano. Uma concorrente local é a Spin’n Soul. Criada em 2014, tem oito academias e também atua com ioga e luta.

As grandes redes multifuncionais investem para se adaptar às novidades. A Bio Ritmo, dona da Smart Fit, lançou estúdios independentes de corrida, funcional, ioga, boxe e outras modalidades. Já a Bodytech está criando estúdios dentro de suas academias. Das 102 unidades em operação, em cerca de 70% há algum estúdio. Um desafio para todas é atrair clientes. Nos Estados Unidos, 21% da população pratica atividade física em academias, mas por aqui a participação ainda é inferior a 5%. “Os estúdios atraem pela novidade”, diz Gustavo Borges, presidente da Associação Brasileira de Academias. “Alguns modismos, naturalmente, vão desaparecer com o tempo.” Se a onda do spinning vai passar ou não é cedo para dizer, mas a Velocity e suas concorrentes ajudam a mudar a forma de encarar a atividade física. “Os estúdios não vendem aulas, mas uma experiência de bem-estar”, diz Waldyr Soares, presidente da consultoria Fitness Brasil. O pedal não pode parar.