“O celular vai virar um cartão de crédito”

Para o principal executivo da Visa no continente americano, o mercado brasileiro, sempre aberto a novidades, vai mudar radicalmente nos próximos anos

São Paulo – O mercado brasileiro de cartões de crédito vai mudar, na opinião de William Sheedy, presidente da Visa para as Américas, uma das maiores bandeiras do mundo, com 2 bilhões de cartões. Em parte, as mudanças vão ocorrer por pressão do governo, que iniciou uma campanha contra os altos juros cobrados de quem atrasa a fatura.

Outra novidade — esta, de mais longo prazo — será a substituição dos cartões por pagamentos via celular. Em recente visita a São Paulo, Sheedy falou a EXAME.

1) EXAME – A campanha do governo contra os altos juros dos cartões de crédito afeta os planos da Visa no Brasil? 

William Sheedy – Não. Essa é uma discussão com os bancos, e eles estão respondendo à pressão do governo reduzindo os juros. Nossos objetivos são parecidos com os do governo, que quer diminuir o custo do crédito para incluir mais pessoas no mercado de consumo, o que beneficia a todos. De toda forma, os juros incidem apenas sobre uma pequena parte das compras. A maioria é paga à vista ou em parcelas sem juros.

2) EXAME – Esses parcelamentos só existem no Brasil. Sem eles, as pessoas não voltariam para os cheques? 

William Sheedy – O Brasil sempre será um mercado diferente. Temos de lidar com isso. Em compensação, o brasileiro se adapta rápido a novas tecnologias. Foi assim com os cartões com chip. Só a Visa tem 115 milhões deles no país. O Brasil é um dos mercados que mais recebem inovações da Visa. 

3) EXAME – Que novos meios de pagamento podem surgir? 

William Sheedy – Os pagamentos via celular vão ganhar espaço, porque são uma forma muito mais fácil de comprar. Além de fazer pagamentos, o usuário pode armazenar informações financeiras. A tendência é que esse cartão de plástico, que nos serviu bem por 50 anos, vire apenas uma representação digital num celular ou em outro dispositivo móvel em dez ou 15 anos.  

4) EXAME – Os cartões, então, tendem a desaparecer?

William Sheedy – É difícil afirmar que algo tão consolidado possa desaparecer — só a Visa tem 2 bilhões de cartões no mundo. Mas deve perder espaço. Na África, onde os cartões nunca foram relevantes, pode haver um salto direto para os celulares. 

5) EXAME – Menos de 30% das compras no Brasil são feitas com cartões. Não é pouco? 

William Sheedy – É um dos percentuais mais altos da América Latina, mas baixo em relação aos países desenvolvidos. Um mercado pouco explorado no Brasil é o de distribuição de benefícios sociais via cartões. Em programas como o Bolsa Família, os cartões poderiam ser usados não só para sacar dinheiro mas também em supermercados e lojas. Estamos conversando com o governo brasileiro sobre essa transição. 

6) EXAME – A Visa está negociando com o governo brasileiro para fornecer esses cartões? 

William Sheedy – Não, são apenas conversas para mostrar as vantagens do pagamento eletrônico. Fizemos um estudo que mostra que um crescimento de 10% no volume de pagamento eletrônico eleva a arrecadação de impostos quase 5%.

7) EXAME – Há planos de a Visa abrir o capital no Brasil, como já fizeram outras empresas estrangeiras?

William Sheedy – Não, isso nunca fez parte dos planos. A Visa opera como uma empresa global: marca, tecnologia, infraestrutura. Tudo é centralizado. O Brasil cresce com os recursos que decidimos investir aqui — e, hoje, é um dos mercados prioritários para a empresa.