REVISTA EXAME

O fundo mais rentável do Brasil e seu destemido gestor

São Paulo — A estatística e o gestor de fundos Cláudio Coppola di Todaro não convivem muito bem. Segundo concorrentes e profissionais de mercado, “Claudinho”, como é conhecido, ganha dinheiro demais — algo estatisticamente impossível, dizem eles.

O motivo de tanto assombro é o desempenho da R&C Gestão de Recursos, cujo principal fundo rendeu nada menos do que 75 000% na última década — o suficiente para transformar um investimento de 10 000 reais em 7,5 milhões de reais. É, disparado, o fundo mais rentável do Brasil. O fundo Verde, do lendário Luis Stuhlberger, rendeu cerca de 550% no mesmo período.

“Não entendo como ele faz isso”, diz um concorrente. “Acho que ninguém, em sã consciência, investiria nesse fundo”, afirma um especialista. É o milagre — ou o mistério — de Claudinho. A R&C tinha tudo para ser só mais uma entre as dezenas de gestoras inexpressivas que existem no país. Tem apenas dez funcionários, quatro fundos e cerca de 200 clientes.

Seu fundo milagroso é o R&C FIM — um multimercado que, além de rentável como nenhum outro, é provavelmente o mais volátil que já existiu no país. Apenas durante o mês de setembro de 2011, chegou a ter um rendimento de 96%. Nos 30 dias seguintes, porém, perdeu cerca de 40%. Em 2015, os resultados mensais oscilaram entre uma baixa de 18%, em agosto, e um ganho de 27%, em maio.

Na média, sua volatilidade anual é quase cinco vezes maior do que a do Ibovespa e 20 vezes maior do que a dos demais fundos multimercado, de acordo com um levantamento do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas.

Mas, como mostra o desempenho dos últimos dez anos, os acertos foram muito, mas muito mais frequentes do que os erros — e é isso que intriga concorrentes e analistas de mercado. Segundo a FGV, o segundo fundo mais rentável do mercado desde 2005 foi um multimercado gerido pelo banco JP Morgan que obteve um retorno de “apenas” 1 052%. O que explica tamanha diferença?

A principal característica do R&C FIM é fazer investimentos de altíssimo risco. A estratégia não é comprar ações ou títulos de renda fixa esperando que valorizem para vender na alta. A maior parte do patrimônio é aplicada em diferentes contratos futuros que permitem apostar na alta ou na baixa de ações, taxas de juro e moedas.

São quase sempre operações de curto (ou curtíssimo) prazo: um contrato pode ser comprado de manhã e vendido à tarde. Por isso, em vez de analistas que estudam os “fundamentos” das empresas, a R&C tem operadores que passam o dia olhando telas de computador e comprando quando acham que está barato para vender quando acreditam que ficou caro.

O principal deles é Claudinho, dono da R&C. “Um investimento errado pode custar semanas de rendimento”, diz ele. Foi o que aconteceu em agosto deste ano. No início do mês, ele acreditava que o dólar já havia subido demais e passou a apostar na baixa. Mas a moeda valorizou e o fundo teve um de seus piores resultados mensais, uma perda de 18%.

Em setembro, porém, quando já havia voltado a apostar na apreciação do dólar, o fundo teve um rendimento de 17% apenas até o dia 10, segundo a FGV. “Precisa ter sangue de barata para fazer o que ele faz”, diz Ricardo Carneiro Monteiro, seu antigo sócio e cotista de outro fundo da R&C.

Antes de montar a R&C, Claudinho teve uma carreira sem nada de excepcional no mercado financeiro. Formado em administração nas Faculdades Associadas de São Paulo, ele sempre trabalhou como operador — nas corretoras Liquidez e Correção e nas tesourarias dos bancos BCN, Bradesco e Chase.

Em 2002, resolveu que administraria o próprio dinheiro e, em 2005, fundou a R&C junto com Monteiro. Durante seis anos, fez apenas a gestão dos recursos dos sócios e de alguns conhecidos. Até que, em setembro de 2011, a gestora chamou a atenção de todo tipo de gente — de investidores a concorrentes — por ter sido uma das únicas a acertar na mosca o corte de juros feito pelo Banco Central.

Na época, a maioria dos analistas previa uma redução de 0,25 ponto percentual, inclusive Claudinho. Ele havia investido em opções — instrumentos financeiros que permitem comprar ou vender algum ativo no futuro por um preço preestabelecido — que dariam lucro se a queda ficasse nisso.

Pouco antes da reunião do BC, porém, comprou opções que dariam muito mais dinheiro se o corte fosse de 0,5 ponto — o que, de fato, aconteceu. O fundo rendeu 30% num único dia. O que o fez mudar de ideia? Algum relatório econômico aprofundado (a R&C conta com a assessoria econômica da consultoria MCM)? Algum movimento atípico do mercado?

O principal motivo, segundo Claudinho, foi o risco-retorno do novo investimento. “O prêmio dessa opção de 0,5 ponto era muito alto e, como eu já estava ganhando cerca de 20% no mês, achei que valia a pena arriscar. Ganhei nove vezes o que apliquei. Caso o corte fosse de 0,25, ficaria no zero a zero”, diz. “Foi um risco calculado.”

90 milhões no bolso

Se a estratégia desse errado, só Claudinho perderia dinheiro. Todos os recursos do R&C FIM, cerca de ­­35 milhões de reais, são dele — que também já resgatou aproximadamente ­­90­­­ milhões de reais do fundo desde 2005. Quase todo esse dinheiro foi investido em imóveis aqui e nos Estados Unidos.

Em 2011, a gestora decidiu abrir um fundo para clientes, o R&C Top, que segue a mesma estratégia do R&C FIM, mas corre menos riscos — é menos volátil, mas tem rendido menos. O dinheiro aplicado num fundo de ações só vira pó se todas as empresas em que ele investe quebram, o que é pouquíssimo provável.

Os fundos da R&C, porém, podem perder todo o patrimônio e mais um pouco porque operam “alavancados”, ou seja, apostam mais do que os recursos totais do fundo em diferentes investimentos no mercado futuro. “Passei por várias crises e sei limitar as perdas”, diz Claudinho. “Só aplico em mercados com muita liquidez, o que permite que eu venda rapidamente qualquer ativo se minha estratégia der errado.”

Ajuda o fato de o patrimônio dos fundos ser pequeno: ao todo, a R&C tem em torno de 130 milhões de reais sob gestão. Por via das dúvidas, Claudinho é daqueles gestores que estão sempre operando. Nunca sai para almoçar, não tem hobbies a não ser viajar com a família e, mesmo quando está de férias, monitora o mercado a distância ao longo do dia. Deu certo até agora — as estatísticas que se danem.