Sete Perguntas | O maior dilema da China

Para Geoffrey Garrett, reitor da americana Wharton School, o governo de Xi Jinping vive um impasse: precisa promover reformas, mas teme os riscos políticos

A economia chinesa está desacelerando e Pequim sabe que precisa de reformas internas profundas. Sabe, também, que mudanças radicais trazem riscos políticos. Nesse cenário, uma escalada na tensão com os Estados Unidos poderá complicar ainda mais as coisas — o presidente Donald Trump tem ciência disso e deve se aproveitar do impasse. A análise é de Geoffrey Garrett, reitor da Wharton School, escola de negócios ligada à Universidade da Pensilvânia. Cientista político especializado nas relações sino-americanas, Garrett falou sobre os maiores desafios que o governo chinês enfrenta atualmente.

A economia chinesa está desacelerando. O que está acontecendo?

A China está deixando de ser um país de baixa renda para se tornar de média renda, uma passagem que causa desaceleração. Além disso, há dois fatores. O primeiro é a ineficiência das estatais, muito relevantes na economia. O segundo é a tensão comercial com os Estados Unidos, hoje centrada no comércio, mas que pode chegar a setores como tecnologia e segurança.

O que Pequim está fazendo para lidar com a desaceleração?

O governo chinês está numa posição difícil. De um lado, sabe que precisa impulsionar o setor privado, algo que exige desregular a economia. De outro, entende que há milhões de empregos no lado estatal e teme os riscos políticos de uma reforma radical nesse setor. Desde que Xi Jinping assumiu a Presidência, em 2013, notamos a redução na velocidade das mudanças domésticas, justamente pelo temor de aumento na taxa de desemprego.

Como o senhor enxerga a iniciativa do governo chinês chamada de “nova rota da seda”?

Os chineses desenvolveram expertise em infraestrutura e querem exportar isso. Os emergentes enfrentam desafios nessa área e a China está oferecendo uma solução de qualidade e preço baixo. Essa foi uma ideia inteligente, mas a fragilidade da economia está impedindo os investimentos necessários.

Investimentos em inovação podem ajudar o país?

Sim, e é o que a China está fazendo. O governo está investindo em inteligência artificial, por exemplo. No curto prazo, é algo que custa caro, mas pode impulsionar as exportações e gerar empregos. É uma ótima estratégia de longo prazo.

Como a tensão com os Estados Unidos afeta a China em âmbito doméstico?

O presidente Donald Trump está ciente do impasse que o governo chinês vive e quer se beneficiar disso. Ele espera que a China assine qualquer acordo para dar fim à tensão comercial. Caso contrário, o comércio vai atrapalhar a superação dos desafios domésticos reais que estão diante dos chineses.

O que podemos esperar da guerra comercial daqui em diante?

Minha impressão é que a bola está com os Estados Unidos. Trump quer entrar em 2020 com o discurso de que venceu a China. No entanto, sem um rival democrata definido e com a economia americana indo bem, não tem motivos para se apressar. Não vejo um acordo sendo assinado em 2019, e as incertezas terão impactos negativos nos mercados globais.

A China representa, de fato, uma ameaça aos Estados Unidos?

Sempre considerei que analisar esse tema sob a lente da segurança era um equívoco, mas a conversa sobre rivalidade geopolítica e a necessidade de desembaraçar os laços entre os países ganharam fôlego em Washington e Pequim. Isso pode representar uma nova e preocupante fase nas relações entre os dois países.