Stefanini, o geólogo de 1 bilhão de reais

A maior parte das empresas brasileiras de TI espera por uma boa oferta de compra. Marco Stefanini vai na contracorrente. Sua empresa já está presente em 27 países

Até pouco tempo atrás, a ideia de fazer uma viagem ao Brasil jamais havia passado pela cabeça de Shu Dasgupta, engenheiro indiano de 43 anos de idade. “Talvez durante as férias, mas nunca a negócios”, diz ele. Desde 2006, Dasgupta preside a CXI, empresa desenvolvedora de aplicativos de origem indiana com 300 funcionários, com sede na Virgínia, nos Estados Unidos.

Numa sexta-feira de fevereiro, acompanhado de cinco colegas, Dasgupta entrou num amplo salão de eventos de um hotel na zona oeste de São Paulo. Como muitos dos estrangeiros ali, ele carregava fones de ouvido e um aparelho de tradução simultânea.

Claro, não estava de férias na cidade — convenhamos, há pelo menos uma dúzia de atrações no país mais interessantes para um turista do que a capital paulista. Dasgupta viera a negócios. Aliás, negócios importantes: ia assistir, pela primeira vez, a uma palestra de seu novo chefe.

No centro do palco, vestindo jeans e uma camisa polo que trazia estampada uma pequena bandeira do Brasil, um homem de cabelos levemente grisalhos falava português ao microfone. A plateia, 300 pessoas de mais de 20 nacionalidades, ouvia a apresentação atentamente. Dasgupta era um deles.

Há uma semana, sua empresa havia sido comprada pela figura que falava e gesticulava habilmente, prendendo a atenção dos presentes. Os temas: cultura da companhia, valores, estratégia de crescimento. O nome a quem Dasgupta e sua equipe deveriam responder dali para a frente não passava despercebido no ambiente. Podia ser lido em cartazes, crachás, telões, banners: Stefanini IT Solutions.

Aos 49 anos, Marco Stefanini é o homem cujo sobrenome estava gravado nas paredes e que está presente, cada vez mais, nas principais movimentações do mercado de empresas de TI brasileiras nos últimos tempos.

O evento, no início de fevereiro, marcava o início do calendário estratégico para 2011 — um momento especial para a Stefanini, empresa fundada por Marco há 23 anos. Essa era a primeira vez que ele falava aos funcionários, novos e antigos, depois de uma série de aquisições iniciada no ano anterior.

Era também a primeira vez que a companhia, especializada em serviços de tecnologia que vão de help desk a desenvolvimento de software, iniciava o ano com uma meta de faturamento superior a 1 bilhão de reais. E, por fim, era a primeira vez que uma grande companhia brasileira de TI apresentava o plano de trazer quase metade de seu faturamento de operações no exterior.


Dono de uma fala pausada e com pinta de professor, herança de anos ministrando aulas particulares em colégios de São Paulo, Marco Stefanini é conhecido por um estilo de gestão — e de vida — prático. Formado em geologia pela USP no início dos anos 80, quase não exerceu a profissão.

A breve exceção foi um mês de trabalho, diploma ainda quente nas mãos, em uma mina de cassiterita no interior de Goiás — lugar onde enterrou a carreira de geólogo. “Trabalhar em uma mina não era nada prático”, diz ele. Com o fim do milagre econômico, as oportunidades na área minguavam.

A exemplo dos engenheiros, eram comuns os casos de “geólogos que viravam suco”. Nessa época, os bancos buscavam atrair estudantes da área de exatas para atuar em TI. Stefanini diz não ter pensado duas vezes: fez seis meses de aula em um curso de analista de sistemas do Bradesco e saiu de lá com uma nova profissão.

A continuação dessa história poderia ser a de uma carreira promissora dentro de um grande banco. Mas Stefanini logo enterrou também essa ideia. Ele tinha 26 anos quando usou a experiência acumulada para fundar, do escritório de casa, a empresa que até hoje leva seu nome.

A ideia, de início, era treinar profissionais de tecnologia da informação. Em dois anos, os rumos do negócio migraram para a oferta de serviços. Foi assim que a Stefanini conseguiu sobreviver aos anos do fim da reserva de mercado de informática, que terminou em 1992. E não parou mais de crescer.

Aquisições

Stefanini, empresário e empresa, está hoje na dianteira do movimento de internacionalização das empresas de TI brasileiras. As recentes aquisições lá fora representam uma nova fase no processo, iniciado em 1996 com a abertura de um escritório em Buenos Aires. Nos anos seguintes, vieram filiais no Chile, na Europa e nos Estados Unidos.

Dois meses antes da compra da CXI, em fevereiro, a companhia havia vencido sete concorrentes na disputa pela Tech Team, empresa de serviços de TI com sede em Michigan, nos Estados Unidos, que tem 2 300 funcionários e subsidiárias em 16 países. No dia do fechamento desta edição, Marco Stefanini anunciou sua terceira e, até aqui, última compra internacional: a colombiana Informática & Tecnología, especializada em aplicações.

Segundo um ranking elaborado pela Fundação Dom Cabral, a Stefanini ocupa hoje a 17a posição entre as companhias brasileiras mais internacionalizadas. Só no ano passado, sua presença global cresceu de 17 para 27 países, quando a participação do faturamento de operações no exterior chegou a 40% do total.

A companhia possui atualmente 32 contas globais, entre elas Johnson&Johnson, Alcoa, Ford e Santander. “A Stefanini faz um movimento contrário ao de outras empresas brasileiras de TI”, diz Cassio Dreyfuss, vice-presidente do instituto de pesquisas Gartner. “Enquanto elas se prepararam para ser adquiridas por empresas estrangeiras, a Stefanini segue uma estratégia de grande empresa global.”


A estratégia para crescer no mercado de serviços é em parte a concretização de vantagens há anos atribuídas a empresas brasileiras do setor, mas poucas vezes colocadas em prática: fuso horário próximo ao de grandes mercados, distância média e cultura ocidentalizada.

Além dessas vantagens, outra aposta da empresa para concorrer no mercado global de terceirização de serviços de TI, um terreno há anos explorado por companhias indianas, como Tata e Infosys, estimado em 100 bilhões de dólares anuais, é a oferta de serviços customizados, desenvolvidos por equipes locais.

A ideia, segundo Stefanini, é ganhar espaço em setores em que a empresa já possui experiência, como o financeiro (ele tem como clientes os dez maiores bancos do país), de seguros e de telecomunicações.

Ao longo dos anos, a expansão da empresa vem conciliando uma das maiores paixões do empresário: viajar. Ao todo, entre viagens de trabalho e de lazer com a mulher, uma psicóloga, e os dois filhos, Stefanini já visitou mais de 80 países. “Ainda chego aos 100”, diz. No dia a dia dos negócios, Marco Stefanini é conhecido por ser enérgico e por dispensar intermediários.

Quando precisa, fala diretamente com qualquer funcionário. “Ele por vezes avança sobre o trabalho de outros executivos, que talvez não sejam rápidos como ele, mas faz isso sem criar constrangimentos”, diz um ex-funcionário. Por outro lado, seu número de celular não é mistério para ninguém na empresa.

“A vida me ensinou que, em um negócio como esse, comunicação é muito importante”, diz Stefanini. A vida lhe ensinou muitas coisas — quase tudo o que sabe, ele diz, aprendeu fazendo. O único curso de gestão de que participou, com duração de uma semana, foi há quase dez anos.

“Meu negócio é fazer. A teoria a gente encaixa depois”, diz. Há três anos, Stefanini estava prestes a abrir o capital, algo que planejava há tempos. A crise financeira internacional acabou com seus planos. Planos adiados para sempre? Ele hesita por um segundo. “Uma resposta prática: adiados por pouco tempo.”