Chegou a hora de o governo ir para o divã

Sinônimo de carreira estável e tranquila até pouco tempo, o trabalho no serviço público no Brasil sofre pressões crescentes por transparência e eficiência

A professora Maria Tereza de Moraes, de 37 anos, precisou de muita motivação para superar desafios no ano passado. Em janeiro de 2017, ela assumiu a Secretaria de Educação de Londrina, segunda maior cidade do Paraná, depois de ter vencido 128 concorrentes na seleção. O processo foi organizado pela prefeitura local e pela Vetor Brasil, uma ONG que promove a renovação de quadros no serviço público apoiada por empresas como o Google e fundações como a Lemann. Com o novo posto, Maria Tereza trocou a chefia da Secretaria de Educação de Ourinhos, município paulista de 100 000 habitantes, onde vivia, por uma pasta equivalente numa cidade cinco vezes maior. Logo de cara, ela deparou com uma dor de cabeça: o recém-empossado prefeito, Marcelo Belinati (PP), anunciou o corte de reposições salariais dos servidores para conter um rombo nas contas estimado em 127 milhões de reais. Enquanto isso, a demanda por serviços públicos crescia. A fila de espera por uma vaga nas 14 creches municipais passava de 4 000 crianças. Por trás da escassez estava uma má gestão decorrente da paralisia que rondava a pasta. Não havia uma lista de espera consolidada na cidade, fazendo com que a mesma criança estivesse inscrita em várias creches. Também não havia critério de quem seria atendido, dando margem para que crianças de famílias que poderiam pagar pelo serviço tomassem o lugar das que careciam mais. Faltavam recursos para ampliar as creches. Para piorar, a secretaria enfrentava uma onda de processos de pais de crianças desassistidas — somente em 2016 foram mais de 600 ações. “Várias vezes, pensei em desistir”, afirma Maria Tereza.

Coaching em Cuiabá: a iniciativa ajudou a reduzir a burocracia em órgãos estaduais | Divulgação

O que fez Maria Tereza seguir adiante foram sessões com uma profissional de coaching contratada pela Vetor Brasil para ajudá-la a focar a criação de soluções em meio ao caos. Nos encontros, que terminaram em março, ela contou as dificuldades que vinha enfrentando e ouviu sugestões do que fazer para contorná-las. Motivada, Maria Tereza levou adiante ideias úteis contra o gargalo. Cerca de 30% dos 240 servidores deixaram funções burocráticas e foram para a sala de aula. Um pente-fino nos gastos gerou economias que, usadas em pequenas obras, ampliaram em 10% a capacidade das creches. Um novo sistema integrado para a fila de espera criou parâmetros na ordem dos chamados. O resultado: o déficit hoje está em 1 000 vagas e deve zerar em breve. Ao longo de 2017, a secretaria recebeu apenas 17 novos processos judiciais. O desafio, agora, é levar o coaching aos 4 000 funcionários da pasta. Por ora, o orçamento curto impede voos mais altos.

Em busca de produtividade

Histórias de gestores públicos que, como Maria Tereza, encaram terapias para melhorar o desempenho estão se popularizando Brasil afora. Embora faltem dados consolidados, há indícios de que o assunto é uma tendência no funcionalismo. Uma pesquisa do Tribunal de Contas da União em 350 ministérios e autarquias federais mostrou que, em 2016, 55% acompanhavam a evolução do trabalho dos funcionários. Na primeira edição do estudo, em 2013, o índice era de 39%. No ano passado, a demanda estatal respondeu por 15% de 33 000 atendimentos feitos por membros da Sociedade Brasileira de Coaching (SBCoaching), um dos principais centros de formação desse tipo de profissional. Em 2012, a parcela era de 3%. “Os gestores públicos despertaram para o fato de que a motivação melhora a produtividade”, diz Villela da Matta, presidente da SBCoaching. Os investimentos nessa seara estão aumentando. Desde 2016, além do programa da Vetor Brasil, que oferece o coaching a 80 servidores e trainees espalhados em 24 estados, surgiram políticas semelhantes nos governos de Mato Grosso e Santa Catarina. Desde novembro, a Escola Nacional de Administração Pública (Enap), mantida pelo Ministério do Planejamento, oferece aulas de autoconhecimento num curso dedicado a servidores da União que trazem ideias de desburocratização. Nas sessões, que duram um dia inteiro, os presentes recebem tarefas como escrever em post-its seus maiores medos e inspirações na carreira pública. “O sujeito olha para si em busca de respostas sobre o legado que quer deixar com seu trabalho e o que está limitando esse objetivo”, diz Alexandre Guimarães, consultor da EloGroup, consultoria em gestão contratada pela Enap para dar o curso.

Por trás dessas sessões de terapia está uma verdadeira crise existencial da carreira pública. Tradicionalmente cobiçada no Brasil pela estabilidade e por salários acima da média do mercado, ela vem sofrendo pressão  de todo lado. A começar pela crise de imagem perante a opinião pública, que, escaldada por sucessivos escândalos de corrupção envolvendo servidores de todas as esferas, demanda um Estado mais transparente e mais eficiente. Num levantamento recente do instituto Paraná Pesquisas, sete de cada dez brasileiros ouvidos disseram ver o funcionalismo como uma casta privilegiada. Uma proporção semelhante declarou apoiar medidas para equiparar os direitos trabalhistas da mão de obra estatal aos da iniciativa privada, a exemplo de um projeto de lei no Congresso que limita a 5 000 reais o salário inicial de carreiras da elite do serviço público, acostumada a começar com contracheques de cinco dígitos. Além disso, no longo prazo, medidas de contenção, como a Lei do Teto de Gastos públicos, aprovada em 2016, e a reforma da Previdência, em discussão, deverão reduzir as benesses e, consequentemente, a motivação de quem escolhe a carreira pública. Por fim, a busca pelas terapias de governo pode ser uma chance de repensar um Estado que, embora ainda mais generoso do que o setor privado, segue desapontando o servidor. A falta de empatia com o que faz e a de reconhecimento por resultados são as principais causas de insatisfação de funcionários públicos, segundo uma pesquisa do departamento de administração do centro universitário FEI, de São Paulo, com 704 servidores das três esferas de governo. “O setor público é bem limitado na oferta de incentivos por desempenho e na punição a quem não age conforme o esperado”, diz Diogo Ribeiro da Fonseca, pesquisador da Enap.

Toque para ampliar

Não é apenas no Brasil que o serviço público está em fase de revisão. No Reino Unido, até mesmo os lordes que frequentam o Palácio de Westminster, sede do Parlamento, já aderiram a táticas de autoconhecimento para manter a altivez diante dos frequentes arranca-rabos que acontecem por ali. Todas as noites de terça-feira uma sala de reuniões do palácio é fechada para uma prática coletiva de meditação com parlamentares e servidores da casa. Os encontros são mediados por um professor da Oxford Mindfulness Iniatitive, ONG fundada por professores da prestigiada universidade britânica. As sessões são fechadas à imprensa para evitar possíveis constrangimentos com fotos de parlamentares trabalhistas e conservadores de olhos fechados em posição de lótus. Cerca de 10% dos 1 445 parlamentares, além de 500 servidores, já passaram por sessões nos últimos cinco anos. “A vida política é estressante porque é preciso tomar muitas decisões, e acertar na maioria delas. O estresse atrapalha a tomada de decisões”, diz Chris Ruane, parlamentar trabalhista que criou a meditação em Westminster em 2013, 16 anos depois de ser eleito pela primeira vez por um distrito do País de Gales. Segundo Ruane, a meditação o ajudou a superar a frustração pela derrota na eleição nacional de 2015. “Tive forças para brigar pela vaga em 2017, e a conquistei.” Agora os parlamentares britânicos querem levar a ideia mundo afora. Em outubro, o grupo sediou, em Westminster, o primeiro congresso mundial do gênero, atraindo 200 parlamentares de 50 países — deputados da Holanda e da França já iniciaram a prática.

Atrás de motivação para seus quadros, a prefeitura de Guarulhos, na Grande São Paulo, recentemente lotou um auditório com 350 servidores para ouvir o guru Sri Prem Baba. Paulistano de 52 anos, Baba é um psicólogo que se converteu ao hinduísmo. Depois de passar um tempo num mosteiro na Índia, ele voltou e, em 2015, criou a organização social Awaken Love. Adotou o nome hindu — junção de termos que significam, respectivamente, “auspicioso”, “amor divino” e “homem santo” —, deixando de usar o original Janderson de Oliveira. Baba faz sucesso no mercado editorial de autoajuda: é autor do best-seller Propósito: a Coragem de Ser Quem Somos, que já vendeu 140 000 exemplares. “Sri fala sobre como o amor e a boa vontade ajudam a sociedade a enfrentar questões fundamentais como saúde, educação e redução da desigualdade”, diz Gustavo Costa (PSB), prefeito de Guarulhos. Segundo a prefeitura, o guru não cobrou cachê pela palestra. Mas um propósito de Baba é prestar consultoria a prefeituras, como a de Guarulhos, para ajudá-las a atingir as 17 metas de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas, que incluem a erradicação da pobreza e do analfabetismo até 2030. No rol de trabalhos previstos estão aulas de meditação em escolas e oficinas para o funcionalismo. “Quando estão conectados com seus propósitos, os servidores reconhecem o alto valor de seu trabalho”, diz Baba.

Motivação: com mentoria, Maria Tereza, secretária de Educação de Londrina, melhorou as decisões | Rafael Bastos

Nada garante que essas práticas venham a resolver as velhas mazelas do serviço público no Brasil. Uma delas: a inconstância das políticas, que mudam ao sabor do governante de plantão. Mas há resultados animadores. Em Mato Grosso, cursos de coaching do governo estadual para 400 servidores nos últimos dois anos motivaram a formação de uma força-tarefa em busca de soluções para reduzir a papelada que circulava entre os órgãos. O resultado foi a criação de metas  para o acompanhamento de processos internos. Antes do sistema, a papelada chegava a ficar parada cinco meses na mesa de um funcionário, sem resolução. “Agora, qualquer pendência tem um mês para ser resolvida”, diz Carlos Campello, secretário adjunto de Gestão mato-grossense. Em Santa Catarina, a ENA Brasil, uma autarquia estadual que funciona nos moldes da prestigiada escola homônima de gestão pública na França, patrocinou a ida de 20 recém-formados em cursos de administração pública para programas de trainees em nove prefeituras do interior catarinense, com acompanhamento de servidores veteranos e profissionais da iniciativa privada. Numa das cidades, Rio do Sul, foi ideia de um trainee a criação de um escritório para captar financiamentos da União e de bancos privados. Isso ajudou a aumentar em 14% a receita do município em 2017. No Ministério do Desenvolvimento Social, aulas de autoconhecimento do tipo que vem sendo ofertado na Enap ajudaram a resolver gargalos na aprovação de isenção fiscal a associações beneficentes, como ONGs e asilos. O processo, que costumava levar até quatro anos, hoje sai em até quatro meses, com o mesmo número de pessoas envolvidas. A receita? Os 30 funcionários foram alocados em funções com que mais se identificavam e convidados a sugerir melhorias. “O mais importante é o servidor estar disposto a deixar um bom legado”, diz James Theodoro da Silva, coordenador de inovação do ministério. Fazer o que gosta e ser reconhecido por isso é uma prática mais que manjada na iniciativa privada: gente bem resolvida no trabalho costuma render mais. É um alento saber que, finalmente, lições básicas de gestão de pessoas começam a ser adotadas na administração pública e ajudam a motivar e tornar mais produtivo quem está acomodado. Se isso de fato ocorrer, o contribuinte também vai agradecer.