“O executivo mau caráter é pior que um incompetente”

Para o professor da escola de negócios suíça IMD, um executivo que comete desvios éticos tem mais chance de destruir uma empresa

São Paulo – Mantenha distância dos executivos arrogantes e avalie com muito cuidado a reputação dos candidatos. Esse é um dos conselhos do americano Allen Morrison, diretor do Centro de Gestão Global da escola de negócios suíça IMD.

Segundo ele, um escândalo pode custar mais caro a uma empresa do que uma estratégia medíocre. No Rio de Janeiro, onde deu um curso a altos executivos de empresas como Vale, Petrobras e Bradesco, Morrison falou sobre o que se espera dos executivos no mundo pós-Lehman Brothers. 

1- EXAME – Por que o senhor diz que um líder sem caráter pode ser pior para uma empresa do que um muito incompetente? 

Allen Morrison – Simples: desvios éticos podem destruir para sempre a imagem de uma empresa. Por isso, o melhor líder é o que tem bom caráter. Hoje, as notícias atingem dezenas de países quase instantaneamente. É um mundo novo, de enorme transparência. Isso se aplica ao comportamento dos executivos e ao que eles dizem e como dizem. O mesmo vale para as companhias. Se forem flagradas em atitudes antiéticas, sofrerão as consequências da má fama. 

2 – EXAME – Mas como avaliar o caráter de uma pessoa? 

Allen Morrison – É preciso avaliar a reputação do executivo antes de contratá-lo, falar com quem ele trabalhou ou fez negócios. A empresa precisa consultar muitas fontes imparciais.

 3 – EXAME – O senhor diz que os melhores líderes gostam genuinamente de gente. Por quê?

Allen Morrison – O caráter tem dois componentes: integridade e empatia. Eles não são essenciais para dar ordens, mas são para liderar. O executivo precisa ser íntegro para defender os valores da empresa e também tem de se conectar emocionalmente com as pessoas da organização, em vários níveis hierárquicos. Se as pessoas não acreditam no líder, não vão segui-lo. 

4 – EXAME – Como os líderes podem saber o que realmente acontece na empresa?  

Allen Morrison – O líder inteligente sabe que precisa de bons canais de informação. A tendência dos executivos que respondem diretamente ao presidente é dizer o que acham que ele gostaria de ouvir. Se os outros funcionários não se sentem à vontade, não vão falar com ele com sinceridade sobre os problemas. O líder tem de desarmar esses medos. Para isso, é preciso mostrar interesse real neles. 

5 – EXAME – Como fazer isso sem passar a imagem de fraco?  

Allen Morrison – Há uma diferença entre uma relação amigável entre colegas e de uma proximidade exacerbada. É um equilíbrio delicado, que o bom senso e o respeito resolvem. Interessar-se pelas pessoas é o melhor antídoto contra a arrogância, que, por sua vez, é a maior barreira para a empatia. 

6 – EXAME – Em caso de um escândalo envolvendo a empresa, qual é a melhor estratégia?

Allen Morrison – Pessoas ou empresas que admitem erros, principalmente se demonstram que são sinceras e indicam a intenção de corrigir o problema, geralmente são perdoadas. É difícil ocultar erros para sempre. O melhor é admitir logo. É como puxar um band-aid: dói menos se puxamos rapidamente e de uma vez.

7 – EXAME – Em países muito corruptos, agir com ética pode levar à perda de negócios. Como sair desse dilema? 

Allen Morrison – Lapsos éticos geralmente envolvem objetivos de curto prazo. Vale mais agir eticamente e proteger o longo prazo.