Minimizando o 11 de setembro

Um dos mais renomados cientistas políticos dos Estados Unidos diz que as grandes questões do mundo têm caráter econômico. E os ataques de 11 de setembro não estão entre elas

Romeno de nascimento e americano por adoção, o cientista político Edward Luttwak, de 60 anos, é uma das vozes mais respeitadas do mundo em estratégia militar e relações internacionais. Com passagens pelo Departamento de Defesa e pelo Conselho de Segurança dos Estados Unidos, Luttwak nunca hesitou em criticar posições adotadas pelos Estados Unidos, mesmo que desagradasse à Casa Branca, sua antiga empregadora.

Membro do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, um instituto não-governamental com sede em Washington, Luttwak dedica-se hoje a estudos sobre segurança e globalização. Nos Estados Unidos, também é conhecido por seus livros, Turbo-Capitalismo: Ganhadores e Perdedores na Economia Global e Estratégia: a Lógica da Guerra e da Paz. Em sua conversa com EXAME, ele falou sobre as conseqüências do 11 de setembro, sobre terrorismo, Brasil e globalização.

De que maneira os Estados Unidos e o mundo mudaram depois dos atentados de 11 de setembro?

Luttwak – Se você olhar os gráficos sobre a evolução do PIB americano, verá que o terror teve um efeito pequeno e momentâneo sobre a economia dos Estados Unidos. O que aconteceu há um ano não foi tão importante assim. E até mesmo para o Afeganistão a intervenção militar não trouxe grandes repercussões econômicas. Do ponto de vista mundial, o impacto das intervenções militares dos americanos e de seus aliados foi ainda menor.

O senhor não acredita, então, que o 11 de setembro mudou o mundo para sempre?

Luttwak – Isso é bobagem. Na verdade, o 11 de setembro foi uma questão de envergadura muito mais psicológica que econômica. Mas as grandes questões do mundo são sempre de caráter econômico. E, desse ponto de vista, a maior mudança dos últimos anos foi o estouro da bolha da chamada Nova Economia, em 2000. Na verdade, tivemos a superposição de duas crises: a primeira foi o estouro da bolha em si, que pode ser entendido como uma crise cíclica do capitalismo. Mas acontece que essa bolha era excepcionalmente grande, tão grande que provocou uma segunda crise, que explodiu no segundo semestre do ano passado. Ela inclui os escândalos corporativos, a queda de confiança do mercado e a aversão ao risco. É verdade que o 11 de setembro agravou um pouco a crise da economia americana. Mas nos Estados Unidos a maior conseqüência do terror foi aumentar o grau de união e de consenso político dos americanos. Se não fosse por esse efeito unificador, que tem sido altamente positivo e consistente, o país estaria digerindo a crise econômica de maneira muito pior. 


Quando é que a economia americana vai se recuperar?

Luttwak – Ninguém sabe o que vai acontecer, se os Estados Unidos vão se recuperar rapidamente ou se vão seguir o exemplo do Japão, cuja economia vem patinando desde o estouro de sua bolha, no começo dos anos 90. Mas, se demorar muito para se recuperar, o país estará em dificuldade. Ao contrário do Japão e da Europa Ocidental, que podem viver sem crescimento econômico, os Estados Unidos precisam desesperadamente de crescimento. É a única maneira de resolver os desequilíbrios e as tensões sociais.

De que maneira a crise americana afeta a globalização?

Luttwak – Ela é um dos fatores que vão atrasar o processo globalizante de agora em diante. Mas a crise americana não é o único entrave. No mundo inteiro, a globalização tem gerado opositores de todo tipo: ecologistas, religiosos, nacionalistas. O processo não está em perigo por causa de Bin Laden ou da crise americana, mas porque ele tem representado crescimento apenas para alguns países e trazido uma crescente e alarmante desigualdade econômica. Ao contrário do que os entusiastas da globalização dizem, ela tem sido tremendamente desestabilizante para o mundo inteiro, inclusive para os Estados Unidos. Aliás, esse novo surto protecionista americano não passa de uma reação contra os prejuízos que a globalização tem imposto ao país.

Como é que a globalização pode ser aperfeiçoada?

Luttwak – Acho que organismos como o FMI e a OMC devem agir para reduzir as tensões e proteger os países mais ameaçados nesse processo. Mas, por outro lado, é preciso que os países adotem mudanças políticas internas muito difíceis de ser obtidas, porque afetam sua cultura política. Acredito que as mudanças fundamentais devam ocorrer no plano nacional. No caso do Brasil, os ricos deveriam adquirir o estranho hábito de pagar impostos. Caso contrário, o país não terá como ser um mercado livre, pronto para operar num panorama global. Para se tornar um parceiro global, um país precisa ser um estado democrático cuja população acredite estar ganhando o jogo. Mas, se em vez disso seu povo se sentir perdedor, ele se oporá à globalização. E, para ter mais ganhadores, países com grande desigualdade, como é o caso do Brasil, precisam encontrar soluções que redistribuam a renda.


Quem está ganhando a “guerra contra o terror”?

Luttwak – Não existe a menor dúvida de que os Estados Unidos e seus aliados estão ganhando. Basta pensar que antes de 11 de setembro o terror islâmico operava livremente em todo o mundo. Hoje eles estão em fuga, com suas redes vigiadas, acuadas ou desmanteladas. Há menos de um ano a Al-Qaeda desafiava os Estados Unidos dizendo que seus militantes jamais se entregariam. Mas a derrota que sofreram foi esmagadora. Eles fugiram como coelhos assustados, já que, tanto do ponto de vista numérico como do militar, eles perdem para qualquer governo organizado que os esteja combatendo. Mesmo assim, eles continuam sendo uma ameaça em potencial. Afinal, não precisaram de muita gente, dinheiro ou tecnologia própria para atacar Nova York e Washington. Na verdade, a lógica por trás das operações do terror islâmico é causar pânico entre a população civil, fazendo estragos pontuais, ainda que de grandes proporções. 

Mas, mesmo com as vitórias que os Estados Unidos tiveram no Afeganistão, Osama bin Laden não foi capturado e, além disso, a violência tem crescido no Oriente Médio.

Luttwak – Primeiro, ninguém deveria ter a menor expectativa de encontrar Bin Laden no Afeganistão. Historicamente, as guerras não são travadas para que se capturem indivíduos específicos. Em 1945, quando os aliados invadiram a Alemanha com 9 milhões de soldados, só um único membro da elite nazista, Hermann Goëring, foi capturado. Mas, voltando a Bin Laden, o Afeganistão é um país grande e sem telefone. Mesmo que alguém veja suspeitos passando por sua aldeia, tudo o que se pode fazer é passar a informação de boca em boca. Quanto ao mundo árabe de maneira geral, não se deve tampouco ter a menor expectativa de que a região apresente estabilidade no presente ou no futuro. Historicamente, ela é marcada pela falta de desenvolvimento político e econômico, além de estar pressionada por um dos maiores crescimentos populacionais do planeta. Somem-se a isso a queda contínua dos níveis de renda per capita e uma abertura crescente para a mídia e as tecnologias da informação. Essa é a receita perfeita para um barril de pólvora.


De que maneira essa guerra é diferente das demais?

Luttwak – De fato, é difícil encaixar esse conflito na definição clássica de guerra, em que exércitos de países antagônicos se enfrentam. Eu iria além, questionando, inclusive, o uso da expressão “guerra contra o terror” pelos americanos. A realidade é que essa não é uma guerra contra o terror ou simplesmente causada pelos ataques terroristas. Essa é uma guerra contra o terror islâmico, especificamente. Mas existe uma relutância em falar nisso, já que certamente se perderia o apoio dos países islâmicos. Por isso, existe uma espécie de jogo de faz-de-conta a esse respeito. Até agora o eufemismo bem-educado da “guerra contra o terror” tem funcionado, e ninguém parece interessado em lidar com a realidade.

E a crise do Iraque? Os Estados Unidos vão entrar unilateralmente numa segunda guerra contra Saddam Hussein?

Luttwak – Na verdade, os Estados Unidos têm falado de maneira unilateral, mas têm agido multilateralmente em relação ao Iraque. Os americanos não vão lançar nenhuma ofensiva contra o Iraque até que consigam montar uma aliança mundial. Aliás, o Iraque também é outro problema específico do mundo árabe. Em relação ao Ocidente, ele não representa um problema social, cultural, econômico, nem mesmo terrorista. Acontece que o governo Bush decidiu que, se os Estados Unidos não atacarem o Iraque, o Iraque vai promover um ataque biológico ou químico de altas proporções. Além disso, Saddam Hussein está tentando desenvolver armas nucleares. Os americanos só vão atacar depois de ver esgotados todos os instrumentos diplomáticos, como a decisão da ONU que exige que o Iraque abra seu território para a inspeção de fábricas e de laboratórios suspeitos. Paradoxalmente, mesmo que os Estados Unidos estivessem de braços cruzados em relação ao Iraque, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, hoje estaria mandando cartas aos líderes de todas as nações dizendo: “Formem uma coalizão para pressionar o Iraque, porque ele está recusando a inspeção”.


Os mercados mundiais têm se demonstrado nervosos em relação a uma invasão americana ao Iraque. Caso aconteça, teremos um choque do petróleo como o de 1973, resultante do embargo imposto pela Opep?

Luttwak – Não acredito num novo choque, porque dessa vez o ataque militar será rápido. Os Estados Unidos não farão nenhuma ocupação de longo prazo.

Qual a sua opinião sobre a criação da Alca? Até agora, o Brasil não se mostra inclinado a entrar no bloco nos moldes desejados pelos Estados Unidos.

Luttwak – Acredito que o Brasil deva rever sua posição sobre o tema, porque a Alca deverá no futuro favorecer mais o Brasil que os Estados Unidos. Aliás, tenho sérias restrições à política externa brasileira, que tem sido pautada pelo princípio de reciprocidade. Isso funciona para parceiros do mesmo tamanho, que não é o caso aqui. Sempre me pergunto: se eu fosse um brasileiro vivendo em Porto Velho, o ministro das Relações Exteriores brasileiro estaria pensando em mim? Em Porto Velho, as pessoas vivem da colheita da soja, e hoje pagam caro por produtos e serviços. A Alca beneficiaria milhões de brasileiros como esses. Veja o caso do turismo. O Brasil tem um grande potencial aí, mas não tem obtido o crescimento necessário porque insiste na tolice de exigir que turistas de países como os Estados Unidos tenham de tirar visto para visitá-lo só porque os americanos exigem visto dos brasileiros. Sem essa exigência ridícula, os brasileiros poderiam receber cinco vezes mais turistas do que hoje. Acontece que, assim como os brasileiros têm o dogma da reciprocidade para o visto, eles adotam dogmas semelhantes para tratar de questões como a Alca. E são esses dogmas que emperram a geração de mais trabalho e riquezas para brasileiros que nunca terão a chance de viajar ao exterior. Mais de uma centena de países ao redor do mundo, inclusive o Japão, não adotam políticas de reciprocidade porque eles põem seu crescimento econômico em primeiro lugar. A política externa brasileira é feita para atender à elite do país. Conheço o Brasil e sua elite, formada por pessoas muito bem-educadas e bem vestidas, muitas delas bem vestidas até demais, mas que impõem terríveis perdas econômicas aos brasileiros mais humildes. Aliás, eu não ligo a mínima para essa questão de visto, pois vou ao Brasil ilegalmente umas sete vezes por ano. Tenho um rancho na fronteira da Bolívia com Rondônia e tudo que preciso fazer é cruzar o rio Guaporé em minha canoa.