Seu Dinheiro — o dólar forte ofusca o real

A alta dos juros nos Estados Unidos e a retirada dos estímulos fiscais deverão provocar mais impactos no mercado de câmbio no Brasil

Apesar de esperadas, a alta dos juros nos Estados Unidos e a retirada dos estímulos fiscais anunciada pelo Federal Reserve, o banco central americano, deverão provocar mais impactos no mercado de câmbio no Brasil. Essa é a opinião de alguns dos principais bancos estrangeiros que fazem projeções para o real. Para os bancos americanos Bank of America Merrill Lynch, Goldman Sachs e JP Morgan e o chinês Haitong, o real vai desvalorizar 8% e chegar a 3,40 reais até o fim de 2018 (consultorias e bancos brasileiros, em geral, esperam quedas menores; o Itaú e o Santander são exceções, ao projetar que o dólar chegue a 3,5 reais em dezembro de 2018 ). Entre os estrangeiros, a maior depreciação é prevista pelo Bank of America, que espera que o real termine o próximo ano em 3,60 reais. Para essas instituições, o dólar deverá ganhar valor em relação às principais moedas do mundo (o real incluído), porque os Estados Unidos deverão receber mais recursos externos, atraídos pela perspectiva de alta dos juros e pela recuperação da economia. “Além disso, como o Brasil está saindo da recessão, as importações tendem a aumentar, o que contribui para desvalorizar o real”, diz Jankiel Santos, economista-chefe do Haitong. A depreciação do real só não será maior, dizem os analistas, porque o Brasil está recebendo mais investimentos do exterior, via privatizações e ofertas de ações.


PARA LEMBRAR

BRMALLS

Com a aposta na volta gradual do consumo, os analistas recomendam comprar ações de administradoras de shopping centers. A preferida, atualmente, é a BRMalls. A empresa cortou custos e captou 1,7 bilhão de reais com uma oferta de ações realizada em maio, o que reduziu seu endividamento (a relação entre dívida e geração de caixa caiu de 4,2 para 2,5 vezes em 12 meses). Alta da ação no ano: 39%


PARA ESQUECER

GAFISA

A incorporadora Gafisa decidiu não fazer lançamentos nem comprar terrenos no primeiro semestre deste ano para se concentrar em reduzir o estoque de imóveis encalhados. Conseguiu uma queda de 10%, mas tem tido dificuldade em se livrar de imóveis comerciais, que hoje representam 55% dos estoques. Além disso, como não fez investimentos, tem pouca chance de crescer se o mercado imobiliário se recuperar em 2018, como previsto. Nenhum analista que acompanha a empresa recomenda comprar suas ações. Queda da ação no ano: 24%


Hospital em São Paulo: as ações da Qualicorp subiram 103% no ano | Lalo de Almeida/Folhapress)

JUSTIÇA

FOI SÓ UM SUSTO

Os acionistas da administradora de planos de saúde Qualicorp levaram um susto em agosto. O Partido Social Liberal entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade questionando o modelo atual do setor, que determina que planos de saúde não podem cobrar diretamente os usuários de plano de saúde coletivo (como os oferecidos por empresas a seus funcionários) sem o intermédio de uma administradora, como a Qualicorp, quando a mesma for contratada. As ações da Qualicorp chegaram a cair 6% após o processo, mas voltaram a subir quando a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Agência Nacional de Saúde (ANS) deram parecer contra a ação. Para a maioria dos analistas, a decisão da AGU afastou o risco regulatório — hoje, sete dos oito profissionais que acompanham a Qualicorp recomendam comprar suas ações. Suas receitas aumentaram 10%; e a geração de caixa, 25% no primeiro semestre. No ano, os papéis já subiram 102%.

Nota de esclarecimento

A Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (ANAB) esclarece que, ao contrário do que foi publicado, a contratação de planos de saúde coletivos por intermédio das administradoras de benefícios não é obrigatória, conforme a Resolução Normativa nº 195 da ANS. O caráter facultativo desta contratação foi reforçado pela própria ANS em parecer encaminhado ao STF no último dia 4 de setembro.


Ilan Goldfajn, do BC: os juros poderão chegar a 7% | Adriano Machado/REUTERS

RENDA FIXA

EM BUSCA DE SALVAÇÃO

Com a queda dos juros promovida pelo Banco Central, presidido por Ilan Goldfajn — e a perspectiva que diminuam ainda mais e cheguem a 7% em dezembro —, muitos investidores têm fugido de aplicações atreladas ao CDI. Para captar recursos nesse cenário, os bancos médios voltaram a emitir CDBs prefixados. Papéis emitidos em setembro, com vencimento em três anos, oferecem um rendimento de até 10%, segundo o site de busca de investimentos Yubb — os títulos públicos de prazo semelhante pagam em torno de 8,9%. Já os CDBs que vencem em cinco anos rendem até 12%, ante os 9,6% dos papéis públicos.


Tovar: “O cenário está amigável para a bolsa” | Marcelo Correa

ENTREVISTA

Fundada há cerca de quatro meses, a gestora de recursos Truxt já tem alguns números que chamam a atenção. Captou 4 bilhões de reais com investidores e seu maior fundo, o multimercado Macro, rendeu 238% do CDI (ou cerca de 7%) nesse período. José Alberto Tovar, que fundou a Trux depois de quase dez anos à frente da gestora BNY Mellon ARX, diz como o fundo pretende ganhar dinheiro agora.

Onde estão as oportunidades do mercado financeiro? 

Ainda há espaço para ganhar dinheiro na renda fixa em razão da tendência de queda dos juros. As taxas dos títulos prefixados e atrelados à inflação continuam interessantes. Além disso, o corte dos juros beneficia a bolsa e explica por que as ações têm valorizado.

O Ibovespa caiu no fim de setembro e no começo de outubro. Não é um sinal de que a bolsa já valorizou demais?

Esse tipo de movimento é esperado. O comportamento do mercado nunca é uma linha reta: quando os preços sobem demais, como aconteceu nos últimos meses, os investidores vendem um pouco, embolsam os ganhos e esperam. Mas acredito que devem voltar a comprar, porque o cenário macroeconômico está mais amigável para a bolsa. A inflação está baixa, e o país está finalmente saindo da recessão.

Seu fundo multimercado reduziu os investimentos na bolsa?

Sim, fizemos uma redução tática, justamente porque o Ibovespa subiu muito. Chegamos a ter 20% do patrimônio do fundo Macro em ações e, no fim de setembro, reduzimos para cerca de 10%. Mas isso pode mudar rapidamente. Ainda estamos otimistas com a bolsa.

O próximo ano é eleitoral, o que deve deixar o mercado mais volátil. Não é um risco para quem investe em ações?

É. A maioria dos investidores ainda não colocou esse risco na conta, porque a história mostra que pesquisas de opinião feitas com tanta antecedência têm pouca relevância. Mas isso vai acontecer em algum momento. Precisamos de um presidente reformista e favorável ao ajuste fiscal. Um cenário que aponte qualquer coisa diferente disso vai provocar estresse no mercado.


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