O custo para a Argentina de adiar seu ajuste fiscal

O presidente argentino, Mauricio Macri, demorou tempo demais para cortar gastos e equilibrar as contas do governo — um alerta para o Brasil

Que diferença faz um ano na ArgentinaNo segundo semestre de 2017, era como se tudo estivesse dando certo para o presidente Mauricio Macri. Suas reformas econômicas começavam a dar resultado e o produto interno bruto voltava a crescer acima dos 3% ao ano. Na política, o presidente comemorava o bom desempenho de sua coalizão Cambiemos nas eleições legislativas de outubro. Depois de quase 12 meses, o vento passou a soprar na direção oposta -— e com a força de um furacão. Por causa de uma série de fatores, incluindo o aumento das taxas de juro nos Estados Unidos, a Argentina passou a sofrer uma forte pressão cambial que vem causando um desequilíbrio em suas contas públicas, fez o país recorrer a um empréstimo de 50 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ameaça jogar a economia de volta a uma forte recessão. Isso ocorre a pouco mais de um ano da próxima eleição presidencial, em outubro de 2019, quando Macri tentará ser reeleito. Não é exagero dizer que o presidente argentino enfrenta hoje sua maior crise desde a posse em dezembro de 2015.

A situação atual da Argentina surpreende porque, durante mais de dois anos, o país parecia estar no rumo certo. Logo depois de assumir a Presidência, o liberal Mauricio Macri tratou de corrigir o pesado intervencionismo estatal instalado pela ex-presidente Cristina Kirchner, de centro-esquerda. Em poucos meses, a Argentina voltou a ter estatísticas econômicas confiá-veis, adotou um aclamado regime de câmbio flutuante e reduziu parte dos enormes subsídios nas contas de gás e eletricidade que consomem recursos públicos. O governo também chegou a um acordo com os chamados “fundos abutres” — credores que cobravam na Justiça americana o pagamento de dívidas renegociadas pela Argentina em 2005 — e voltou ao mercado de crédito internacional. Os investidores retomaram os empréstimos para a Argenti-na e o presidente passou a seguir uma agenda de investimentos para promover obras públicas que, assim como no Brasil, são necessárias para reduzir os problemas de infraestrutura. Em 2017, a economia argentina cresceu 2,9%, um nível de expansão que o Brasil não vê desde 2013. Mesmo com a recente piora, alguns setores continuam aquecidos, como o de eletroeletrônicos. A venda de televisores subiu 78% em junho em relação ao ano passado. O mesmo ocorreu com aparelhos de ar-condicionado (70%), geladeiras (10%) e computadores (8%). O número de passageiros de avião bateu o recorde histórico.

Nessa onda reformista, o governo argentino apostou que a volta do crescimento sozinha reequilibraria as contas públicas. Macri evitou fazer cortes de gastos profundos e reduzir ainda mais os subsídios aos preços da energia, para não aumentar a já altíssima inflação, que beira 30% ao ano. Mas o equilíbrio não veio. Em 2018, o humor dos investidores estrangeiros em relação aos países emergentes mudou, e foi aí que os problemas estruturais da Argentina voltaram à superfície — a alta dependência de financiamento externo, as baixas reservas internacionais, um mercado consumidor modesto e uma pauta de exportação pouco variada, composta majoritariamente de produtos agrícolas. “A Argentina está pagando o preço da política de gradualismo fiscal. A estratégia funcionou por um tempo, mas era óbvio que, para ajustar as contas mais depressa, o governo teria de comprometer o crescimento”, diz Alberto Ramos, diretor de pesquisas econômicas para América Latina do banco Goldman Sachs. É uma análise que pode servir de alerta para o próximo presidente do Brasil, que assumirá também sob forte pressão fiscal.

Num pronunciamento recente na televisão, o presidente Macri se defendeu dizendo que a Argentina foi atingida por uma sequência de tempestades que não podiam ser previstas. Mas o fato é que durante seu governo a dívida pública da Argentina aumentou de 52% do PIB, em 2015, para 59%, no primeiro trimestre deste ano. Com o agravamento da crise, os economistas preveem que a dívida chegue a 78% no fim do ano, o que causa ainda mais apreensão.

Para os economistas entrevistados por EXAME, a derrocada argentina começa com o aumento dos juros nos Estados Unidos desde 2016, reduzindo a oferta de dólares para os países emergentes. Desde então, investidores começaram a se preo-cupar com a capacidade de países como Argentina e Turquia honrarem suas dívidas externas, e isso prejudicou ainda mais a situação. O maior impacto se deu no câmbio. De maio a setembro, o peso argentino sofreu uma rápida desvalorização, de mais de 50%, a maior variação observada nas moedas de países emergentes. No começo do ano, o dólar era negociado a 18 pesos, um pouco acima dos 15 pesos que valia quando a Argentina adotou o regime flutuante. No início deste mês, havia chegado a 38 pesos.

A taxa de câmbio é importante porque 70% da dívida pública argentina está em moeda estrangeira. E, quanto mais o peso desvaloriza, maior é a quantidade de dinheiro necessária para pagar os juros da dívida. Diferentemente do que ocorre no Brasil, o Banco Central da Argentina tem reservas internacionais relativamente baixas — cerca de 50 bilhões de dólares, já contando parte do empréstimo dado pelo FMI em junho -— e tem menos ferramentas para suavizar a desvalorização do peso. A saída é elevar a taxa de juro de referência — hoje em 60% ao ano, a maior do mundo —, para evitar uma fuga maior de investidores externos.

Para completar a difícil situação, a atividade econômica na Argentina vem desacelerando mês a mês, prejudicada por for-te seca que fez a produção agrícola do país diminuir 30% em relação a 2017 e gerou perda de 8 bilhões de dólares nas exportações. Com receitas em queda e gastos em alta, não sobra alternativa para a Argentina senão cortar custos e fazer um ajuste mais drástico, algo que acaba contribuindo temporariamente para a desaceleração. Os analistas preveem queda de 2% no PIB em 2018 e crescimento de 0,7% em 2019.

Produtor de soja na Argentina: a seca fez a produção agrícola diminuir em 2018 | Sebastian Pani/AP Photo/Glow Images

Da parte do governo, o objetivo agora é cortar investimentos e gastos com pes-soal, reduzindo de 23 para 13 o número de ministérios, e diminuir os subsídios econômicos. Mas a maior parte do ajuste virá de um novo imposto sobre as exportações, uma vez que elas serão beneficiadas pela desvalorização cambial. O governo vai cobrar uma taxa de 4 pesos para cada dólar exportado. Para produtos manufaturados, a taxa será menor, de 3 pesos — afetando diretamente as exportações de peças e automóveis para o Brasil. Com essas medidas, o governo Macri espera economizar até o fim de 2019 cerca de 9 bilhões de dólares, quantia que seria suficiente para zerar o déficit fiscal já no ano que vem. É uma meta ambiciosa, mas, num ano de eleições, Macri sabe que é preciso que a economia volte a crescer quanto antes. “O governo provavelmente estabilizará a situação financeira assim que o FMI mostrar que está disposto a acelerar os desembolsos. Mas o grande custo social da austeridade manterá vivo o risco de um retorno aos kirchneristas nas eleições”, diz Eduardo Levy Yeyati, ex-economista–chefe do Banco Central da Argentina e professor na Universidade Torcuato Di Tella, em Buenos Aires. Para Andres Borenstein, economista-chefe para a Argentina do banco BTG Pactual, a credencial do governo para atingir o objetivo é boa. “Embora a Argentina não tenha alcançado suas metas de inflação, o governo conseguiu cumprir as metas de déficit fiscal em 2016 e 2017. E provavelmente deve cumprir os objetivos também em 2018”, diz Borenstein.

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Para o Brasil, que tem uma importante relação comercial com a Argentina, a crise vem em péssima hora. Com uma queda no PIB e uma recessão se aproximando, dificilmente as montadoras daqui poderão contar com o mercado argentino como fizeram nos últimos anos. “A Argentina é o principal país de destino das exportações de manufaturados do Brasil. Vamos ter uma série de impactos negativos”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior. É preciso torcer para que as reformas de Macri deem certo e que a crise argentina seja, de fato, uma tempestade passageira.