O legado de Sanders para o debate sobre o coronavírus

Com a crise do coronavírus, ideias de Bernie ganham força — ainda que ele perca a nomeação do Partido Democrata para Joe Biden

Bernie Sanders, o autodeclarado socialista democrático que concorre à candidatura presidencial do Partido Democrata, gosta de dizer que sua campanha na realidade é um movimento. Sanders promete uma revolução política nos Estados Unidos, e sua mensagem — inalterada em mais de 40 anos de vida pública — conquistou uma fatia importante dos eleitores americanos, especialmente os mais jovens. Como aconteceu quatro anos atrás, ele não será o vencedor das primárias democratas.

A vitória do moderado Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack­ Obama, está virtualmente assegurada. Mas as ideias de Sanders sobre desigualdade, sobre a fragilidade econômica dos trabalhadores, sobre o sistema de saúde e sobre a influência desmedida das grandes corporações americanas na agenda do governo nunca encontraram terreno tão fértil no eleitorado — especialmente em meio às emergências de saúde pública e econômica causadas pela pandemia do novo coronavírus.

Até o fechamento desta edição, os congressistas americanos corriam para fechar o maior pacote de salvamento econômico da história, que pode passar de 1,8 trilhão de dólares. Além da pressão do relógio, havia um fator extra complicando as negociações: quem seriam os beneficiados, e sob quais condições?

Da proposta de garantir uma renda básica para os desempregados por causa da crise ao salvamento de setores inteiros da economia — como o de restaurantes e hotéis —­, ecos das ideias de Sanders se faziam ouvir por todo o espectro político.

O pré-candidato democrata Joe Biden: o favorito a competir com Trump | Hannah Yoon/The New York Times/Fotoarena

Um exemplo emblemático são as companhias aéreas, entre as primeiras empresas a pedir socorro ao Tesouro americano. Não há dúvida de que o transporte aéreo é um setor essencial. Mas na ­última década, segundo um levantamento da agência de notícias Bloomberg, elas destinaram quase a totalidade de seu fluxo de caixa livre a recomprar suas ações (garantindo o bônus dos executivos), ao mesmo tempo que registravam oficialmente na bolsa os potenciais riscos de uma pandemia global.

Henry Blodget, editor do site americano Business Insider, defendeu que companhias como United e American Airlines entreguem ao governo uma participação acionária em troca de ajuda emergencial. Outra condição sugerida: o governo americano seria o credor sênior das aéreas, ou seja, teria prioridade para recuperar o dinheiro emprestado antes de todos os outros acionistas — com juros, é claro.

Blodget, que antes de se dedicar ao jornalismo era um analista célebre de Wall Street, definitivamente não é um socialista como Sanders. Mas ele faz parte de um coro crescente que quer impedir que o governo se dobre à pressão de grandes setores da economia em detrimento do cidadão comum. O resgate dos bancos depois do estouro da bolha imobiliária de 2008 deixou os americanos com um gosto amargo na boca, algo que Sanders vem repetindo à exaustão durante sua campanha.

A maioria dos pequenos negócios não tem dinheiro guardado para sobreviver nem sequer por um mês sem receitas, de acordo com uma estimativa realizada pelo Instituto JP Morgan Chase, ligado ao banco americano de mesmo nome. Quase 16 milhões de pessoas trabalham em restaurantes nos Estados Unidos, e este é um dos negócios mais afetados pelas restrições de circulação de pessoas em vigor.

Outro item central da campanha de Sanders, o acesso universal à saúde, já vinha dominando as discussões entre os democratas, e o novo coronavírus colocou o tema definitivamente em primeiro plano. É verdade que até mesmo os países que oferecem algo nos moldes das propostas de Sanders, como a Itália e a Espanha, têm de lidar com a sobrecarga do sistema hospitalar causada pela pandemia.

Mas nos Estados Unidos o problema tem uma dimensão econômica única. A imensa maioria dos americanos depende de planos de saúde privados atrelados ao emprego. Se forem demitidos — um número que provavelmente se contará aos milhões —, terão de pagar do próprio bolso por tratamentos médicos. Considere a história de Danni Askini, relatada pela revista Time e amplificada nas redes sociais. Com sintomas semelhantes aos da covid-19 e sem plano de saúde (estava descoberta na transição para um novo tra­balho), ela visitou três prontos-socorros em Boston, e não chegou a ser internada. Dias depois, recebeu a conta em casa: quase 35.000 dólares.

No clima de extrema divisão política dos Estados Unidos de hoje, uma proposta revolucionária, como a de Sanders, para o setor de saúde americano tem pouquíssima chance de ser aprovada no Congresso. Mas, como aponta David Green­berg, professor de história e jornalismo na Universidade Rutgers, parte dos apoiadores do vovozinho socialista (Sanders tem 78 anos) quer “expandir a ideia do que é possível”. “Mesmo que os objetivos declarados não sejam atingidos, já houve uma influência decisiva no debate público que acontece no país”, diz Greenberg. Em questão de dias, a crise do coronavírus teve justamente esse efeito.

IDEOLOGIA E PANDEMIA

É claro que a ameaça à vida representada pela pandemia é muito maior do que as diferenças ideológicas. Mas, num ano eleitoral e com sua chance de ser reconduzido à Casa Branca seriamente ameaçada pela crise, Donald Trump defendeu sua decisão de não usar uma lei que permite ao presidente americano obrigar as empresas a produzir certos bens escassos. Ele usou a seguinte argumentação: “Ligue para uma pessoa na Venezuela”, afirmou Trump no domingo à noite. “Pergunte: no que deu a nacionalização das empresas? Não deu muito certo. O conceito de nacionalizar nossas empresas não é um bom conceito.”

Eugene Debs, antigo político socialista americano: no passado, o movimento chegou a eleger prefeitos pelo país | Library of Congress/Corbis/Getty Images

Nem Bernie Sanders nem seus seguidores defendem regimes autoritários (apesar de ele defender os avanços feitos pelo regime cubano na área de educação, por exemplo), tampouco que os meios de produção passem para as mãos do Estado. Nos mais de 150 anos de história do socialismo americano (veja quadro ao lado), o senador de Vermont seria classificado como moderado. “Mais de 140 cidades tiveram prefeitos ou secretários socialistas na década de 1910”, diz Elizabeth Sanders, professora do departamento de governo na Universidade Cornell especializada na história política americana. “O democrata William Jennings Bryan [candidato a presidente três vezes entre o fim do século 19 e o começo do século 20] acreditava na nacionalização de indústrias grandes, poderosas e difíceis de regular.” Eugene Debs, fundador do Partido Socialista americano e sujeito de um documentário produzido por Sanders nos anos 1970, concorreu à Presidência quatro vezes. Em 1912 ele obteve 6% dos votos.

As posições de Sanders são muito mais próximas às de um social-democrata europeu. Ele propõe que os funcionários estejam representados no conselho de administração das grandes empresas, mas não fala em cercear a livre-iniciativa, por exemplo. Sanders quer que bilionários paguem mais impostos, mas não pode ser acusado de defender expropriações, como ocorreu em outros países. Na opinião de Sanders (a professora de Cornell, que não tem relação de parentesco com o senador), o pré-candidato estaria muito melhor “se nunca mais usasse o termo ‘socialista’ ” para se descrever. Mas, como Sanders, as deputadas federais Alexandria Ocasio-Cortez, de 30 anos, e Rashida Tlaib, de 43, ambas apontadas como suas potenciais sucessoras do ressurgente movimento socialista americano, não parecem interessadas com o eventual problema de marketing político causado pela palavra.

Uma possível explicação está nas pesquisas. A despeito da conotação “antiamericana” do termo, 52% dos jovens de 18 a 34 anos têm uma visão positiva do socialismo, segundo um levantamento do instituto Gallup (em relação ao capitalismo, o número alcança 47%). A onda jovem prometida por Sanders não se materializou nas primárias. O voto não é obrigatório nos Estados Unidos e, historicamente, só se pode contar com a presença dos eleitores mais velhos na hora H. Mas não há dúvida de que conquistar os apoiadores de Sanders será decisivo se Joe Biden quiser derrotar o presidente Donald Trump em 3 de novembro.

A fragilidade da rede de proteção social para a população mais pobre — exacerbada pela crise atual — certamente será um dos temas mais debatidos dos próximos meses. Sanders cresceu numa família de classe média baixa. Seu pai, imigrante judeu que veio de uma região que hoje é parte da Polônia, era vendedor de tintas, e sua mãe, dona de casa. Não faltava nada para a família, mas as discussões entre seus pais por causa de dinheiro marcaram o jovem Sanders. Em comícios e debates, entrevistas e postagens nas redes sociais, ele repete: “Somos o país mais rico do mundo, mas…” O bordão é seguido por um rosário de queixas.

Hospital em Atlanta: os Estados Unidos são um dos poucos países que não têm um sistema de saúde público | Elijah Nouvelage/Reuters

Uma das que têm mais impacto diz respeito à saúde. Os Estados Unidos gastam 17,8% do produto interno bruto em saúde, ou 3,6 trilhões de dólares por ano. Apesar dessa soma fabulosa, 27,5 milhões de americanos não tinham seguro-saúde durante algum momento de 2018, segundo dados do Censo. Não há tratamentos gratuitos oferecidos pelo Estado. Mesmo nos hospitais públicos, os pacientes que não têm cobertura por planos privados ou governamentais (como o Medicaid, para a população mais pobre, e o Medicare, para quem tem mais de 65 anos) têm de pagar a conta do próprio bolso — ou então assumir dívidas altíssimas.

O presidente Donald Trump: a crise do coronavírus coloca em xeque sua reeleição | Jonathan Ernst/Reuters

Sanders propõe que todos os cidadãos sejam segurados pelo Estado. O modelo, conhecido como single payer, seria financiado por aumento nos impostos de empresas e indivíduos. Além das dúvidas em relação à viabilidade dessa conta — um flanco atacado constantemente por seus adversários nas primárias —, a proposta de Sanders prevê o fim dos planos de saúde privados. Os americanos basicamente perderiam o poder de escolha, uma palavra poderosíssima, diz Michael Sparer, chefe do departamento de políticas de saúde da escola de saúde pública da Universidade Colúmbia, em Nova York. “Existe uma percepção muito forte de que, quanto maior o envolvimento do Estado, menos escolhas as pessoas terão”, afirma Sparer. “Os republicanos são muito habilidosos no uso da palavra socialismo quando os democratas querem ampliar a presença do Estado na economia. Isso vem acontecendo há mais de 100 anos. Mas ninguém grita ‘socialismo’ quando se fala da polícia ou dos bombeiros.” Sparer, entretanto, acredita que uma mudança tão radical no sistema de saúde não faz mais sentido. A solução mais viável, em sua opinião, seria ampliar a cobertura oferecida pelo Estado nos programas Medicaid e Medicare, permitindo a continuidade do sistema de planos privados.

Um sistema de saúde 100% público tem pouquíssima chance de virar realidade. Mas, em meio à pandemia do novo coronavírus, outras ideias caras à esquerda já contam com amplo apoio do Partido Republicano. Um dos itens previstos no pacote de salvamento econômico limitaria a 425.000 dólares anuais, durante dois anos, os salários dos executivos das empresas contempladas. Parte do plano incluía 350 bilhões de dólares em empréstimos para pequenas empresas, que podem ser perdoados caso elas não demitam seus funcionários.

O plano em discussão no Congresso (e que ainda não tinha sido votado até o fechamento desta edição da EXAME) também previa um único pagamento de 1.200 dólares para cada adulto e 500 dólares para cada criança. “Alguns dos meus colegas republicanos estão defendendo um cheque único de 1.000 dólares. É sério? [Esse dinheiro] vai durar duas ou três semanas. O que acontece depois disso? Temos de dar a todas as pessoas do país 2.000 dólares mensais enquanto durar esta crise”, escreveu Bernie Sanders no Twitter.

Supermercado em Nova York: o governo estuda enviar dinheiro diretamente às famílias americanas | Richard B. Levine/Sipa Usa/Fotoarena

O New Deal, uma série de programas e políticas públicas implementados nos Estados Unidos na década de 1930, foi uma resposta aos danos causados pela Grande Depressão que se seguiu ao crash da Bolsa de Valores em 1929. A produção industrial do país caiu um terço; a taxa de desemprego passou de 4% para 25%. “Oferecer universidade gratuita para os veteranos de guerra, realizar enormes projetos de obras públicas, levar a energia elétrica para áreas pobres, adotar um imposto de renda progressivo, ter um sistema de seguridade social, aumentar o regulamento sobre os bancos, perdoar as dívidas de hipotecas. Todas as políticas foram imensamente populares”, diz Elizabeth Sanders, da Universidade Cornell. “Antes da Guerra Fria, os americanos não eram tão hostis ao ‘socialismo’.” Talvez a epidemia do novo coronavírus seja uma repetição da história.