O guru do “mais com menos”

Peter Lacy, um influente especialista em sustentabilidade, diz que as empresas devem repensar suas operações para proteger o meio ambiente — e ganhar dinheiro

São Paulo — Nos últimos 15 anos, o britânico Peter Lacy se especializou em ajudar as maiores empresas do mundo a desenvolver práticas mais sustentáveis em seus negócios e se tornou um dos nomes mais influentes nessa área.

Recentemente, ele e o consultor Jakob Rutqvist publicaram o livro Waste to Wealth (“Do lixo à riqueza”, numa tradução livre), em que defendem o modelo conhecido como economia circular — a ideia de que os desperdícios devem ser eli­minados e os produtos descartados devem ser reinseridos na cadeia de produção.

De acordo com Lacy, o conceito de economia circular existe há muitos anos, mas foram as tecnologias digitais criadas recentemente que permitiram que ele se tornasse realidade.

Hoje, Lacy é conselheiro das Nações Unidas e do Fórum Econômico Mundial na área de sustentabilidade e também lidera a área de pes­quisas em estratégia de inovação da consultoria Accenture. Ele falou a ­EXAME por telefone, de Londres.

Exame – O que precisa ser feito para a economia circular se estabelecer como um novo modelo de produção?

Lacy – As pessoas costumam pensar que a economia circular tem a ver apenas com o reaproveitamento de lixo ou de resíduos excedentes na indústria. Não é bem assim. As maiores oportunidades de ganhos reais estão em outros tipos de prática. As empresas podem incrementar suas operações de maneira mais inteligente e efetiva, para se certificar de que não estão desperdiçando recursos.

Na Europa, por exemplo, 60% dos caminhões circulam vazios nas estradas. Adotar um modelo de economia circular significa desenvolver um sistema econômico que reduza esse tipo de desperdício. Então, a primeira coisa que as empresas precisam entender é que a economia circular tem muito a ver com a inovação do próprio modelo de negócios.

É preciso oferecer produtos e serviços que os consumidores desejam, mas de diferentes maneiras — inovando a cadeia de fornecimento de matérias-primas ou a operação.

Exame – No livro, o senhor afirma que a economia circular é a maior revolução nos últimos 250 anos e uma grande oportunidade para os negócios. Quais são as evidências que sustentam essa afirmação? 

Lacy – Desde a primeira Revolução Industrial, há 250 anos, a economia global segue um modelo linear de produção. Os recursos naturais são extraídos, processados, usados na fabricação de produtos e, depois, descartados. A razão pela qual acredito ser a maior oportunidade em 250 anos é que esse ciclo está sendo quebrado, porque o descarte é cada vez mais reaproveitado.

Se o mundo continuar no modelo linear atual, em 2030 teremos de extrair cerca de 8 bilhões de toneladas extras de recursos naturais por ano para abastecer a economia. Ou seja, 8 bilhões a mais do que é extraído hoje. Isso representa cerca de 4,5 trilhões de dólares ou 5% da economia mundial. É aí que está a oportunidade.

Exame – Como o senhor chegou a essa estimativa?

Lacy – Basicamente o que olhamos é o crescimento projetado da economia global, o uso de recursos naturais atual e a produtividade dos países. Também estimamos o impacto dos avanços da tecnologia na redução do uso de recursos naturais. Os 8 bilhões de toneladas são o cenário mais provável.

Exame – Por que o senhor diz que o recente avanço tecnológico ajuda o modelo de economia circular?

Lacy – O conceito circular surgiu nos anos 70, mas foram as tecnologias digitais recentes que permitiram a ele se tornar uma realidade.

Com a internet das coisas — uma forma de conectar todo tipo de máquina em rede — e com a tecnologia de big data, que permite a análise de grandes quantidades de dados, hoje podemos usar as matérias-primas e os recursos das empresas de modo mais eficiente. A tecnologia permite dissociar o crescimento econômico de uma maior extração de recursos da natureza. E isso é transformador.

Exame – Como a tecnologia está sendo aplicada dessa forma?

Lacy – Um exemplo é um modelo criado pela fabricante de pneus Michelin. Ela usa sensores e big data para vender pneus como um serviço. Atualmente, isso é oferecido apenas aos clientes corporativos, como companhias aéreas e empresas de logística. O cliente não precisa pagar um valor fixo alto pelo produto. Paga uma espécie de aluguel.

Os sensores alimentam um banco de dados sobre a quantidade de quilômetros rodados de cada pneu e, no fim do ciclo de vida útil, a Michelin recicla o produto ou dá outro fim a ele, como a fabricação de solas de sapatos. A tecnologia digital melhora a cadeia de valor e fecha o ciclo de um produto. Esse é um exemplo claro do processo de transformação que está em curso.

Exame – Em dezembro, a União Europeia aprovou um pacote de medidas para estimular a economia circular. A mudança de mentalidade vai ocorrer com novas regulações?

Lacy – O pacote da Europa é um bom exemplo para outros governos. Ele é o plano de economia circular mais ambicioso do mundo e inclui uma série de medidas para criar um mercado mais eficiente para a circulação de materiais e recursos na região.

Existem práticas que podem ser incentivadas pelos governos, como ampliar a reciclagem e a logística reversa de produtos, e criar zonas de livre mercado para estimular novas indústrias.

Mas o problema é que o fluxo de matérias-primas faz parte de uma cadeia global de fornecimento. Portanto, um dos desafios é como aplicar a economia circular em escala mundial. Ainda não temos capacidade de fazer esse gerenciamento.

Exame – O excesso de petróleo e a queda nos preços atrapalham o avanço da economia circular?

Lacy – O que estamos vendo com o preço do petróleo é momentâneo. Trata-se de um ciclo de curto prazo afetado pela geopolítica mundial, um excesso de investimento na produção e uma desaceleração dos países emergentes. Mas a tendência no longo prazo é de aumento da demanda por recursos naturais.

Mesmo se a China crescer a um ritmo menor, de 4% a 6% ao ano, ela vai acrescentar um PIB do tamanho da Alemanha na economia mundial até 2020. Acredito que estamos vendo uma mudança estrutural em direção à economia circular. Se não usarmos os recursos naturais de maneira mais inteligente e eficiente, as consequências ambientais serão ainda mais graves.