Como Singapura construiu o melhor ensino do mundo

Singapura têm as notas mais altas no Pisa. A receita: bons professores, pais e alunos responsáveis e atenção à demanda do mercado

Uma educação voltada para a demanda do mercado de trabalho ainda é vista com ressalvas por educadores brasileiros. Basta observar a resistência em tirar do papel a reforma do ensino médio, que tem nessa ótica uma de suas virtudes. Essa é uma discussão superada em Singapura, país do Sudeste Asiático com a melhor educação básica do mundo. Os alunos de lá são os mais bem colocados no Pisa, exame aplicado a jovens de 15 anos de 72 países pela OCDE, o clube das nações ricas.

Em 2015, edição mais recente do Pisa, a nota dos estudantes de Singapura foi 12% acima da média da OCDE e 37% superior à brasileira. Nessa faixa etária, os alunos do país asiático dão conta de resolver problemas matemáticos complexos e de interpretar textos com realidades distintas das suas. São habilidades bem superiores às dos estudantes do Brasil, onde ainda é comum ver jovens semi-alfabetizados aos 15 anos, apesar da ênfase teórica dos currículos por aqui. Prestar atenção no que funciona em Singapura pode ajudar a tirar o ensino brasileiro do atoleiro. A boa notícia é que o Brasil já dá os primeiros passos em direção ao que deu certo por lá.

Por trás do bom ensino de Singapura está uma tradição de reformas voltadas para as demandas do país. A primeira foi traçada depois de ele ter se tornado independente da Malásia, em 1965. O analfabetismo na época batia nos 30% da população formada por malaios, chineses, indianos e britânicos, que conviviam de forma nem sempre pacífica. Era iminente o risco de revolta da maioria malaia contra a elite de chineses e britânicos.

A educação serviu para melhorar a convivência de povos antagônicos e para a formação de um espírito cívico. Saíram de cena escolas segregadas que, custeadas pelas etnias, seguiam currículos em suas línguas. No lugar delas, por ordem do primeiro-ministro Lee Kuan Yew, fundador do país, foram criadas salas de aulas mistas que seguiam um currículo padronizado, feito por educadores em conjunto com técnicos do Ministério do Trabalho, de modo a engajar a juventude nos planos para a economia.

O inglês virou língua franca nas disciplinas, exceto a vernacular, e o domínio de operações matemáticas se tornou obsessão: afinal, era preciso formar operários qualificados para setores da indústria, como o naval e o têxtil, que formavam a base econômica. Os docentes passaram a seguir cartilhas feitas pelo governo e a ter o desempenho de seus alunos avaliado em exames nacionais de proficiência, os quais, nos moldes do Enem no Brasil, servem de requisito para o ingresso em universidades e centros politécnicos.

Essas avaliações viraram competições nacionais em busca dos alunos mais brilhantes. Exemplos da importância delas para os singapurianos é a proliferação de cursos de reforço dos conteúdos que caem nas provas. Há uma sala de tutoria em praticamente cada bairro. Os livros didáticos, fornecidos em sala de aula, têm espaço nas prateleiras dos best-sellers nas livrarias locais. Quem compra são pais obcecados com a chance de ver os filhos brilhar.

Nas últimas duas décadas, outra reforma educacional vem sendo adotada — de novo, com aval do mercado. O currículo único para o ensino médio foi abandonado. No lugar, hoje existem sete opções: há desde uma formação só acadêmica e mais rápida, de quatro anos, dedicada a quem tem aptidão científica, até cursos profissionalizantes, que podem durar até seis anos e ser combinados com estágios. Essas opções vão sendo criadas à medida que governo e mercado percebem um gargalo.

Na última década, uma das discussões centrais no ensino em Singapura era sobre o que fazer com os estudantes que desistiam do ensino médio por causa de notas ruins — situação de um em cada dez alunos singapurianos, segundo relatório do Banco Mundial de 2010 —, algo que causaria impactos futuros com uma mão de obra menos qualificada.

Três anos mais tarde, a resposta foi abrir a Crest Secondary, escola em Jurong, subúrbio de ruelas que serpenteiam bosques e conjuntos habitacionais. Por ali, 200 alunos de ensino médio estudam a teoria em salas que, patrocinadas por empresas dos arredores, imitam o dia a dia do mercado de trabalho. Exemplos: num armazém doado pela varejista malaia Giant, que tem loja na região, os alunos aprendem matemática e geometria ao ser incitados a pensar como gestores do mercadinho, fazendo contas do custo do estoque e do espaço tomado pelos itens nas gôndolas. Noutra sala, com roupas e manequins fornecidos pela loja de departamentos global Esprit, alunos aprendem línguas e boas maneiras no atendimento a mestres e funcionários da escola. “Envolver o mercado permite que a escola crie oportunidades para os alunos usarem suas habilidades e garante que elas sejam aplicadas no mundo real”, diz Sam Ho Kum Fai, vice-diretor da Crest Secondary.

A metodologia funciona: a escola tem resultados invejáveis até mesmo para os padrões singapurianos. Nos dados mais recentes do exame nacional de proficiência, 98% dos alunos foram aprovados, um ponto acima da média nacional, já elevada. A experiência na Crest Secondary colaborou para a introdução de conteúdos voltados para demandas futuras das empresas, como robótica e inteligência artificial, mesmo em escolas mais acadêmicas.

Tamanho portfólio educacional só é de fato bem aproveitado pelos alunos por causa de dois fatores: docentes treinados a exercer o papel de mentores e famílias engajadas no ensino dos filhos. Todas as opções educacionais são colocadas à mesa dos pais no momento em que o jovem completa o ensino fundamental, aos 12 anos. Muitos educadores brasileiros diriam que tomar uma decisão dessas com tão pouca idade é uma temeridade. Mas, por lá, esse é um ponto-chave para a excelência do ensino. “As famílias são forçadas desde cedo a tomar as rédeas da educação dos filhos, e isso é muito positivo”, diz o educador Mike Thiruman, secretário-geral do sindicato de professores de Singapura.

Para ajudar os pais a decidir a carreira mais promissora para os filhos, a opinião do professor é decisiva. Por isso, antes de entrar em sala de aula, um docente é contratado pelo Ministério da Educação, que recruta recém-egressos das melhores universidades, sem distinção de curso. Por dois anos, esse profissional passa por uma espécie de programa de trainee no Instituto Nacional de Educação (NIE, na sigla em inglês), escola superior de pedagogia do governo de Singapura, e recebe um salário na faixa de 3.000 dólares locais (cerca de 9.000 reais).

Só após a aprovação nessa faculdade, tida como uma das mais rigorosas do país asiático, é que um diretor de escola pode recrutar o profissional. Então, o docente recebe pelo menos 100 horas de treinamento por ano sobre novas técnicas de ensino. O salário em geral equivale ao que se paga na iniciativa privada para um profissional com a mesma experiência.

Como estímulo a crescer, os melhores professores são contratados de volta pelo ministério como mestres de outros docentes, ganhando bônus polpudos por isso. Todos, professores e mestres de docentes, são avaliados com rigor anualmente. “Professores são como diamantes: quanto mais polidos, mais brilhantes”, diz Prakasham Thangaveloo, diretor da Educare, consultoria de professores de Singapura que presta serviços a governos de países como Rússia e Tailândia, ávidos por replicar a excelência do ensino.

O que o Brasil tem a aprender com a experiência de Singapura? A realidade dos países é muito distinta — por aqui, ótimos professores e famílias interessadas no ensino dos filhos ainda são notáveis exceções à regra geral. Mas há sinais de que o Brasil vem absorvendo a lição. A começar pelo fato de estarmos às vésperas de colocar em prática uma base comum curricular no ensino fundamental. O texto, aprovado pelo Ministério da Educação no ano passado, deverá chegar às escolas até 2020. A reforma do ensino médio, que trouxe cinco opções ao aluno, está em linha com a diversificação que deu certo no país asiático.

Até mesmo a formação de professores, ainda um nó por aqui, vem melhorando — inclusive com o apoio de Singapura. Num intercâmbio entre o Instituto Ayrton Senna (IAS), ONG paulistana dedicada à educação, e a consultoria internacional do NIE, em março professores de Singapura estiveram em Joinville, cidade no norte de Santa Catarina. O motivo: treinar docentes da rede municipal com técnicas para o ensino de ciências e de matemática. Agora, os docentes joinvilenses estão replicando o conhecimento. “A ideia é que o conteúdo chegue a 50.000 alunos”, diz Emílio Munaro, diretor de desenvolvimento global do IAS. A receita está dada. Só falta os educadores brasileiros estarem abertos a adotar o que dá certo.


Em busca de líderes no ensino

Para Goh Chor Boon, diretor-geral da Niei, consultoria internacional mantida pela escola de docentes de Singapura, os professores e os diretores de escola precisam dar bons exemplos

Boon, da Niei: “Ser professor não é meramente um trabalho. É uma carreira” | Ricardo Yoithi Matsukawa/Sebrae-SP

O educador singapuriano Goh Chor Boon tem uma das tarefas mais prestigiadas de seu país: espalhar o modelo de treinamento de professores de Singapura em outros países. Boon é diretor-geral da Niei, um braço de consultoria internacional da escola de docentes mantida pelo governo de Singapura. Em maio, Boon esteve em São Paulo, a convite do Instituto Ayrton Senna, para contar a um grupo seleto de professores brasileiros o que está por trás dos resultados educacionais de Singapura. Na entrevista a seguir, ele explica como seu país chegou lá — e os desafios atuais de quem trabalha com educação.

Por que educação é tão importante para Singapura?

Meu país é pequeno demais. Os recursos naturais de Singapura são escassos. Nossa comida é toda importada. Somos muito dependentes do mundo para nossa sobrevivência. O que temos para entregar ao mundo é o conhecimento. Desde a independência de Singapura, estamos dando ênfase à educação porque é a única maneira de sobrevivermos.

Como foi possível ter a melhor educação do mundo?

A principal receita foi o investimento em professores excelentes. Além da excelência técnica, ou seja, em passar de maneira eficiente o conteúdo aos alunos, professores e diretores de Singapura são instados a pensar como líderes educacionais. Eles devem demonstrar a atitude correta. Devem ter paixão pelo que fazem. Ser professor não é meramente um trabalho. É uma carreira. A responsabilidade desse profissional é muito alta. Ele precisa saber que tem o futuro dos alunos em suas mãos.

Como encontrar gente com paixão por dar aula?

Recrutamos os 30% melhores egressos das universidades. Além disso, não temos pudores em contratar gente com carreiras muito bem-sucedidas na iniciativa privada e que, em algum momento de sua jornada, descobre um desejo de dar aulas, independentemente de ter ou não uma licenciatura no currículo. Esses profissionais trazem consigo uma bagagem de conhecimentos relevantes e têm condições de compartilhar com os estudantes como é estar no mercado de trabalho. O mesmo vale para os diretores de escola. Costumamos dizer em Singapura que a junção de professores e de diretores de qualidade resultam numa educação de qualidade.

O que ainda falta melhorar no ensino de Singapura?

Ao redor do mundo as pessoas estão falando sobre a Quarta Revolução Industrial. Estamos num mundo digitalizado em que os processos produtivos são todos interconectados. A internet está em todo lugar. Nisso, milhões de postos de trabalho vão desaparecer. Em Singapura, nossa missão como educadores sempre foi preparar nossas crianças para o futuro. Então, essa tem sido a discussão do momento por lá. Estamos tentando dar o máximo de ênfase prática aos conteúdos que, no passado, ficavam apenas na teoria. Além disso, estamos introduzindo técnicas de aprendizado consagradas no universo das startups, como o design thinking. O desafio maior dos professores hoje é manter relevante o conteúdo de sala de aula num mundo que muda tão rápido.

Como treinar um docente a se manter relevante?

Os professores estão sendo cada dia mais estimulados a deixar os livros didáticos em segundo plano. O que quero dizer com isso: hoje em dia os estudantes não vão mais aceitar o conteúdo de um livro didático de maneira passiva, sem questionar o porquê daquilo. Por isso, dizemos aos professores para aprofundar as referências passadas aos estudantes. Se possível, colocar os alunos em contato direto com a fonte original do conteúdo, indo a museus onde estão os documentos abordados numa aula de história ou a uma floresta para dar aulas de ciências, por exemplo. Um ensino de qualidade hoje é o que faz os estudantes pensar a respeito do que estão aprendendo.

Mas, então, currículos nacionais, como o do Brasil e o de Singapura, estão com os dias contados?

Pelo contrário. Não há nada de errado em haver uma série de conteúdos padrão e de metas de desempenho para os estudantes. Trata-se de uma vantagem tremenda na hora de medir a qualidade de professores e disseminar padrões de excelência em redes de ensino. Um currículo nacional também é importante na hora de pautar as universidades sobre como formar futuros professores. Ele serve de âncora, movendo todas as forças de um sistema educacional em determinada direção. Mas vivemos no século 21, num mundo que muda muito rápido. As escolas precisam ter certo grau de autonomia para interpretar o currículo nacional de maneira inovadora.