O incrível Huck

Os empreendimentos do apresentador Luciano Huck já faturam 25 milhões de reais por ano. E tudo começou com um barzinho

Àvontade numa calça cáqui, camiseta preta e tênis, ainda com vestígios de maquiagem no rosto, o apresentador Luciano Huck acomoda-se numa cadeira no camarim montado no Forte de São João, no bairro da Urca, na cidade do Rio de Janeiro.

Ali, tendo como cenário o Pão de Açúcar, ele grava parte de seu programa, o Caldeirão do Huck, apresentado na Globo. É sua primeira pausa após sete horas de gravação (ainda teria mais cinco pela frente). Mas ele não dá sinal de cansaço e fala com entusiasmo de sua agenda para os dias seguintes. Na quinta, nova maratona de gravação. Na sexta, viagem a Salvador para um evento. Domingo, embarque para Portugal para três dias de reportagens.

A TV, porém, é apenas a parte mais visível da vida profissional desse paulistano. Aos 32 anos, Huck está à frente de negócios que deverão movimentar 25 milhões de reais em 2004. Ele é sócio em sete empreendimentos que incluem restaurante, estações de rádio, uma pousada em Fernando de Noronha, um selo de discos e licenciamento de produtos.

No início deste mês ele lançou, em parceria com a Nokia e a Oi Celular, a Hucklândia, o primeiro portal brasileiro com conteúdo exclusivo para telefonia móvel. O usuário vai poder baixar músicas, fotos, jogos e filmes para o celular, além de assistir a shows ao vivo pela internet. Para cada programa baixado, o usuário paga de 1 a 3 reais. O mercado calcula que o portal poderá faturar cerca de 30 milhões de reais no próximo ano, o que faria o pequeno império Huck mais que dobrar de faturamento.

Chama a atenção a facilidade com que Huck atrai parceiros para concretizar suas idéias. Além da Oi, ele tem projetos com grandes empresas, como Gradiente e Votorantim, e com empresários como Alexandre Accioly e João Paulo Diniz, herdeiro do Pão de Açúcar. Seu programa não chega a ser exatamente um estouro. A audiência do Caldeirão está em torno de 17%.

Apesar de considerado pelo mer cado um indicador muito bom para a tarde de sábado, está bem abaixo dos 30% conseguidos por Faustão em seu programa de domingo. Ele também não possui a visibilidade de Gugu e Ratinho, do SBT, e de Xuxa, da Globo, os apresentadores mais bem pagos do país.


“O diferencial do Luciano Huck é que ele é o melhor comunicador da TV para falar com o público jovem”, afirma o publicitário Daniel Shalfon, da MPM. “Ele é moderno, culto, ligado ao esporte e vive cercado de mulheres bonitas.” Trata-se de uma parcela da população com grande potencial de consumo — existem 40 milhões de brasileiros, entre 18 e 30 anos, que movimentam 100 bilhões de reais por ano. Ter produtos colados à imagem do apresentador tem dado retorno às empresas que apostam em seu poder com os jovens.

No ano passado, a Gradiente lançou o dvdokê do Huck. Vendeu 42 000 unidades em oito meses. “Foi um sucesso”, diz Roberto Goichman, diretor de marketing da Gradiente. Em setembro a Gradiente lançará uma aparelhagem de som portátil com a marca Luciano Huck.

Uma olhada mais demorada na trajetória de Huck revela que, por trás do apresentador, sempre existiu um inquieto empreendedor. O salário na Globo, em torno de 150 000 reais mensais, lhe garantiria uma vida confortável. “Bastaria aplicar o dinheiro e aguardar os rendimentos”, diz Accioly.

“Mas seu temperamento faz com que esteja sempre em busca de realizações.” Tem sido assim desde os tempos do bar Cabral, o primeiro negócio que ele montou, aos 21 anos, com um grupo de amigos bem-nascidos. Na época, cursava a faculdade de direito da USP, no Largo de São Francisco, e pensava em seguir os passos do pai, dono de um escritório de advocacia em São Paulo. O Cabral foi o trampolim para o show business.

Primeiro, começou a escrever uma coluna sobre a noite paulistana na Folha da Tarde. Em 1997, estreou o H, na TV Bandeirantes. Dois anos depois foi convidado a ir para a Globo pela então diretora-geral, Marluce Dias. Com tantas atividades, acabou abandonando o curso no último período, em 1997. “Descobri que aquilo era só para continuar o trabalho de meu pai”, diz. Logo depois ele também se desfaria de sua parte no Cabral. “Achava que não conseguiria dar conta de tanta coisa”, diz. Foi um sentimento que durou pouco.

Em 1998, ele abriu o restaurante Ecco, em São Paulo, em parceria com vários amigos, entre eles João Paulo Diniz, de quem já fora sócio no Cabral. Três anos depois, fez uma parceria com Carneiro, dono de estações de rádio e da MTV em Minas Gerais, e abriu a Oficina de Negócios e Entretenimento.


A empresa deu origem ao selo Jóia, de música lounge, distribuído pela Universal. Cabe a Huck escolher o repertório. “Nas minhas viagens vou comprando discos e selecionando o que me agrada”, diz. Depois ele passa a bola para o executivo Sílvio Calmon, que se encarrega de comprar os direitos autorais das músicas no país de origem.

Huck procura se manter a distância das questões operacionais e financeiras. Por isso, ele não se considera exatamente um homem de negócios. “Só entro na parte criativa”, diz. “Da parte administrativa não quero nem saber.” É assim nas rádios — a Jovem Pan e a Paradiso — no Rio de Janeiro, onde apresenta os seus programas musicais com canções que ele seleciona. A idéia agora é fazer shows ao vivo. “Queremos resgatar os programas de auditório”, diz Accioly, sócio nos dois empreendimentos.

A Pousada Maravilha, em Fernando de Noronha, é outro empreendimento que o empolga. A pousada tem apenas oito apartamentos e diárias a partir de 1 500 reais. A lotação está esgotada para os próximos quatro meses. Huck pretende replicar o projeto em paraísos ecológicos com pouca infra-estrutura.

Junto com os sócios, Ed Sá Sampaio e — novamente — João Paulo Diniz, ele estuda abrir pousadas em Lençóis Maranhenses, Bonito e Abrolhos. Para Huck, a melhor parte desse negócio é poder viajar. “É o melhor investimento que se pode fazer na vida”, diz.

Entre viagens e negócios, Huck construiu uma rede de contatos abrangente. Estão em sua lista de amigos o milionário italiano Flavio Briatore, comandante da escuderia Renault na Fórmula 1, o governador mineiro Aécio Neves e Paul Allen, sócio de Bill Gates na Microsoft.

No Carnaval deste ano, Allen passou uns dias na bela casa de Huck em Angra dos Reis. Por causa da sua capacidade de fazer amigos nas mais diversas tribos, Aécio Neves costuma dizer que Huck é um dos melhores políticos que conhece. “Ele é um político nato, sem precisar exercer cargo público”, afirma.


Ele é amigo também do presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, de quem é vizinho em Angra dos Reis. Sempre quando podem, os dois se encontram para um almoço na praia.

“Não posso dizer que trocamos assuntos de negócios porque eu só ouço”, diz Huck. Os dois agora estudam uma parceria num programa para a MTV.

Faltava falar da Angélica, a apresentadora com quem Huck está namorando. Há um ano os dois engataram um romance que deve terminar no altar. Nos últimos dias, anunciaram que vão se casar em outubro. Angélica já mandou fazer o vestido na Dior, grife da qual é embaixadora no Brasil.

Segundo Huck, o casório e seu mais novo empreendimento demonstram o quanto amadureceu nos últimos tempos: em julho, ele fundou a ONG Criar, uma parceria com empresas como Votorantim, Volkswagen e Rosseti, para capacitar jovens carentes para trabalhar com audiovisual.

“É significativo que meu último empreendimento não tenha sido uma boate”, diz. “Eu estou mais calmo e mais seguro do que faço.”