J.R. Guzzo | O impossível acontece

Há uma realidade escondida pela fumaça negra que cobre o noticiário. Ignorar isso pode deixar o leitor mais exasperado com o Brasil, e não tão bem informado

É quase sempre um perigo escrever alguma coisa a favor do governo — qualquer governo, em qualquer época e em relação a qualquer assunto. O castigo costuma vir a cavalo. Basta o sujeito dizer que o governo está indo bem nisso ou naquilo, e pronto: logo em seguida acontece alguma coisa ruim, ou uma alta autoridade se mete em confusão de grosso calibre, ou simplesmente sai mais uma novidade da usina de desastres em potencial que toda administração pública mantém em funcionamento 24 horas por dia.

Não importa muito que tenha ocorrido um fato genuinamente positivo. Pela Lei Geral da Calamidade Oficial Contínua, segundo a qual tudo o que o ser humano pode governar tende a ser mal governado, a máquina governamental anula automaticamente o que fez de bom a cada vez que faz o mal. Aí não tem jeito. Como o mal vai sempre aparecer, mais cedo ou mais tarde, o bem está condenado a ir o tempo todo para o espaço.

Fazer o quê? O caminho mais simples, e o mais seguido pela mídia em geral, é acusar o governo sempre — você pode não saber direito por que está acusando, mas ele com certeza saberá por que está sendo acusado. Hoje em dia, particularmente, isso só dá cartaz ao comunicador e não oferece risco absolutamente nenhum. O problema é que coisas boas efetivamente acontecem, mas, como mal aparecem na mídia, ou simplesmente não aparecem, o leitor acaba deixando de ser informado sobre questões que normalmente fazem parte de seus interesses.

A realidade fica escondida pela fumaça negra que cobre o noticiário — e o resultado é que o desfile permanente de calamidades apresentado ao público, sem um minuto de refresco, faz bater um desânimo ainda maior do que o necessário. Só há uma saída para essa situação. Apresentar os fatos positivos, e rezar para que não sejam soterrados 5 minutos depois, por alguma calamidade novinha em folha, antes mesmo de o leitor ter tido a oportunidade de ler a primeira linha a respeito. É a vida.

O conjunto de acontecimentos virtuosos deste ano não é de jogar fora — e ignorar sua existência pode servir para deixá-lo mais exasperado com o Brasil, mas certamente não o tornará mais bem informado sobre a realidade à volta. Acaba de sair, por exemplo, a estimativa da inflação para junho: 0,06%, a menor dos últimos 13 anos. É apenas um fato real, e um colosso de fato real para um país que já teve inflação de 40% ao mês, em sua era de grandes articuladores políticos — registrar sua existência não faz de ninguém um governista, nem um “bolsominion”.

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É igualmente vital, para uma sociedade oprimida pelo crime como poucas outras no mundo de hoje, que o número de homicídios tenha caído 25% no primeiro trimestre de 2019 no Brasil, segundo o monitor recém-criado pelo site G1 para acompanhar passo a passo a evolução da criminalidade no país. Foram 10.300 assassinatos, ante 13.500 no mesmo período de 2018 — um horror, é claro, mas um quarto menos de horror. As invasões de propriedades rurais e de imóveis urbanos foram praticamente zeradas neste ano; o governo cortou as verbas públicas que dava às organizações de invasores e o problema simplesmente sumiu.

Em apenas seis meses aconteceram coisas até há pouco consideradas impossíveis. A Petrobras anunciou a venda, pela primeira vez na história, de oito de suas 13 refinarias — e o STF decidiu, por 9 a 2, que a empresa tem o direito de vender os ativos que quiser. (A lista inclui a sinistra Refinaria Abreu Lima, criação imortal da dupla Lula-Hugo Chávez que custou 20 bilhões de reais à população.) Com a operação, a empresa espera arrecadar 15 bilhões de dólares — que se juntarão aos mais de 30 bilhões de reais que já encaixou com a venda de gasodutos da malha Sudeste-Nordeste. Mais de 21.000 cargos de “provimento livre”, ou seja, de pura safadeza, foram cortados no governo federal. A Lei Rouanet, destinada à corrupção de artistas, foi desidratada. A carteira de motorista passou a valer por dez anos, em vez de cinco — e por aí vamos.

Há um país melhor aí.